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Livros O
crítico musical inglês Jon Savage segue a evolução
Frank Sinatra costuma ser lembrado como o senhor de voz impecável e olhos azuis que fez gravações definitivas de My Way e Strangers in the Night - standards que dificilmente se encontram no iPod da garotada. Nos anos 40, porém, o jovem Sinatra foi um ídolo adolescente no molde dos Jonas Brothers. Arrancava gritos histéricos das fãs (as mais ousadas até jogavam calcinhas no palco). Sua ascensão ao estrelato ocupa o capítulo final de A Criação da Juventude (tradução de Talita M. Rodrigues; Rocco; 560 páginas; 84 reais), do crítico inglês Jon Savage. Na visão do autor, Sinatra e suas plateias de garotos eram a síntese exata de um novo espírito americano, hedonista e autoconfiante, que emergia da vitória na II Guerra Mundial. Mais importante, o sucesso do cantor consolidaria a ideia de uma cultura especificamente jovem, que nas décadas seguintes - a era do rock e do pop - seria o motor da indústria do entretenimento. A gestação desses valores juvenis foi longa e acidentada, como o livro de Savage demonstra exemplarmente. Contrariando o lugar-comum que atribui ao rock dos anos 50 e 60 a primazia das revoltas juvenis, o crítico desvela uma tradição esquecida de movimentos sociais, políticos e artísticos que no século XX levantaram, para o bem e para o mal, a bandeira da rebeldia.
A necessidade de pertencimento a um grupo, tão própria da psicologia adolescente, seria manipulada politicamente pelos movimentos fascistas da primeira metade do século XX. A Juventude Hitlerista, con-jugando fervor racista e truculência hormonal, teve papel importante na ascensão do nazismo. "Os filhos dos meus adversários me pertencem", disse Adolf Hitler, em uma de suas longas perorações ao povo alemão. O contraponto aos nazistas mirins eram os swing kids, garotos alemães que adoravam música americana e arriscavam-se a ouvir jazz e programas da rádio inglesa BBC, o que era proibido pelo regime nazista. Minoritários na Alemanha, os fãs do swing eram multidão nos Estados Unidos, onde o gênero musical começou a romper, já nos anos 30, as barreiras da segregação racial. Jovens brancos rendiam-se a um ritmo negro (ainda que interpretado por band leaders brancos, como Tommy Dorsey e Glenn Miller). E em alguns bailes até se viam brancos e negros dançando juntos. O sucesso do swing foi decisivo para que a indústria do entretenimento despertasse de vez para o potencial da juventude como público consumidor. Nos anos 40, são lançadas as primeiras revistas dedicadas exclusivamente ao leitor jovem. Na mesma época, consagra-se a palavra teenager para definir o período que vai dos 13 ou 14 até os 19 anos. O vocábulo faz sua primeira aparição na imprensa em uma espécie de manifesto publicado em 1945 pelo New York Times - uma "Carta dos Direitos dos Adolescentes". Depois viriam os beats, os hippies, os punks, os metaleiros - mas isso já extrapola os limites do livro, que se encerra em 1945, com as bombas atômicas sobre o Japão e o som de Frank Sinatra. O final de A Criação da Juventude peca pela reprovação moralista ao "consumismo" da cultura jovem - pendor que Savage confirmou na entrevista: "A rebeldia adolescente foi banalizada pela indústria", disse. Esse purismo mal-humorado ganha mais graça quando se volta contra os quarentões que ganham a vida fazendo pose de adolescente. Savage tem ódio visceral pela obra de Nick Hornby, o escritor pop de Alta Fidelidade. "É um autor mediano, que inventou um personagem que existe apenas na sua imaginação - o tiozinho que vive como se fosse um adolescente", ataca.
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