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Edição 1 749 - 1° de maio de 2002
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Luiz Felipe de Alencastro

Boçalidade e criminalidade

"Tento explicar para amigos brasileiros que,
apesar da boçalidade revelada no primeiro
turno das eleições,
a França continua sendo
um país bonito
e interessante"



Ilustração Ale Setti


O avanço da extrema direita na França provocou um choque em todos os países democráticos. Como uma velha democracia, pátria da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão (votada pela Assembléia da Revolução Francesa, em 1789), uma nação ultrajada na II Guerra e regenerada na luta de De Gaulle contra o nazi-fascismo, elege Jean-Marie Le Pen no primeiro turno presidencial? Por que muitos eleitores resolveram escolher um político boçal, líder de uma extrema direita "racista, anti-semita e xenófoba", como definiu o gaullista Alain Juppé, ex-primeiro-ministro (1995-1997) e prefeito de Bordeaux?

As explicações desse desastre envolvem dois níveis complementares. O primeiro tem a ver com os desdobramentos da União Européia (UE). A introdução do euro entranhou uma nova realidade no cotidiano de 304 milhões de europeus. Juntando-se a outras diretivas da UE, o euro montou o arcabouço econômico de uma futura federação européia. Mas tornou flagrante o atraso das atuais instituições políticas. Formado por deputados eleitos pelos cidadãos de cada país membro, o Parlamento Europeu, sediado em Estrasburgo, na França, não possui poderes para legitimar uma assembléia federal européia. Ameaçados pela evolução econômica européia, constatando que o Parlamento de seu país perde poder em benefício do Banco Central Europeu e da burocracia da UE, muitos setores rejeitam o sistema político tradicional e passam a ver a UE como a vertente ameaçadora da globalização. Tal é o quadro que alimenta a ressurgência da extrema direita européia, aparentando a Frente Nacional (FN) de Le Pen à Liga Norte, partido italiano xenófobo liderado por Umberto Bossi, e a outros movimentos similares na Bélgica, Alemanha, Áustria, Dinamarca e Holanda.

Resta que em nenhum desses países a extrema direita logrou obter o sucesso agora registrado por Le Pen. Aqui intervém o segundo nível de explicação, relativo à especificidade histórica e política francesa.

No contexto herdado das guerras coloniais e do declínio industrial, a França possui um núcleo conservador renitente que revigorou idéias fascistizantes. Assim, Le Pen venceu na maioria dos departamentos da França mediterrânica, no sul do país, onde estão, frente a frente, famílias de colonos franceses expulsos da Argélia e contingentes importantes de trabalhadores argelinos e norte-africanos. Na outra ponta do país, a FN registra boa implantação eleitoral nas zonas industriais mais antigas (têxteis e siderúrgicas) do norte da França. Note-se que a extrema esquerda antiparlamentar, formada pelos três candidatos trotskistas, que recolheram cerca de 10% dos votos, também está implantada nas áreas industriais arruinadas pela concorrência internacional.

Enfim, Le Pen também se aproveitou das manobras de Jacques Chirac, candidato à reeleição à Presidência, que colocou o tema da segurança pública no centro da campanha eleitoral. De nada adiantaram as análises dos especialistas mostrando que a criminalidade na França não aumentou nos últimos anos e se situa na média observada entre os países da União Européia. Jospin pensava que a queda no desemprego registrada durante seu governo reduziria a delinqüência e a sensação de insegurança. Errou redondamente. Como também erraram todos os institutos de pesquisas, os quais sempre colocaram Jospin no segundo turno, junto com Chirac. Certa desse resultado, parte dos eleitores de esquerda não foi votar, fazendo a taxa de abstencionistas bater seu recorde histórico: 28%.

Nos últimos tempos, tenho procurado convencer amigos franceses de que, apesar da criminalidade, o Brasil continua sendo um país bonito e interessante. Nos últimos dias, está acontecendo o contrário: tento explicar para amigos brasileiros que, apesar da boçalidade revelada no primeiro turno das eleições, a França continua sendo um país bonito e interessante.

 

Luiz Felipe de Alencastro é professor titular da
Universidade de Paris – Sorbonne (lfa@workmail.com)


 
 
   
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