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Roberto
Pompeu de Toledo
Kiribati:
modo de usar
Um
arrazoado em
que se conclui
que o
chanceler Celso
Lafer, por
ter barba,
cuida de
pô-la de
molho
Kiribati
cobriu-se de brios e foi à luta. Era preciso dar um basta àquele
estado de coisas. Nomeou um enviado especial que disse adeus ao sol, às
praias e aos coqueiros, e voou em demanda à fria e cinzenta Haia.
Era para ali que o dever o convocava.
Ignorante leitor! Pode-se apostar mil contra um que não sabe o
que é Kiribati! A palavrinha, assim, solta e desacompanhada, a
alguns evocaria um prato da culinária japonesa, a outros um povo
de Roraima em campanha pela demarcação de suas terras. Terceiros
arriscariam tratar-se de uma cantora de ópera e é
preciso admitir que não estariam assim tão longe da verdade.
Afinal, a cantora Kiri Te Kanawa é da Nova Zelândia. E Kiribati,
se não se pode dizer que fica perto, situa-se por aquelas bandas.
Kiribati é um país, perplexa leitora! Constituído
de 33 ilhotas, espalhadas por uma área de 3 milhões de quilômetros
quadrados, localiza-se no Pacífico central, quase sobre a linha
do Equador, e a nordeste da Austrália.
Cumpre ao autor deste arrazoado confessar que, ele também, até
a semana passada nunca ouvira falar de Kiribati. Uma rápida colheita
nos almanaques e enciclopédias, porém, permite tirar o atraso.
Kiribati tem 80.000 habitantes. Não dá para encher uma missa
do padre Marcelo Rossi, mas se trata de uma turma homogênea e aguerrida.
O tipo físico é o característico das ilhas do Pacífico.
Pense-se em filmes de havaianas, em quadros de Gauguin. Estamos no caminho
certo. Olhos docemente amendoados, pouca roupa, muita dança. Os
kiribatianos têm na pesca seu produto principal. Entre seus itens
agrícolas, incluem-se a banana, o coco, o mamão papaia,
a fruta-pão e a batata-doce. Isso tudo, mais alguma indústria
de vestuário e de couro, resulta num produto bruto de 60 milhões
de dólares. É bem mais do que o 1,3 milhão de reais
encontrado nas gavetas do casal Murad, mas, para continuar numa comparação
atual, bem menos do que os 350 milhões de dólares que a
Igreja Católica dos Estados Unidos pagou, desde 1985, para indenizar
as vítimas dos padres pedófilos.
Os dados sociais compõem um quadro de carência. Há
escola primária para todos, mas a secundária escasseia e
a única universidade é resultado de um empreendimento conjunto
com outros países da área, e não fica em território
nacional, mas nas Ilhas Fiji. Quando não há hospital, há
um posto de saúde em cada uma das 33 ilhas, mas isso não
assegura padrão de longevidade dos mais fortes: a expectativa de
vida, de 60 anos para os homens e 64 para as mulheres, está abaixo
da do Brasil (63 e 71) e empata com a da Bolívia (60 e 63). Kiribati
é independente desde 1979. Antes era colônia inglesa e atendia
pelo nome de Ilhas Gilbert, homenagem ao inglês que, no século
XIX, a explorou e a recolheu ao redil do Império Britânico.
O idioma ali falado é majoritariamente o inglês, adotado
como língua franca, pois os diversos dialetos locais não
permitem que seus praticantes se entendam uns com os outros. O principal
meio de transporte é a canoa.
Já estamos quase doutores em Kiribati. Falta aprender que a capital
é Bairiki, situada na ilha de Tarawa, e que até há
pouco o país era cortado ao meio pela chamada Linha Internacional
da Data a linha imaginária que, por convenção
internacional, regula o calendário. Isso quer dizer que, quando
eram 10 da manhã do sábado numa metade do país, na
outra metade já eram 10 da manhã do domingo. Esse inconveniente
foi superado em 1997, quando, a pedido dos kiribatianos, a linha foi empurrada
para além da fronteira leste do país. Não dissemos
que era um povo aguerrido? Eles conseguiram o que queriam. Pois desta
vez quiseram a cabeça do embaixador brasileiro José Maurício
Bustani, diretor-geral da Organização para a Proibição
das Armas Químicas (Opaq). Kiribati jamais havia comparecido a
uma reunião da Opaq. Na assembléia-geral extraordinária
convocada pelos Estados Unidos para destituir o brasileiro, porém,
lá estava seu representante. Votou com a maioria que, por 87% dos
votos, derrotou Bustani.
Perdoe o leitor se foi longa a escala em Kiribati. O ponto final da presente
viagem é em Washington mesmo, e se traduz nos termos seguintes:
até Kiribati foi mobilizada! Para assegurarem o quórum necessário
e o resultado desejado, os Estados Unidos não pouparam esforços.
E assim se concluiu uma espécie de insurreição, ainda
que revestida de legalidade, contra um funcionário que ousou não
seguir a linha ditada pelo governo americano. O Itamaraty reagiu apenas
molemente ao rolo compressor. Na verdade o embaixador Bustani, embora
integrante dos quadros da diplomacia brasileira, cumpria funções
num organismo internacional. O Itamaraty tinha essa desculpa para não
atuar com mais vigor. O fato, porém, é que a esta altura
a última coisa que lhe interessa é comprar briga com os
Estados Unidos. Há sinais no ar de que o governo brasileiro está
preocupado, talvez assustado, talvez até ligeiramente apavorado,
com os rumos que as relações com Washington podem tomar,
nestes tempos de George W. Bush. O chanceler Celso Lafer, que tem barba,
cuida de pô-la de molho.
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