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Comportamento Para as muito vaidosas
que ainda não completaram
Na casa das irmãs Maria Victória e Maria Isadora Silva, de 12 e 9 anos, bonecas concorrem por espaço no armário com bolsas (muitas, de variados tamanhos e marcas, estrangeiras inclusive), sapatos (sem e com salto), maquiagem e cremes, muitos cremes. Os livros são alternados com revistas de moda. "Sempre gostei de vê-las bem arrumadas. Tudo nelas é impecável", orgulha-se a mãe, Kyone Ojura, professora de balé. Isso inclui o sacrifício, cumprido com certo prazer, de acordar às 6 horas todo dia para fazer escova no cabelo das meninas. O penteado complementa os alisamentos feitos com a chamada escova progressiva. "Prefiro que sejam assim a que cresçam desleixadas. A mulher tem de ser feminina, tem por obrigação ser vaidosa, e esses hábitos, como fazer mão, pé, depilação, devem ser cultivados desde criança. É igual a escovar os dentes", argumenta Kyone, que já se acostumou a voltar das viagens de férias com folga de uma semana para que as filhas ponham a aparência em ordem no salão. "Outro dia a Maria Isadora disse para a diretora da escola que quando for mais velha vai colocar silicone, 1 000 litros de cada lado", conta a mãe, divertindo-se com a confusão da filha a respeito da medida das próteses feita em mililitros, como todo mundo sabe. Muito já se falou sobre o assunto, e muito ainda se falará. Com estímulos vindos da televisão, da internet, das outras crianças e das próprias mães, as meninas vão adotando atitudes cada vez mais precoces na maneira de agir, de se vestir e de se preocupar com a aparência. O movimento é ascendente: começa com meninas de 8 ou 9 anos fazendo pé, mão e cabelo uma vez por semana e desemboca nas mesmas garotinhas empenhadas, muito antes do que se esperaria, em limpar a pele, combater a celulite e até clarear os dentinhos. "Há dez anos, as pacientes mais novas tinham 14 anos. Hoje, têm 9 e já notam em si coisas como cravos e pele oleosa. Também usam filtro solar para não envelhecer cedo nem manchar a pele. São preocupações mais precoces", descreve a dermatologista carioca Karla Assed. "Antes elas vinham ao salão e só limpavam as unhas. Agora fazem francesinha, usam esmaltes de cores fortes, imploram para fazer escova progressiva", surpreende-se Cristiane Calçolari, sócia de um conhecido salão de São Paulo. Nesse ambiente de expectativas inversas nas pontas e coincidentes no meio, em que mães querem parecer mais novas e filhas querem parecer mais velhas, a aspirante a atriz Laura Henares, 10 anos, acha muito importante ir bonita para a escola. "Começo a me trocar às 10 para poder sair às 12h50. Até escolher o colar, a sombra, o batom, fazer o cabelo, demora", diz ela. A mãe, a dermatologista Cláudia, conta que Laura via dois defeitos graves em sua aparência, os dentes superiores muito serrilhados e uma incipientíssima barriguinha. O primeiro foi solucionado pelo dentista Marcello Kyrillos, de uma clínica dentária especializada em estética em São Paulo. Kyrillos fez uma espécie de preenchimento de resina, que não exigiu o desgaste profundo do tratamento-padrão nem compromete o desenvolvimento futuro. "Antigamente, as meninas se preocupavam com a estética só no finzinho da adolescência, quando começavam a se maquiar. Agora, é tudo mais cedo", constata o dentista. "É normal os dentinhos nascerem meio tortos, separados, e irem fechando de acordo com o desenvolvimento do maxilar. Mas elas têm pressa, e é cada vez mais comum procurarem coisas puramente estéticas." Segundo Kyrillos, "as próprias mães perdem a referência do que é normal; por já terem feito clareamento ou colocado plaqueta, veem um dente normal e acham escuro". Dentes reformados, como Laura anda lidando com a imperceptível barriguinha? Vai aturando, que jeito. "O sonho dela é que eu arrume uma forma de exterminar a barriga", ri Cláudia que já fez clareamento e plaquetas nos próprios dentes e, até pelas facilidades da profissão, cuida da pele com os mais avançados tratamentos.
