...desde que haja
fiscais qualificados, a sociedade
seja vigilante e os culpados sejam punidos. É o
que diz o especialista das Nações Unidas
Camila Pereira
Divulgação
"Corrupção
não é um crime sem vítimas. Na verdade,
as vítimas podem ser contadas aos milhões"
Há
trinta anos, o cientista político americano Stuart
Gilman se dedica a uma mesma tarefa: a de descobrir, nos diferentes
países que visita, como é possível evitar
que as pessoas pratiquem (ou proponham) ações
indevidas em troca de dinheiro ou seja, como se pode
evitar que elas corrompam ou se deixem corromper. Chefe do
Programa Global da ONU contra a Corrupção, sua
missão é coordenar os programas de combate ao
problema que as Nações Unidas desenvolvem junto
a uma série de países entre eles, o Brasil.
Antes de embarcar para Brasília, aonde chega nesta
segunda-feira, Gilman falou a VEJA de seu escritório
em Viena. Disse o que facilita e o que desestimula a corrupção,
defendeu a criação de agências independentes
para vigiar o poder público, contou que viu países
"renascer das cinzas" depois de passar por um intenso programa
de combate a esse tipo de crime e apontou os estragos que
ele provoca na economia e na vida política de uma nação.
"Um país que admite a pequena corrupção
abre caminho para que ocorram grandes esquemas", afirmou.
Veja O
senhor estuda o tema da corrupção há
trinta anos e já participou da implantação
de programas de combate ao problema nos cinco continentes.
O que o senhor diria que existe em comum entre os países
que enfrentam os piores problemas de corrupção?
Gilman Um passado ditatorial
certamente ajuda. Países que passaram por regimes autoritários,
como os do Leste Europeu, tendem a desenvolver uma cultura
de corrupção maior pelo fato de serem menos
transparentes, mais fechados. Outro elemento que interfere
nessa situação é o grau de controle que
o estado tem sobre a economia. Quanto maior ele é,
mais alto é o nível de corrupção.
Isso porque você cria uma burocracia estatal enorme,
que, por sua vez, abre centenas de caminhos para o desvio
de dinheiro público. Em terceiro lugar, nos países
com alta incidência de corrupção, o número
de funcionários públicos tende a ser também
muito grande. Neles, o serviço público é
usado não exatamente para servir os cidadãos,
mas para reduzir o desemprego. Isso resulta em baixos salários
e, portanto, em mais tentação para roubar. Mas
é preciso deixar claro que corrupção
existe em todos os países. O que vai determinar se
ela será grande ou pequena é, acima de tudo,
a capacidade de os governantes desenvolverem mecanismos para
prevenir ao máximo o problema, criando um ambiente
desfavorável para o crime. É preciso também
garantir que, se as pessoas forem corruptas, elas serão
pegas e punidas de fato.
Veja Como
se desenvolvem esses mecanismos? Gilman Antes de tudo, é
necessário que o combate à corrupção
saia da esfera do discurso e adentre a da ação.
Sem isso, nenhum programa vai para a frente. Outro aspecto
fundamental é diagnosticar a situação
com precisão. É comum que se incorra no erro
de combater o problema a partir de percepções
genéricas e, muitas vezes, equivocadas. Avaliações
precisas ajudam a traçar estratégias mais focadas
e, portanto, mais eficazes.
Veja O
senhor poderia dar um exemplo? Gilman A África
do Sul. O sistema judicial nesse país era considerado
um grande foco de corrupção. Em 2005, uma pesquisa
feita por nós constatou que metade dos entrevistados
acreditava nisso. Apenas um em cada 1 000 entrevistados, no
entanto, dizia ter pago propina a um oficial de Justiça.
Ao fim do trabalho, foi possível concluir que o maior
problema do sistema judicial do país não era
a corrupção, e sim a ineficiência. O que
ocorria era que as pessoas associavam a perda de provas e
o arquivamento de casos à corrupção,
quando, na maior parte das vezes, esses problemas eram fruto
de incompetência pura e simples. O diagnóstico
fez com que o governo percebesse que sua prioridade não
deveria ser o investimento num programa anticorrupção,
mas a adoção de medidas que dessem mais eficiência
ao sistema judicial. Foi o que se fez.
