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Brasil
HORA DE FAZER A FAXINA Com
ascensorista ganhando mais do que presidente da República, decisões
tomadas por atos clandestinos e multiplicação de mordomias,
o Senado vê sua credibilidade ser corroída em uma crise histórica

Otávio Cabral
Fabio Rodrigues
Pozzebom/ABR  |
| O PATRIARCA Sarney,
cada vez mais solitário na cadeira de presidente do Senado: a pressão pela renúncia
vem até dos antigos aliados | O
Senado Federal tem em seus quadros motoristas, ascensoristas e seguranças
com salários superiores ao do presidente da República. Apesar da
crise que abalou o mundo, lá não existem vestígios de desemprego.
Mesmo com mais de 8 000 funcionários, há sempre uma vaga disponível
para um parente, amigo ou correligionário dos parlamentares. O Senado também
é invejado pelo tratamento que dá a seus servidores. Sua direção
tem carta branca para aumentar os próprios vencimentos e se conceder privilégios,
como promoções, plano de saúde vitalício e pagamento
de horas extras, inclusive para quem não trabalha. E o mais impressionante:
tudo pode ser feito na surdina, completamente às escondidas, de modo a
manter as irregularidades longe dos olhos dos eleitores. Há cinco meses,
o Senado Federal está se submetendo a um processo de implosão com
revelações de casos de nepotismo, tráfico de influência,
mordomias e corrupção envolvendo parlamentares e funcionários.
Restou evidente que, há anos, o templo da democracia abriga um gigantesco
mausoléu de más práticas políticas que não
condizem mais com a realidade de um país que mira um ponto mais alto na
escala de civilidade. Além dos copeiros e ascensoristas, o Senado precisa
urgentemente contratar um faxineiro para limpar as sujeiras da instituição.
Fabio Motta/AE
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| Fernando Sarney
Filho do meio de Sarney, o empresário utilizou
o Senado para resolver um problema de família. Ele empregou um filho que
teve fora do casamento no gabinete de Epitácio Cafeteira, velho aliado
de seu pai. Quando a Justiça proibiu o nepotismo, o filho foi substituído
pela mãe. Na prática, o Senado paga a pensão alimentícia
que Fernando deveria pagar ao filho |
O presidente do Congresso não parece ter saúde nem disposição
para a missão, da qual declinou explicitamente em um discurso ao plenário.
Desde que assumiu o cargo, em fevereiro, José Sarney tem sido diariamente
confrontado com as mais variadas evidências de irregularidades, a maioria
delas desencavada pelos repórteres da sucursal de Brasília do jornal
O Estado de S. Paulo. Aos 79 anos, o ex-presidente da República
está refém de suas próprias criações. A mais
assustadora delas, o ex-diretor-geral Agaciel Maia, enriqueceu no posto chefiando
uma administração paralela, clandestina, que usava para favorecer
parentes, amigos seus e de parlamentares. Os atos clandestinos beneficiaram um
mordomo, que recebia 12 000 reais de salário mensal do Senado, mas, por
motivos óbvios, não trabalha lá, e sim na casa de Roseana
Sarney, filha do senador Sarney. Por meios clandestinos também foi beneficiado
outro membro do clã Sarney, João Fernando Gonçalves, neto
do ex-presidente da República. Por fim, O Estado de S. Paulo revelou
que José Adriano Sarney, também neto do senador, conseguiu uma autorização
para negociar empréstimos consignados dentro do Senado. Segundo o rapaz,
um economista de 29 anos de idade, sua empresa fatura perto de 5 milhões
de reais ao ano.
Político
há mais tempo em atividade no país, Sarney entronizou-se agora como
símbolo do patrimonialismo, coronelismo e clientelismo que dominam a vida
pública brasileira desde tempos imemoriais. Isso é justo com o velho
patriarca, ex-presidente da República, o primeiro da era pós-ditadura
militar, um homem afável e de vasta cultura, contrastante com a planície
ágrafa que o cerca? Em política não existe justiça,
mas perdedores e ganhadores. Os demais senadores, entre eles muitos que fazem
a mesma coisa que Sarney, estão conseguindo que ele carregue sozinho nos
ombros toda a culpa pelas escabrosas revelações das últimas
semanas. Não por injustiça, mas por ver nele um perdedor do jogo
político pré-eleição presidencial de 2010. Na semana
passada, diante da pressão provocada pelas novas denúncias, Sarney
criou o Portal da Transparência, com todos os dados de compras, nomeações
e gastos do Senado. Os dados mostram, entre outras coisas, que o presidente tem
uma legião de 120 funcionários à sua disposição.