Exemplos extremos se multiplicam e evidentemente provocam reações muito críticas, às vezes descambando para o preconceito. Cuidados aparentemente excessivos com a aparência não são sinônimo de desajuste. Todas as meninas entrevistadas para esta reportagem brincam como crianças de sua idade, são boas alunas e vivem num ambiente familiar harmonioso. E até as mães mais despojadas encontram dificuldade em conter o processo desencadeado quando as filhas começam a escolher as próprias roupas, passar uma corzinha nas unhas e trocar informações estéticas com as amigas da escola. Quando as mães são vaidosas, as novidades são absorvidas com naturalidade. A dona de casa Carolina Arevalo Ramos, 36, nascida na Colômbia, radicada em São Paulo e mãe de duas meninas, Camila, 8, e Daniela, 6, relata como um fato da vida que a mais velha, entre outros procedimentos, já se submeteu a drenagem linfática, a massagem muito procurada por quem quer emagrecer. "A Cami estava um pouco gordinha. Fui com ela à endocrinologista e vimos que, além de dieta para perder peso, precisava eliminar um pouco de líquido, por isso começou a fazer drenagem. Experimentou ainda máscara facial para melhorar a pele", diz Carolina que já fez tudo isso e tem implantes de silicone. Os médicos se adaptam aos novos tempos e, no caso dos procedimentos mais leves, não veem inconvenientes. "Fazemos depilação a laser, tratamentos de estria e, se a acne começa a interferir na autoestima, tem de ser tratada também. Agora, se a menina de 10, 11 anos se queixa de celulite, digo para fazer ginástica", comenta a dermatologista Adriana Vilarinho. "Para crianças com menos de 12 anos, recomenda-se um cuidado maior na escolha dos produtos, que de preferência devem ser hipoalergênicos, porque sua pele é mais delicada e tanto perfume quanto pigmento podem causar uma dermatite. Equipamentos com laser, ultrassom ou radiofrequência têm de ser usados com muita moderação para evitar queimaduras. Nada é proibido, mas é preciso ter bom senso", acrescenta a dermatologista Andréia Mateus Moreira, coordenadora do departamento de cosmiatria da Sociedade Brasileira de Dermatologia. Filha de médico, a linda Maria Gabriela Moura, 9 anos, há três frequenta a sério o spa do pai. "Ela se hospedou com a mãe porque tinha muita dificuldade em comer verduras e legumes. Estava meio quilo acima do peso e perdeu seguindo apenas uma alimentação saudável, liberada nas quantidades. Aprendeu que precisa comer alimentos saudáveis durante toda a semana, começou a se empolgar com atividade física e, na parte estética, passou a se importar com a pele. Limpa toda noite antes de dormir", orgulha-se o endocrinologista Mauro Tadeu Moura, do Spa Med, que pretende expandir o programa kids voltado a crianças com sobrepeso a outras pequenas pacientes, dada a demanda. "Gosto de fazer massagem, de banho de pétalas de rosa e de nadar na piscina aquecida. Também adoro fazer penteado e a unha", conta Gabriela. "No ano passado eu estava mais gordinha, principalmente na barriga e nos ladinhos, mas prefiro ser magra. Fiquei uma semana no spa. Senti falta de bombom, na hora do lanche vinha pouca coisa, mas emagreci 2 quilos", gaba-se. "Fazer tratamentos desse tipo esporadicamente pode ser até positivo, porque ensina e incentiva a menina a ter cuidados consigo própria. Mas regularmente, nessa idade, é exagero", diz a psicoterapeuta Mara Pusch, especialista em adolescentes e consultora de comportamento da Universidade Federal de São Paulo. Mas como estabelecer um equilíbrio entre os cuidados saudáveis e a valorização excessiva da aparência? Todo mundo já tem uma ideia do que é preciso. "A resposta está em dar limite. Não permitir tudo e explicar por que não, estabelecer uma idade. Deixar que se cuide, mas sem virar obsessão", recomenda Mara. Ou seja, mais difícil do que enfrentar uma escova progressiva.
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