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Edição 1 711 - 1° de agosto de 2001
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Pague e seja feliz

Enfim, uma multinacional
de auto-ajuda

José Eduardo Barella

O seminário prolonga-se por três dias consecutivos, das 9 da manhã à meia-noite, com apenas três pequenos intervalos diários. Os participantes são bombardeados por um discurso na linha "você vai se transformar". Todos são convidados à introspecção para identificar os medos e os traumas vividos, contá-los aos outros, discuti-los à exaustão e esquecê-los de vez. O passo seguinte é valorizar a si próprio e recomeçar do zero, com uma nova personalidade despida dos defeitos do passado. Resumo: só com determinação e otimismo é possível alcançar a felicidade. Ao final, não faltam participantes eufóricos, que falam em "renascimento", "vida nova" e outras expressões típicas dos programas motivacionais. Com seus seminários, a Landmark Education é a organização de auto-ajuda da moda em Nova York, nas capitais européias e no Japão. Gigantes como Microsoft, IBM, Ford e Reebok pagam para seus executivos freqüentarem os seminários. A organização ainda não abriu representação no Brasil, mas já realizou dois cursos em São Paulo, em 1999. Participaram gerentes da Coca-Cola, Telemar e Odebrecht. Cada participante pagou cerca de 3.000 reais. Ninguém tem dúvida de que quando inaugurar uma filial por aqui será recebida de braços abertos pelos brasileiros, que, como todo mundo, adoram programas de auto-ajuda.

O Landmark Forum, como é mais conhecido, não é barato. O primeiro curso custa 375 dólares. Mas 75% dos participantes acabam completando o ciclo básico, num total de 250 horas, cujo preço chega a 1.000 dólares. Há outros sessenta cursos e apenas um deles, "Programa da sabedoria", sai por 1.900 dólares. Mas quem se preocupa com dinheiro quando a recompensa é a cura para as angústias espirituais e financeiras? A resposta é simples: a própria Landmark Education, transformada numa máquina de fazer dinheiro. A organização, criada em San Francisco nos anos 70 por um vendedor de enciclopédias chamado Werner Erhard, transformou-se numa multinacional de auto-ajuda. Estima-se que meio milhão de pessoas já participaram de seus seminários. A Landmark tem escritório em 55 cidades de quinze países, a maioria no Primeiro Mundo. Fatura por ano 50 milhões de dólares e conta com 420 funcionários e 7.500 voluntários. O sucesso acompanhou o crescimento da indústria da auto-ajuda, fenômeno mundial que já abocanhou o mercado de livros e conquistou corações, mentes e bolsos de estrelas de Hollywood (veja quadro). A Landmark é a vedete do momento, sobretudo pelo cuidado nos detalhes. Em seus seminários, tudo é planejado, da cor da sala ao volume do microfone do orador. Não há propaganda dos cursos – a divulgação é feita por ex-participantes, no estilo Amway. Com isso, quem o freqüenta pela primeira vez não tem idéia do que virá pela frente.

O fator-surpresa funciona: nos dois primeiros dias, todos são instigados a "compartilhar", no jargão dos oradores, a contar as angústias na frente de todos, numa espécie de catarse coletiva. O início é constrangedor, mas no fim todos estão discutindo abertamente seus sentimentos mais íntimos. O passo seguinte é convencer todos a deixar para trás as dores. O que passou, passou. Depois são horas de motivação para a "transformação". É irônico que essa organização tão voltada ao lucro tenha surgido em meio ao movimento da contracultura dos anos 70, quando várias seitas esotéricas e entidades laicas pipocaram nos Estados Unidos e na Europa explorando o autoconhecimento. Muitas enveredaram para o misticismo, seguindo os preceitos das religiões orientais. Outras se especializaram em oferecer o bem-estar material e espiritual como um serviço pago. Foi quando as técnicas de auto-ajuda começaram a ganhar força.

Ao abrir seu negócio, em 1971, com o nome de EST, a organização de Erhard ficou conhecida na Califórnia pelos seminários que abusavam de sessões catárticas em grupo. Autodidata, Erhard criou um método cujas linhas mestras são seguidas até hoje. Foi logo acusado de plagiar a Igreja da Cientologia, a corrente de pensamento filosófico-religioso criada nos anos 50 pelo guru americano L. Ron Hubbard. Erhard acrescentou linhas terapêuticas baseadas na psicologia motivacional para montar sua doutrina. As acusações de charlatanismo e de lavagem cerebral, por parte de entidades religiosas e de psicologia, chegaram aos tribunais. Muita gente torceu o nariz ao fato de a organização visar ao lucro, como uma empresa qualquer. Erhard chegou a ser acusado de sonegação de impostos e de praticar incesto, mas foi absolvido. Mesmo assim, afastou-se da EST em 1991, vendendo o know-how dos cursos para a equipe que ficou. Seu irmão, Harry Rosenberg, assumiu a presidência, mudou o nome da organização para Landmark Education e comandou o processo de expansão até torná-la uma gigante da auto-ajuda. O guru Erhard soube seguir o que pregou. Vive hoje no Caribe e dedica a maior parte do tempo aos prazeres da gastronomia.

 

LANDMARK EDUCATION

O QUE É
Organização de auto-ajuda
COMO FUNCIONA
Promove seminários e cursos de imersão
O QUE PROMETE
Motivar e injetar otimismo por meio do expurgo de traumas e inseguranças pessoais. Tudo, inclusive a riqueza, é possível para quem "recomeça"
QUANTO CUSTA
375 dólares o curso inicial de três dias. O treinamento básico fica em 1 000 dólares
QUEM ADERIU
Yoko Ono, Cher, executivos da Microsoft

 

O nirvana de cada estrela

Técnicas que mesclam misticismo com
auto-ajuda estão em alta em Hollywood

IGREJA DA CIENTOLOGIA

Fundada pelo americano L. Ron Hubbard nos anos 50, a Igreja da Cientologia tem adeptos em vários países, incluindo Estados Unidos e quase toda a Europa. Por meio de cursos, livros e técnicas psicoterapêuticas promete livrar os praticantes de traumas de vidas passadas. O objetivo é a evolução da mente e o bem-estar material. Já foi processada na Alemanha por declarar-se instituição religiosa para não pagar impostos, mas cobra por seus serviços. Os cursos custam em torno de 700 dólares. Alguns de seus seguidores mais famosos: Tom Cruise, John Travolta, Juliette Lewis e Lisa Marie Presley

 

CABALA

Uma versão light do esoterismo medieval judaico tornou-se popular nos últimos anos nos Estados Unidos. A partir da década de 70, um rabino empreendedor, chamado Philip Berg, fundou uma cadeia de centros de estudos, que oferecem cursos e palestras com temas bastante mundanos, do tipo "como combater o stress" ou "como ir bem nos negócios". Há filiais em várias partes do mundo, inclusive no Brasil, e 10 milhões de pessoas já participaram de seus cursos. Entre elas, os ícones do show business Madonna, Mick Jagger e Barbra Streisand

 

   
 
   
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