Técnicos comprovam
que Renan fez negócios
agropecuários com empresas que não existem
Alexandre Oltramari
Ed Ferreira/AE
Renan Calheiros: enrolado com bois e lobista
O senador Renan Calheiros apostava que o recesso parlamentar abrandaria a crise política em que ele está mergulhado há dois meses. Imaginava que, passando algumas semanas longe dos holofotes, ganharia forças para tentar sobreviver à suspeita de que teve contas pessoais pagas por um lobista de empreiteira. A estratégia não deu certo. Na semana passada, a Polícia Federal iniciou a perícia nos documentos que Renan entregou ao Conselho de Ética do Senado. São recibos, notas fiscais e guias de trânsito animal (GTAs) apresentados pelo senador com os quais ele tenta comprovar que não precisava se socorrer de recursos do lobista. Renan, um ex-vendedor de chinelo que tinha um carro velho quando entrou na política, garante que juntou uma pequena fortuna vendendo bois. Antes mesmo do início da perícia, o papelório já começou a produzir desdobramentos comprometedores para o senador. Técnicos do Conselho de Ética que analisaram o material comprovaram que duas empresas que teriam comprado gado de Renan simplesmente não existem. "Se técnicos do próprio Senado atestam que o presidente vendeu bois para empresas de fachada, a situação dele fica ainda mais complicada", afirma o senador Pedro Simon (PMDB-RS), colega de partido de Renan.
Celso Junior/AE
Anderson Schneider/WPN
O lobista Cláudio
Gontijo e a
jornalista Mônica
Veloso: dinheiro
em envelope
da empreiteira
Poucas coisas podem ser mais dramáticas para um acusado do que o momento em que sua defesa, em vez de dissipar suspeitas, acaba por incriminá-lo. Pilhado em situação de flagrante promiscuidade, Renan confirmou que o lobista pagava suas despesas, mas garantiu que o dinheiro era seu, como se isso eliminasse o problema. O senador exibiu os comprovantes de venda de bois depois que VEJA revelou que a jornalista Mônica Veloso, mãe de uma filha do senador, recebeu das mãos do lobista Cláudio Gontijo, da empreiteira Mendes Júnior, uma pensão mensal de 12.000 reais entre 2004 e 2005. A quantia era entregue em dinheiro vivo dentro de envelopes timbrados da empreiteira. Com os documentos, o senador pretendia mostrar que tinha condições financeiras de arcar com os pagamentos da pensão. O problema é que algumas das empresas com as quais ele diz ter feito negócios nem sequer existiam. Uma reportagem da Rede Globo já havia revelado a fraude, que foi confirmada pelos técnicos do Senado. A pedido do Conselho de Ética, a Polícia Federal está realizando uma auditoria em toda a documentação apresentada pelo senador. Se o laudo da PF reafirmar que a defesa do senador utilizou recibos de empresas fajutas, como parece evidente, tudo leva a crer que Renan será ejetado da cadeira de presidente e poderá, inclusive, ter o mandato cassado.
Dida Sampaio/AE
Mistério: havia
uma casa onde
deveria existir
um frigorífico
Já prevendo
as conclusões – óbvias – da Polícia Federal,
Renan Calheiros prepara uma nova versão para tentar
convencer os colegas de Parlamento da origem de seus fantásticos
rendimentos agropecuários. Segundo o senador, devem-se
esquecer os tais recibos falsos e as tais empresas que não
existem. Todos os negócios, jurará de pés
juntos, foram realizados com um único frigorífico
de Alagoas, chamado Mafrial. Agora, se o Mafrial usou empresas
de fachada nessas transações, é um problema
que não cabe a ele, Renan, responder. Conveniente.
O que o presidente do Congresso não diz é que,
entre toda a documentação que entregou ao Conselho
de Ética, não há um único papel
que ateste sua relação comercial com o tal frigorífico.
Todas as supostas vendas de gado, de acordo com as notas fiscais
exibidas pelo senador, foram feitas para açougues da
periferia de Maceió. Procurada, a dona do frigorífico
Mafrial, Zoraide Beltrão, não retornou as ligações
de VEJA. Em declarações anteriores, a empresária
negou ter feito negócios com o senador. O Mafrial,
aliás, recebeu no ano passado a visita de dois agentes
da Polícia Federal. Eles investigavam o deputado federal
Augusto Farias, irmão do ex-tesoureiro PC Farias e
na época sem mandato, em uma operação
de suposta lavagem de dinheiro. A PF suspeita que Farias tenha
usado o Mafrial para justificar a origem de dinheiro ilícito.
Assim como Renan, Augusto Farias também experimentou
momentos de bonança com negócios agropecuários
em Alagoas.
Marco Antonio/Gazeta de Alagoas
Protesto contra a corrupção: MST invade fazenda dos Calheiros
Na semana passada, depois de dois meses sem visitar sua base eleitoral, Renan Calheiros finalmente apareceu em Alagoas, estado que o elegeu senador em 2002 com 800.000 votos, mais de 40% do total. Chegou a tempo de acompanhar de perto a movimentação de cerca de 400 famílias ligadas ao Movimento dos Sem Terra (MST) e a duas de suas dissidências mais raivosas, o Movimento de Libertação dos Sem-Terra (MLST) e o Movimento Terra, Trabalho e Liberdade (MTL). Elas invadiram uma fazenda do deputado federal Olavo Calheiros, irmão de Renan, mataram quinze bois para fazer churrasco e tinham planos de invadir fazendas do próprio Renan, vizinhas à propriedade do irmão. Olavo, cujo patrimônio declarado saltou de 100.000 reais para 4 milhões nos últimos oito anos, é suspeito de corrupção e de grilagem de terras na região de Murici, berço do clã Calheiros. A invasão, justificada pelos líderes como um protesto contra a grilagem de terras e a corrupção, tirou Renan do sério. Em seis entrevistas a emissoras de televisão e rádio controladas por aliados, duas delas em programas policiais de Alagoas, Renan disse que só sai do cargo enforcado ou queimado. "Vão ter de sacrificar o presidente do Senado. Mas vão ter de assumir a responsabilidade, que é sujar as mãos de sangue", disse Renan. "Vou resistir até o fim." A contagem regressiva já começou.