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Fotos Antonio Milena
A
acupuntura e a homeopatia
Daniela
Pinheiro
No último século, a medicina alcançou feitos notáveis. Foi quando se descobriu a penicilina, a vacina contra a poliomielite e se aprimorou o transplante de órgãos, entre outras conquistas definitivas. Porém, a promessa de uma saúde perfeita ainda é um desafio. Seu nariz ainda escorre durante uma gripe, suas costas doem depois de um dia diante do computador e as crianças continuam asmáticas sem que se saiba a exata razão. É certo que as pessoas estão mais saudáveis que nunca. Mas os tratamentos são os mesmos: remédio e repouso. Ao que tudo indica, o paciente parece querer algo mais. E está pagando caro por isso. As bolinhas da medicina chinesa, a massagem no pé da reflexologia, as ervas da fitoterapia e até artefatos mais exóticos que se propõem a curar o câncer a partir de campos eletromagnéticos estão disputando espaço com o clássico estetoscópio. Estima-se
que 4 milhões de brasileiros lancem mão de alguma forma
de terapia alternativa para tratar doenças. A Associação
Brasileira de Medicina Complementar calcula que existam cerca de 50 000
terapeutas alternativos em atividade no país. É um filão
que cresce em torno de 20% ao ano em todo o mundo. No Brasil, presume-se
que o mercado de terapias alternativas movimente aproximadamente 500 milhões
de dólares anualmente. Ainda uma migalha em comparação
ao que ocorre nos Estados Unidos, onde perto de 60 milhões de pessoas
engrossam um mercado de 30 bilhões de dólares. No Brasil,
há três vezes mais massagistas corporais, que garantem dar
fim a dores de coluna, que ortopedistas. Existe quase o mesmo número
de terapeutas florais e de cardiologistas. E os cerca de 1 300 iridologistas,
indivíduos que dizem diagnosticar qualquer doença pela análise
da íris, somam quase a metade dos nefrologistas brasileiros.
Quando
se fala em terapia alternativa no Brasil, é preciso esclarecer
que se trata, na maioria dos casos, de práticas proibidas pelo
Conselho Federal de Medicina. Apenas a homeopatia e a acupuntura são
reconhecidas como especialidades médicas. Escolhas mais radicais,
como a cromoterapia, a iridologia, os florais de Bach e bizarrices de
embrulhar o estômago, como a urinoterapia, são vistas com
imensas reservas pela classe médica. A razão é clara:
muitos dos chamados terapeutas alternativos são leigos que fazem
um curso de fim de semana e saem apregoando poderes curativos e de diagnóstico.
É o caso do reiki, uma prática de imposição
de mãos que promete desde a cura da impotência sexual até
do câncer. Por 195 reais e dois dias de curso com a presidente da
Associação Brasileira de Reiki, Claudete França,
qualquer um pode tornar-se um terapeuta. Inclusive tratando os pacientes
por telefone. "O que importa é a energia", explica.
O grande perigo da medicina alternativa é mascarar doenças graves ou acelerar seu ritmo destruidor, tratando apenas os sintomas. Em dezembro passado, a paulistana Érica Arruda viu chegar ao fim a longa batalha de sua mãe contra o câncer. Durante sete meses, Érica acompanhou o tratamento da mãe com um iridologista, que lhe receitava injeções de supostas vitaminas. O médico, filiado ao Conselho Regional de Medicina, jamais solicitou uma ultra-sonografia ou um simples hemograma. E nunca diagnosticou a doença. "Quando ela já estava com o corpo coberto por feridas, o médico disse que não ia mais atendê-la porque era ela quem não estava fazendo o tratamento direito", lembra Érica. Quando a família procurou um tratamento convencional, já era tarde demais. "Ela morreu quinze meses depois", conta. A família quer processar o médico. "O discurso da medicina alternativa é a coisa mais repugnante, mais vergonhosa que já ouvi", desabafa Érica. (Leia outros depoimentos na íntegra.)
Alguns
ramos das terapias alternativas cobrem áreas que a medicina convencional
despreza. Em muitos casos, podem ser uma útil complementação
ao tratamento convencional. O problema é quando o terapeuta alternativo
acena com o combate seguro a doenças graves. "Prometer a cura é
o pior dos crimes. É você tentar extorquir alguém
na hora em que ele está mais fragilizado", afirma o clínico-geral
carioca Luiz Alfredo Lamy. Uma das grandes dificuldades de um paciente
leigo é conseguir separar verdades (sim, elas existem) de mentiras
no imenso leque de quase 800 modalidades de terapias alternativas. É
tênue a linha que separa a eficácia do charlatanismo. Segundo
o critério da credibilidade científica, a acupuntura, a
homeopatia e a fitoterapia merecem ser respeitadas. A primeira é
considerada uma ciência real, a ponto de ser usada como anestesia
até em partos. A homeopatia é admitida pelos médicos
tradicionais em doenças crônicas, sobretudo nas de fundo
emocional. Quanto à fitoterapia, é inegável o princípio
curativo de alguns chás e plantas. Cerca de 45% dos remédios
usados pela medicina convencional são feitos a partir de substâncias
extraídas de vegetais.
