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Luiz
Felipe de Alencastro
Boçalidade
e criminalidade
"Tento
explicar para amigos brasileiros que,
apesar da boçalidade revelada no primeiro
turno das eleições, a
França continua sendo
um país bonito e interessante"
Ilustração Ale Setti
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O avanço da extrema direita na França provocou um choque
em todos os países democráticos. Como uma velha democracia,
pátria da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão
(votada pela Assembléia da Revolução Francesa, em
1789), uma nação ultrajada na II Guerra e regenerada na
luta de De Gaulle contra o nazi-fascismo, elege Jean-Marie Le Pen no primeiro
turno presidencial? Por que muitos eleitores resolveram escolher um político
boçal, líder de uma extrema direita "racista, anti-semita
e xenófoba", como definiu o gaullista Alain Juppé, ex-primeiro-ministro
(1995-1997) e prefeito de Bordeaux?
As explicações
desse desastre envolvem dois níveis complementares. O primeiro
tem a ver com os desdobramentos da União Européia (UE).
A introdução do euro entranhou uma nova realidade no cotidiano
de 304 milhões de europeus. Juntando-se a outras diretivas da UE,
o euro montou o arcabouço econômico de uma futura federação
européia. Mas tornou flagrante o atraso das atuais instituições
políticas. Formado por deputados eleitos pelos cidadãos
de cada país membro, o Parlamento Europeu, sediado em Estrasburgo,
na França, não possui poderes para legitimar uma assembléia
federal européia. Ameaçados pela evolução
econômica européia, constatando que o Parlamento de seu país
perde poder em benefício do Banco Central Europeu e da burocracia
da UE, muitos setores rejeitam o sistema político tradicional e
passam a ver a UE como a vertente ameaçadora da globalização.
Tal é o quadro que alimenta a ressurgência da extrema direita
européia, aparentando a Frente Nacional (FN) de Le Pen à
Liga Norte, partido italiano xenófobo liderado por Umberto Bossi,
e a outros movimentos similares na Bélgica, Alemanha, Áustria,
Dinamarca e Holanda.
Resta que
em nenhum desses países a extrema direita logrou obter o sucesso
agora registrado por Le Pen. Aqui intervém o segundo nível
de explicação, relativo à especificidade histórica
e política francesa.
No contexto
herdado das guerras coloniais e do declínio industrial, a França
possui um núcleo conservador renitente que revigorou idéias
fascistizantes. Assim, Le Pen venceu na maioria dos departamentos da França
mediterrânica, no sul do país, onde estão, frente
a frente, famílias de colonos franceses expulsos da Argélia
e contingentes importantes de trabalhadores argelinos e norte-africanos.
Na outra ponta do país, a FN registra boa implantação
eleitoral nas zonas industriais mais antigas (têxteis e siderúrgicas)
do norte da França. Note-se que a extrema esquerda antiparlamentar,
formada pelos três candidatos trotskistas, que recolheram cerca
de 10% dos votos, também está implantada nas áreas
industriais arruinadas pela concorrência internacional.
Enfim, Le
Pen também se aproveitou das manobras de Jacques Chirac, candidato
à reeleição à Presidência, que colocou
o tema da segurança pública no centro da campanha eleitoral.
De nada adiantaram as análises dos especialistas mostrando que
a criminalidade na França não aumentou nos últimos
anos e se situa na média observada entre os países da União
Européia. Jospin pensava que a queda no desemprego registrada durante
seu governo reduziria a delinqüência e a sensação
de insegurança. Errou redondamente. Como também erraram
todos os institutos de pesquisas, os quais sempre colocaram Jospin no
segundo turno, junto com Chirac. Certa desse resultado, parte dos eleitores
de esquerda não foi votar, fazendo a taxa de abstencionistas bater
seu recorde histórico: 28%.
Nos últimos
tempos, tenho procurado convencer amigos franceses de que, apesar da criminalidade,
o Brasil continua sendo um país bonito e interessante. Nos últimos
dias, está acontecendo o contrário: tento explicar para
amigos brasileiros que, apesar da boçalidade revelada no primeiro
turno das eleições, a França continua sendo um país
bonito e interessante.
Luiz
Felipe de Alencastro é professor titular da
Universidade de Paris Sorbonne (lfa@workmail.com)
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