Veja O
senhor está vindo ao Brasil para, entre outras coisas,
dar continuidade a um programa anticorrupção
que a ONU desenvolve em parceria com a Controladoria-Geral
da União (CGU). O que já foi feito até
agora? Gilman Oferecemos
um treinamento para o pessoal da CGU sobre técnicas
para detectar corrupção mais especificamente,
crimes financeiros. Afinal de contas, não adianta nada
investigadores terem acesso a milhares de documentos se eles
não souberem interpretar os dados de modo a permitir
que identifiquem onde estão os esquemas. Uma próxima
etapa importante será a realização de
pesquisas para entender melhor as vulnerabilidades do país
em relação à corrupção.
Como já disse, avaliações precisas resultam
em estratégias mais eficazes. O Brasil tem particularidades,
como o grande número de estados da federação,
que exigem medidas diferentes das adotadas em outros países.
Por isso, vamos nos reunir também com os governos estaduais
para discutir a questão. Por fim, a ONU quer enfatizar
no Brasil a necessidade de a sociedade civil e o setor privado
participarem do enfrentamento do problema. O interesse é
de todos. Se a discussão for apenas entre partidos
políticos, a situação nunca se resolverá.
Veja O
senhor já disse que prevenir a corrupção
é a primeira forma de combatê-la. Como é
possível prevenir que as pessoas roubem? Gilman Vigiando-as,
é claro. A criação de agências
independentes que fiscalizem de perto e continuamente o poder
público é fundamental para desestimular o crime.
Essas agências podem verificar, por exemplo, se, depois
que o governo liberou verbas para a construção
de uma escola, a escola foi realmente erguida. Parece engraçado,
mas em muitos países isso não ocorre. Outra
maneira eficiente de prevenir a corrupção nos
governos é fazer uma triagem permanente de funcionários.
Na Albânia, há cerca de três anos, o governo
submeteu todos os fiscais responsáveis pela coleta
de impostos a um teste de integridade, para avaliar a conduta
de cada um. Nesse tipo de avaliação, investiga-se
se há compatibilidade entre os valores que cada fiscal
deveria ter arrecadado e o dinheiro que realmente entrou nos
cofres do governo. Ou, ainda, se os funcionários têm
um padrão de vida compatível com seus salários.
Fiscais colocados sob suspeita chegam a receber ofertas de
propina de policiais disfarçados. Ao final do processo
na Albânia, aproximadamente metade dos funcionários
foi demitida. No ano seguinte, a arrecadação
praticamente triplicou. Mas prevenção, sozinha,
não resolve o problema. É preciso combinar prevenção
e punição. E, quando falo de punição,
não estou falando apenas da punição na
esfera criminal. É interessante observar que, nos países
que desenvolveram os melhores sistemas de combate à
corrupção, as sanções são
em grande parte administrativas ou cíveis.
Veja O
senhor está dizendo que as punições,
para funcionar, não precisam ser severas? Gilman Exatamente. Muitos
países acreditam que, quanto mais severa a pena de
prisão, menor a corrupção. Mas há
lugares onde conseguir um emprego é uma tarefa dificílima
e ser demitido do serviço público pode ser tão
terrível quanto ir para a cadeia. Além disso,
penas administrativas, em geral, são aplicadas de maneira
muito mais rápida do que as criminais: os processos
na Justiça costumam se arrastar por anos. Outra coisa
importante é impedir que o dinheiro escape. Muitos
corruptos ficam felizes em ir para a cadeia por um ano se
podem colocar 10 milhões de dólares em um banco
nas Bahamas. É preciso garantir que os corruptos não
tenham segurança para roubar, mas também que
seu dinheiro não fique seguro. Na Nigéria, que
é conhecida por seus problemas com a corrupção,
a Comissão de Crimes Econômicos e Financeiros
do país fez um trabalho com a ajuda da ONU. Nos últimos
três anos, conseguimos resgatar 3 bilhões de
dólares que estavam espalhados pelo mundo, fruto de
desvios da corrupção. Isso ajuda a desestimular
o crime.
Veja No
Brasil, temos casos de políticos que, mesmo com processos
criminais em andamento ou depois de renunciar para evitar
um processo de cassação, acabam se reelegendo.
É possível impedir que isso aconteça?
Gilman Políticos
desonestos são eleitos e reeleitos em muitos países.
Nos Estados Unidos, por exemplo, um parlamentar foi reeleito
no ano passado depois de a polícia encontrar 100 000
dólares em dinheiro vivo dentro de seu freezer. Então,
impedir que isso ocorra é difícil. Mas o importante,
nesses casos, é evitar que isso se torne a regra. A
própria instituição parlamentar pode
tentar dificultar a atuação de um deputado contra
quem existam fortes acusações de corrupção.