Nos
anos 70, um movimento parecido com o encampado hoje pelos defensores da
terapia alternativa mobilizou os Estados Unidos. Na época, o comprimido
Laetrile prometia ser a cura do câncer. Milhares de pessoas o consumiram
pensando estar tratando a doença. Mais tarde, descobriu-se que
o remédio liberava cianeto no organismo. O ator Steve McQueen,
que tinha câncer de pulmão, foi uma das vítimas. "É
o perigo de receitar novidades", declara o neurologista Edgard Raffaelli
Júnior. A medicina cresce, progride, muda. Homeopatia, iridologia,
cromoterapia estão estanques ao longo dos anos. Médicos
e terapeutas alternativos se conhecem, recomendam-se e jamais se desafiam.
O terapeuta de "zonas patogênicas", o engenheiro aposentado Salvatore
de Salvo, é constantemente apontado pelos grandes médicos
alternativos de São Paulo como um profissional "indispensável".
Seu trabalho é visitar a casa das pessoas para descobrir "pontos
negativos de energia" e rearranjar os móveis longe de focos maléficos.
Preço: 350 reais. "Quem mora em prédios construídos
sobre lençóis d'água ou perto da Avenida Paulista
tem 80% de probabilidade de ter câncer", proclama.
É por essas que o discurso dos terapeutas alternativos é facilmente contestável. Um de seus principais argumentos é dizer que as técnicas são "usadas há centenas de séculos", como se longevidade fosse parâmetro. A astrologia é muito mais antiga que os florais de Bach e nem por isso tem sua validade comprovada. A maioria deles também diz que seus tratamentos têm base científica. O psiquiatra americano Stephen Barrett, um dos maiores críticos da medicina alternativa no mundo, publicou em livro alguns exemplos dessa "base científica". Um desses casos é o da escritora Adelle Davis, que citou 2 402 referências sobre a eficácia de sua terapia no best-seller Let's Get Well (Vamos Viver Bem). Mais tarde, descobriu-se que mais da metade das citações nem sequer dizia respeito ao assunto. É também surpreendente a inimaginável comparação da qual eles lançam mão: "Quando Galileu apareceu, ninguém acreditou nele", lembra o nutrologista e homeopata Celso Batello, também presidente da Sociedade Brasileira de Iridologia. Por 350 reais, Batello faz uma consulta de quase duas horas, em que "lê" na íris desde a falta de colágeno até se o paciente usa mais o lado esquerdo ou o direito do cérebro. "Isso tudo entra num terreno parecido com o da religião", afirma o médico Alfredo Lamy. Em sua avaliação, a única coisa que se pode afirmar a partir da análise da íris é a cor dos olhos, se a pessoa está cansada ou se tem doença de Wilson que é uma deficiência genética rara. Como explicar a profusão de pacientes que lotam os consultórios de terapeutas alternativos? Se não estivessem satisfeitos, é certo que os abandonariam. Há três meses, o aposentado Gilberto Abduch, 73 anos, faz o tratamento de campo magnético de José de Felippe Júnior para curar um câncer no fígado. No auge do tratamento, gastou 2.800 reais por mês. "Já fui operado, tive metástase e perdi um irmão com a mesma doença. Quando a gente está nesse barco, faz qualquer coisa", diz. Seus últimos exames revelam que o tumor está estacionado. "Só de estar assim eu já me sinto muito satisfeito", afirma. Os céticos atribuem o resultado a dois fatores: o comprovado efeito placebo e a confusão em saber qual tratamento foi realmente eficaz, o alternativo ou o convencional, já que a maioria das pessoas faz os dois ao mesmo tempo. Estudos publicados em conceituadas revistas científicas, como a Science, revelaram que 30% dos pacientes melhoram com o simples fato de tomar um comprimido, mesmo que ele tenha o poder terapêutico de um copo de água com açúcar. Outro fato é que, em muitos casos, a pessoa melhoraria mesmo sem fazer nada. Mas, como a melhora veio após o tratamento alternativo, passa-se a atribuir a cura a ele. O oncologista Riad Younes, do Hospital do Câncer de São Paulo, provou o contrário. Durante dois anos, acompanhou 1 000 pacientes com câncer e descobriu que 43% deles (chegando a 70% entre os que estavam em fase terminal) recorriam a terapias não convencionais. Em nenhum dos casos em que o paciente se valeu de terapias alternativas o tumor diminuiu. Como não são práticas reconhecidas, qualquer barbeiragem ou charlatanismo passa quase sempre em branco. Não há um conselho formal ou uma esfera institucional para queixas e processos. Se o sujeito é enganado ou morre em um desses tratamentos, a família só pode se queixar à polícia. Ou ao bispo.
Colaborou Silvia Rogar
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