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Fotografia
O mundo era um dia ensolarado

Após 74 anos, sai de linha o Kodachrome, filme
mítico que moldou a foto profissional do século XX
e eternizou as memórias de famílias comuns


Paulo Vitale

Steve McCurry
COR E TEXTURA
A afegã Sharbat Gula, registrada por Steve McCurry em 1984: exemplo icônico da precisão e riqueza do Kodachrome, símbolo do estilo da National Geographic


É muito provável que você já tenha visto a foto ao lado, da afegã Sharbat Gula, que em 1984 ilustrou aquela que se tornaria a mais célebre das capas da National Geographic. A transparência e a profundidade do olhar de Sharbat, e a infinidade de tonalidades e texturas do seu véu puído, são um exemplo definitivo do resultado que um grande fotógrafo – no caso, o americano Steve McCurry – é capaz de extrair de um "assunto" quando munido de uma ferramenta singular: um rolo de filme Kodachrome. Essa película mítica, a primeira a popularizar a fotografia em cores e a mais cultuada entre sucessivas gerações de profissionais, moldou não apenas estilos pessoais como a própria fotografia. A precisão com que capta as mais sutis variações de cor e sua resistência incomum à degradação fizeram do Kodachrome uma lenda. Na semana passada, a Eastman Kodak, que desde 1935 fabricava o Kodachrome, anunciou o ponto final nessa longa e rica trajetória. Acossado pela concorrência de outros produtos da mesma empresa e de suas competidoras, pela imensa dificuldade de seu processamento e, principalmente, pelos avanços da revolução digital, o filme teve sua produção encerrada.

Nesses 74 anos de vida, o Kodachrome virou um ícone do "American way of life", homenageado na canção de Paul Simon que leva seu nome, lançada em 1973; eternizou a infância dos filhos, as férias e as comemorações de milhões de famílias ao redor do mundo. Educou o olhar de um sem-número de fotógrafos. As melhores imagens coloridas da coroação da rainha Elizabeth II, da Inglaterra, são os fotogramas Kodachrome de um filme de 16 milímetros. Mas foi nas páginas da National Geographic que ele se eternizou. Foi o filme usado pelos profissionais da revista, que desbravaram os lugares remotos do planeta e produziram imagens exóticas com cores puras e saturadas, cunhando um estilo que terminou por definir o próprio padrão da publicação.

David Duprey/AP

FOCO DE RESISTÊNCIA
O rolo que vai virar história: revelação só no interior do Kansas

O Kodachrome pertence a uma era em que só o tempo, a dedicação e a paciência produziam obras duráveis. Seu processo de revelação, caro e complexo, foi um obstáculo à sua popularização. O Kodachrome nunca foi revelado no Brasil. Era preciso despachá-lo para os Estados Unidos e sofrer duas semanas de agonia até receber as fotos. O Kodachrome minguou a partir dos anos 90, com o advento de filmes similares e bem mais baratos, e com a posterior migração para a fotografia digital, que no seu progresso avassalador já consegue reproduzir as virtudes das melhores películas. Nos últimos tempos, respondia por não mais do que 1% do faturamento da Kodak com a venda de filmes. Continuar a produzi-lo seria, portanto, uma insensatez num momento em que a Eastman Kodak luta para se reposicionar no mercado digital (no ano passado, a empresa enfrentou uma desvalorização de 4,53 bilhões de dólares). O Kodachrome, porém, conta com um último foco de resistência: o Dwayne’s Photo, um laboratório familiar na cidade de Parsons, estado do Kansas, que promete revelar rolos desse filme legendário até 31 de dezembro de 2010. Pode-se apostar que o Dwayne’s vai ter trabalho a fazer até o último dia.



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