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Pague
e seja feliz
Enfim,
uma multinacional
de auto-ajuda
José
Eduardo Barella
O seminário prolonga-se por três dias consecutivos, das 9
da manhã à meia-noite, com apenas três pequenos intervalos
diários. Os participantes são bombardeados por um discurso
na linha "você vai se transformar". Todos são convidados
à introspecção para identificar os medos e os traumas
vividos, contá-los aos outros, discuti-los à exaustão
e esquecê-los de vez. O passo seguinte é valorizar a si próprio
e recomeçar do zero, com uma nova personalidade despida dos defeitos
do passado. Resumo: só com determinação e otimismo
é possível alcançar a felicidade. Ao final, não
faltam participantes eufóricos, que falam em "renascimento", "vida
nova" e outras expressões típicas dos programas motivacionais.
Com seus seminários, a Landmark Education é a organização
de auto-ajuda da moda em Nova York, nas capitais européias e no
Japão. Gigantes como Microsoft, IBM, Ford e Reebok pagam para seus
executivos freqüentarem os seminários. A organização
ainda não abriu representação no Brasil, mas já
realizou dois cursos em São Paulo, em 1999. Participaram gerentes
da Coca-Cola, Telemar e Odebrecht. Cada participante pagou cerca de 3.000
reais. Ninguém tem dúvida de que quando inaugurar uma filial
por aqui será recebida de braços abertos pelos brasileiros,
que, como todo mundo, adoram programas de auto-ajuda.
O Landmark Forum, como é mais conhecido, não é barato.
O primeiro curso custa 375 dólares. Mas 75% dos participantes acabam
completando o ciclo básico, num total de 250 horas, cujo preço
chega a 1.000 dólares. Há outros sessenta cursos e apenas
um deles, "Programa da sabedoria", sai por 1.900 dólares. Mas quem
se preocupa com dinheiro quando a recompensa é a cura para as angústias
espirituais e financeiras? A resposta é simples: a própria
Landmark Education, transformada numa máquina de fazer dinheiro.
A organização, criada em San Francisco nos anos 70 por um
vendedor de enciclopédias chamado Werner Erhard, transformou-se
numa multinacional de auto-ajuda. Estima-se que meio milhão de
pessoas já participaram de seus seminários. A Landmark tem
escritório em 55 cidades de quinze países, a maioria no
Primeiro Mundo. Fatura por ano 50 milhões de dólares e conta
com 420 funcionários e 7.500 voluntários. O sucesso acompanhou
o crescimento da indústria da auto-ajuda, fenômeno mundial
que já abocanhou o mercado de livros e conquistou corações,
mentes e bolsos de estrelas de Hollywood (veja
quadro).
A Landmark é a vedete do momento, sobretudo pelo cuidado nos detalhes.
Em seus seminários, tudo é planejado, da cor da sala ao
volume do microfone do orador. Não há propaganda dos cursos
a divulgação é feita por ex-participantes,
no estilo Amway. Com isso, quem o freqüenta pela primeira vez não
tem idéia do que virá pela frente.
O fator-surpresa funciona: nos dois primeiros dias, todos são instigados
a "compartilhar", no jargão dos oradores, a contar as angústias
na frente de todos, numa espécie de catarse coletiva. O início
é constrangedor, mas no fim todos estão discutindo abertamente
seus sentimentos mais íntimos. O passo seguinte é convencer
todos a deixar para trás as dores. O que passou, passou. Depois
são horas de motivação para a "transformação".
É irônico que essa organização tão voltada
ao lucro tenha surgido em meio ao movimento da contracultura dos anos
70, quando várias seitas esotéricas e entidades laicas pipocaram
nos Estados Unidos e na Europa explorando o autoconhecimento. Muitas enveredaram
para o misticismo, seguindo os preceitos das religiões orientais.
Outras se especializaram em oferecer o bem-estar material e espiritual
como um serviço pago. Foi quando as técnicas de auto-ajuda
começaram a ganhar força.
Ao abrir seu negócio, em 1971, com o nome de EST, a organização
de Erhard ficou conhecida na Califórnia pelos seminários
que abusavam de sessões catárticas em grupo. Autodidata,
Erhard criou um método cujas linhas mestras são seguidas
até hoje. Foi logo acusado de plagiar a Igreja da Cientologia,
a corrente de pensamento filosófico-religioso criada nos anos 50
pelo guru americano L. Ron Hubbard. Erhard acrescentou linhas terapêuticas
baseadas na psicologia motivacional para montar sua doutrina. As acusações
de charlatanismo e de lavagem cerebral, por parte de entidades religiosas
e de psicologia, chegaram aos tribunais. Muita gente torceu o nariz ao
fato de a organização visar ao lucro, como uma empresa qualquer.
Erhard chegou a ser acusado de sonegação de impostos e de
praticar incesto, mas foi absolvido. Mesmo assim, afastou-se da EST em
1991, vendendo o know-how dos cursos para a equipe que ficou. Seu irmão,
Harry Rosenberg, assumiu a presidência, mudou o nome da organização
para Landmark Education e comandou o processo de expansão até
torná-la uma gigante da auto-ajuda. O guru Erhard soube seguir
o que pregou. Vive hoje no Caribe e dedica a maior parte do tempo aos
prazeres da gastronomia.
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LANDMARK
EDUCATION
O
QUE É
Organização de auto-ajuda |
COMO
FUNCIONA
Promove seminários e cursos de imersão |
O
QUE PROMETE
Motivar e injetar otimismo por meio do expurgo de traumas e
inseguranças pessoais. Tudo, inclusive a riqueza, é possível
para quem "recomeça" |
QUANTO
CUSTA
375 dólares o curso inicial de três dias. O treinamento
básico fica em 1 000 dólares |
QUEM
ADERIU
Yoko Ono, Cher, executivos da Microsoft |
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O
nirvana de cada estrela
Técnicas
que mesclam misticismo com
auto-ajuda estão em alta em Hollywood
IGREJA
DA CIENTOLOGIA
Fundada
pelo americano L. Ron Hubbard nos anos 50, a Igreja da Cientologia
tem adeptos em vários países, incluindo Estados Unidos e quase toda
a Europa. Por meio de cursos, livros e técnicas psicoterapêuticas
promete livrar os praticantes de traumas de vidas passadas. O objetivo
é a evolução da mente e o bem-estar material. Já foi processada
na Alemanha por declarar-se instituição religiosa para não pagar
impostos, mas cobra por seus serviços. Os cursos custam em torno
de 700 dólares. Alguns de seus seguidores mais famosos: Tom Cruise,
John Travolta, Juliette Lewis e Lisa Marie Presley
CABALA
Uma
versão light do esoterismo medieval judaico tornou-se popular nos
últimos anos nos Estados Unidos. A partir da década de 70, um rabino
empreendedor, chamado Philip Berg, fundou uma cadeia de centros
de estudos, que oferecem cursos e palestras com temas bastante mundanos,
do tipo "como combater o stress" ou "como ir bem nos negócios".
Há filiais em várias partes do mundo, inclusive no Brasil, e 10
milhões de pessoas já participaram de seus cursos. Entre elas, os
ícones do show business Madonna, Mick Jagger e Barbra Streisand
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