São ocupantes de cargos que estão subordinados diretamente a ele,
que escolhe quem nomear e quando demitir. Entre eles há familiares, assessores
que cuidam dos escritórios políticos de Sarney no Maranhão
e no Amapá, administradores do Memorial José Sarney, em São
Luís, parentes de lobistas, de magistrados e de correligionários,
como a mulher e a filha do ex-senador Francisco Escórcio, um quebra-galho
do grupo político do presidente do Senado, que já foi acusado de
espionar senadores adversários durante o processo de cassação
de Renan Calheiros.
Ag. Titular
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Roseana Sarney
Filha mais velha de Sarney, Roseana renunciou há dois meses ao mandato de senadora
para assumir pela terceira vez o governo do Maranhão. Mesmo fora do Senado, ela
manteve o mordomo de sua mansão em Brasília na folha de pagamento oficial, contratado
pelo gabinete de seu suplente com um salário de 12 000 reais mensais. |
Sarney tem biografia
e nome para, a esta altura da vida, estar distante das refregas mais rasteiras
do mundo político. Mas ele nunca quis, ou pôde, se afastar dos cargos
que conferem poder de nomear e influir. Sem isso, Sarney torna-se presa fácil
para seus não poucos adversários. Além dessa circunstância,
vale a pena investigar, munidos apenas dos mecanismos da psicologia mais comezinha
e da história, o que leva um político a essa situação.
A resposta mais lógica, amparada na história, é a fronteira
indefinida e fluida entre o público e o privado na vida nacional. Quando
d. João VI se mudou com a corte de Lisboa para o Rio de Janeiro, em 1808,
os nobres foram alojados nas melhores casas da cidade, das quais os donos foram
sumariamente expulsos. Mas não eram eles os proprietários? Eram.
Até que uma necessidade específica do estado os privou do que parecia
um direito adquirido. Na mão oposta, são incontáveis os casos
de altos funcionários do império e da república que se valeram
de suas funções públicas para satisfazer suas necessidades
particulares. Sarney é um herdeiro dessa mentalidade, com raríssimas
exceções, prevalente no Brasil.
Senadores foram à tribuna pedir que ele se licenciasse ou até mesmo
renunciasse. "Há um mês eu dizia: é melhor o presidente
Sarney sair antes que seja obrigado a sair. Hoje eu repito: é bom que o
presidente Sarney largue a presidência antes que sua presença fique
insustentável. Ele tem de sair. Se ele renunciar, isso termina hoje",
afirmou Pedro Simon, do PMDB gaúcho. O PSOL apresentará na quarta-feira
um pedido de abertura de processo de cassação contra Sarney. No
mesmo dia, PSDB e DEM se reúnem para decidir se também pedem sua
saída. Até os funcionários de carreira começam a revelar
descontentamento. Em entrevista a VEJA, o consultor-geral adjunto do Senado, Alexandre
Guimarães, desabafou: "Tenho vergonha de trabalhar no Senado"
(leia a entrevista abaixo).
Janinie Moraes/ABR
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| Sarney
Filho Um filho do deputado conseguiu
uma autorização para negociar empréstimo consignado com desconto
em folha de pagamento dentro do Senado. Segundo o neto do senador Sarney, a empresa
fatura perto de 5 milhões de reais ao ano. A Polícia Federal investiga
o esquema de intermediação com a participação de funcionários
do Senado. |
Acuado pelas denúncias que envolvem a família, cobrado por aliados
e emparedado por oposicionistas, o presidente subiu à tribuna para um pronunciamento
que chamou atenção pela tibieza: "Eu julguei que, quando fui
eleito presidente, era para presidir politicamente a Casa, e não para ficar
submetido a procurar a despensa ou limpar o lixo das cozinhas da Casa". Depois
disso, desapareceu. Em nota, disse apenas que é alvo de uma campanha "midiática"
por apoiar o presidente Lula. Sarney se apoia em dois pilares para se manter no
cargo. O primeiro é a conivência dos senadores. A auditoria feita
nos atos secretos mostrou que 37 senadores se beneficiaram das decisões
secretas. O outro pilar é o apoio de Lula. Há duas semanas, o presidente
disse que Sarney merecia um tratamento diferenciado pela biografia que construiu.
Na semana passada, Lula voltou a defendê-lo publicamente. Nesta semana reunirá
a coordenação política do governo para discutir uma saída
para a crise do aliado. O presidente considera que seu enfraquecimento dificultará
o apoio do PMDB à candidatura de Dilma Rousseff. E não suporta a
ideia de o Senado ser presidido por Marconi Perillo (PSDB-GO), primeiro vice-presidente,
adversário ferrenho e um dos denunciantes do mensalão.