No Quênia e na Nigéria, por exemplo, assim que
é aberta uma ação penal contra um parlamentar,
ele perde o direito ao voto nas sessões do Congresso.
Ainda conservará seu mandato, mas essa sanção
o enfraquece.
Veja
Mesmo quando a corrupção já atingiu níveis
muito altos, ainda é possível falar em prevenção?
Gilman Sem
dúvida. Eu vi países ser reerguidos das cinzas
por meio de programas anticorrupção. Hong Kong
é um caso exemplar. Há trinta anos, quando a
então colônia britânica se mobilizou para
combater o problema, a corrupção estava tão
alastrada que, se fosse preciso demitir todos os funcionários
públicos suspeitos, não sobraria nenhum. Hoje,
Hong Kong não tem mais do que uma dúzia de servidores
denunciados por ano. O modelo que funcionou para eles combinou
punição efetiva com mecanismos de prevenção.
Depois de uma decisão controversa de conceder anistia
a todas as pessoas acusadas em escândalos até
então, anunciou-se que, a partir daquele momento, qualquer
desvio de conduta seria punido com rigor. E isso realmente
foi feito, com ampla publicidade para as prisões e
demissões de corruptos que se seguiram. Outra coisa
que deu certo foi envolver a população no processo.
Por intermédio de um excelente escritório de
comunicação, o governo abriu canais para as
pessoas fazerem denúncias e se esforçou para
mantê-las informadas sobre todas as ações
anticorrupção. Também se preocupou em
educar a sociedade. Por meio de aulas em escolas e outras
iniciativas, as crianças de Hong Kong aprendem, desde
cedo, por que a corrupção é ruim para
o país.
Veja
Qual é o impacto que a corrupção tem
sobre a economia? Gilman O Banco Mundial
estima que, nos países onde os índices de corrupção
são mais altos, como o Congo, entre 25% e 30% do PIB
seja desperdiçado em decorrência do problema.
Em países onde a corrupção está
sob controle, esses valores não ultrapassam os 3%.
Isso ocorre, sobretudo, porque a corrupção afasta
os investidores. As grandes companhias internacionais, evidentemente,
preferem investir em países onde não têm
de pagar propinas.
Veja
Além do impacto sobre a economia, que outros prejuízos
a corrupção acarreta para um país? Gilman Se a corrupção
não é controlada, destrói-se um dos valores
fundamentais de uma democracia: a confiança da população
no governo e nas instituições. Isso é
muito ruim porque, em última instância, abre
caminho para regimes autoritários. Em um cenário
de falência das instituições democráticas,
as pessoas podem se deixar levar pela idéia de que
a corrupção está ligada à democracia.
Isso porque, nas ditaduras e em outros regimes fechados, embora
a corrupção exista, ela não é
visível. Na Tailândia, no ano passado, uma junta
militar depôs o governo legítimo usando como
justificativa os sucessivos escândalos de corrupção
em que o primeiro-ministro estaria envolvido. O golpe teve
apoio popular. É fundamental não perder de vista
esses impactos negativos da corrupção: ela leva
ao colapso econômico e à desconfiança
da população em relação aos governos,
além de alimentar muitos outros males sociais.
Veja
Que males são esses? Gilman Tráfico de
seres humanos, tráfico de drogas, crime organizado
e até terrorismo são ajudados ou sustentados
pela corrupção. Há três anos, dois
aviões russos explodiram em um atentado terrorista.
As duas mulheres que entraram nos aviões e mataram
quase uma centena de pessoas pagaram pouco mais de 50 dólares
cada uma para conseguir embarcar sem ser revistadas pela segurança
do aeroporto. É uma propina bem barata, mas corrupção
não precisa ser cara. O funcionário que recebeu
a propina está na cadeia, mas isso não traz
as vidas de volta. Pense agora no tráfico de seres
humanos e de drogas. Como você consegue cruzar a fronteira
com pessoas sem pagar propina a um oficial da imigração?
Como você passa grandes carregamentos de cocaína
pelas fronteiras? É essencial salientar essas conexões,
porque, do contrário, as pessoas podem continuar pensando:
"Eu paguei uma cervejinha a um policial, para ele não
me multar, mas que mal há nisso?". Pois é, o
problema é que um país que admite a pequena
corrupção abre caminho para que ocorram grandes
esquemas. Corrupção não é um crime
sem vítimas. Na verdade, as vítimas podem ser
contadas aos milhões.