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Fotografia
Terras devastadas

O fotógrafo canadense Robert Polidori – cuja obra terá
mostra no Rio – documenta tragédias humanas retratando
não as vítimas, mas as suas casas


Marcelo Bortoloti

Fotos Robert Polidori
VIOLÊNCIA NATURAL
Uma rua de Nova Orleans depois do furacão Katrina: a série mais marcante da carreira de Robert Polidori


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Galeria de imagens
de Robert Polidori

Em 1985, o fotógrafo Robert Polidori, canadense radicado nos Estados Unidos, começou a fazer registros de um tipo de crime que estava se tornando comum em Nova York. No Lower East Side, região então decadente da cidade, adolescentes depredavam apartamentos vazios, de idosos que haviam acabado de morrer. A intenção não era roubo, mas vandalismo. Polidori deparou com imagens perturbadoras e descobriu um tema: a casa. Em especial, a habitação que foi profanada pela violência, destruída por catástrofes naturais ou apenas deteriorada pela passagem do tempo. Começou aí uma série. Em 1994, ele foi a Beirute, a capital do Líbano, destroçada pela guerra civil. Três anos depois, em Havana, a capital cubana, fotografou prédios e casas: as paredes descascadas e os interiores lúgubres eram testemunho da miséria – não apenas material – que a ditadura de Fidel Castro impunha ao país. Em 2001, Polidori conseguiu entrar em regiões isoladas de Chernobyl e Pripyat, na ex-União Soviética, para registrar as marcas do acidente nuclear em escolas e prédios públicos ainda abandonados, quinze anos após a tragédia. Finalmente, entre 2005 e 2006, na série fotográfica mais marcante de sua carreira, ele registrou a passagem do furacão Katrina por Nova Orleans, mostrando bairros inteiros devastados pelas águas. Essa obra de enorme impacto e eloquência está compilada em dez livros e já foi exposta em museus como o Metropolitan de Nova York. Poderá agora ser vista no Brasil, entre 17 de julho e 27 de setembro, no Instituto Moreira Salles do Rio de Janeiro.

INTERIORES PROFANADOS
Um apartamento em Beirute, no Líbano (à esq.) e um quarto em Havana, em Cuba. "Eu não me interesso pela ação, mas pelo que restou dela", diz o fotógrafo

A exposição brasileira conta com 69 imagens que representam os principais ensaios de Polidori desde o trabalho no Lower East Side. Nas fotos, praticamente não há pessoas. Elas registram quase sempre os ambientes – externos ou internos – que, segundo ele, expressam com grande clareza os valores de quem os construiu. Nos aspectos técnicos e formais, é um trabalho que se aproxima da fotografia de arquitetura, área em que Polidori transita quando não está fazendo trabalhos autorais. Ele não faz fotografia digital. Utiliza cromos de formato maior do que o convencional, capazes de captar mais detalhes. Também opta quase exclusivamente pela luz natural, para capturar os objetos da forma mais realista possível. As residências retratadas por Polidori parecem estar do avesso – com as entranhas expostas, por assim dizer. Não é um trabalho panfletário ou denuncista, disse o autor a VEJA. A intenção é produzir "documentos históricos e de algum valor artístico". "Eu não estou interessado na ação, como os fotógrafos de guerra. Eu me interesso pelo que restou dela", diz.

Em Nova Orleans, Polidori encontrou uma cidade ainda sem eletricidade, com cães raivosos andando pelas ruas e residências que cheiravam mal, com carne que apodrecia na geladeira. Desse cenário emergiu sua mais famosa série fotográfica. "As fotos têm de ser melhores do que a realidade. Se não forem, não são boas", afirma. Polidori, que já esteve no Brasil cinco vezes, virá para a abertura da exposição. Já agendou incursões às favelas da Rocinha e Dona Marta, no Rio de Janeiro, para registrar, a exemplo do que já fez na Índia e na Jordânia, a pobreza.



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