Qual
será o desfecho da crise do Senado? O metabolismo mais comum dessas situações
em Brasília é deixar naufragar seu rosto mais em evidência,
no caso o de José Sarney, e declarar de pronto que todos os problemas estão
resolvidos. Na sexta-feira passada, era enorme a tentação de repetir
essa manobra tantas vezes feita com sucesso no Planalto. Mas desta vez pode não
dar certo. Se Sarney não tem como escapar da condenação de
ser o símbolo do atual estado de coisas, ele tem todas as condições
de mostrar que seu sacrifício é suficiente apenas para dar um ar
de volta à normalidade ao que, com certeza, não é normal.
Basta contar o que ele sabe. Com um Brasil que dá certo em todas as outras
frentes, o bastante provável é que, quando se debruçarem
sobre este ano do Senhor de 2009, os analistas no futuro vão descrevê-lo
como aquele em que a política em Brasília deixou de ser nossa vanguarda
do atraso.
| "O Senado me envergonha"
| Foto
Anderson Schneider | Clique
na imagem para ampliá-la | |
| | PROTESTO E
DESABAFO O servidor Alexandre Guimarães e
os quatro contracheques que recebeu em junho com o salário e os penduricalhos:
os funcionários do Senado se tornaram motivo de piada em mesa de bar graças à
sucessão de escândalos de corrupção provocada por uma minoria |
Alexandre Guimarães,
38 anos, é funcionário concursado do Senado desde 2004. Chefe da
consultoria legislativa, recebe mais de 20 000 reais por mês, entre salário
e vários benefícios. Mesmo bem remunerado, pensa em deixar o emprego.
Ele conta que não convive direito com os truques armados pelos parlamentares
e funcionários da Casa. Como
você chegou ao Senado? Prestei concurso em 2002 e entrei dois anos depois
de uma maneira estranha, no que ficou conhecido como "o concurso dos 40 do
Pedro Costa" (Pedro Pereira da Silva Costa é filho de um jornalista
maranhense e trabalha com Sarney desde a Presidência da República).
Eu fui o 19º colocado num concurso para preencher apenas três vagas.
De repente, chamaram quarenta. Tudo isso, soube depois, apenas para que um amigo
do presidente Sarney conseguisse um emprego no Senado. Havia
necessidade de contratar tanta gente nesse concurso? No começo, não
tinha nem mesa para trabalhar. Era constrangedor. Eu ia lá todo dia, assinava
o ponto, ficava enrolando um pouco e voltava para casa sem fazer nada. O
senhor já foi beneficiado por algum desses esquemas que vêm sendo
denunciados? Eu consegui autorização do Senado para ultrapassar
o limite legal de endividamento pelo crédito consignado. Antes de passar
no concurso, também trabalhei com o senador Gilvam Borges (PMDB), no Amapá,
até descobrir que meu salário era pago pelo Senado, embora trabalhasse
em uma rádio do senador. Quando soube, saí de lá. Os
concursos do Senado são disputados por milhares de pessoas... Não
vou negar que ganho bem, mas isso também acaba sendo constrangedor. Para
começo de conversa, são três ou quatro contracheques por mês.
O meu vencimento básico é 6.411 reais. Mas há as horas extras,
gratificações, comissões e outros penduricalhos. Somando
tudo, dá um total de mais de 23.000 reais. Em alguns meses, o salário
bruto ultrapassa o teto do funcionalismo público. (Alexandre recebeu
neste mês 32.364,62 reais, incluindo a primeira parcela do 13º
salário.) É um jeito que encontraram de pagar mais aos servidores,
mas de maneira torta. Vim da iniciativa privada e nunca me acostumei com isso. Você
tem orgulho de ser funcionário do Senado? Atualmente tenho vergonha.
Tirei férias no início do mês e fui visitar uns parentes.
Foi duro chegar para a família e tentar explicar a todo mundo que eu sou
diferente dessa imagem do Senado. Em Brasília, não posso mais sair
com os amigos, porque virei piada em mesa de bar. Hoje em dia, qualquer proposta
me tira do Senado, porque o desgaste não compensa. Qual
é o clima de trabalho no Senado atualmente? É péssimo.
Os funcionários sérios estão constrangidos por ter sido jogados
nessa vala comum. E os desonestos estão desesperados de medo de ser pegos.
Conheço uma pessoa que passou em um concurso de nível médio
e hoje tem três mansões em Brasília. Agora está em
pânico para vender o patrimônio antes que descubram as irregularidades
das quais participou. Como ele, há muitos que participam de esquemas de
corrupção. |
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