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Os cardeais decepcionaram

A cúpula da Igreja Católica americana
decide expulsar apenas pedófilos
contumazes

 

AP
João Paulo II e os cardeais em Roma: discurso duro resultou em um documento hesitante

Roma falou – e com palavras duras, como exigia o tema do encontro do papa João Paulo II com os cardeais americanos para tratar da enxurrada de casos de abuso sexual contra menores cometidos por religiosos nos Estados Unidos. "O abuso que causou essa crise é sob todos os parâmetros errado e considerado, com razão, um crime pela sociedade. Também é um pecado abominável aos olhos de Deus", disse o papa. "As pessoas precisam saber que não há lugar no sacerdócio e na vida religiosa para aqueles que prejudicam os jovens." O tom parecia indicar, na interpretação dos cardeais mais comprometidos em combater a praga dos padres depravados, que começava uma operação de tolerância zero, similar à que desbastou a criminalidade na cidade de Nova York há nove anos. O cardeal de Washington, Theodore McCarrick, proclamou que se instalaria uma política radical de expulsão para padres que incorressem nesses abusos. No dia seguinte, comprovou-se mais uma vez que a Igreja não funciona exatamente como a polícia nova-iorquina.

Numa constrangida entrevista no Vaticano, o presidente da Conferência dos Bispos Católicos dos Estados Unidos, Wilton Gregory, divulgou um documento com as conclusões da reunião. Em resumo, a cúpula da Igreja americana vai ser muito mais severa na questão – mas não a ponto de dissipar a impressão de que continuará a dar algum tipo de privilégio aos transgressores. A partir de agora, deverão ser instalados processos especiais para a expulsão de padres cuja culpa em casos de violência sexual contra menores seja "notória". Ou seja, para ser expulso o membro da Igreja precisa ser um pedófilo contumaz, com um histórico de abusos. Em casos qualificados pelos cardeais como "não notórios", aqueles em que o religioso ataca pela primeira vez uma criança ou um jovem, o bispo ao qual ele presta contas tem autonomia para decidir se encaminha a abertura de processos. As formas como serão instaurados esses processos serão discutidas apenas em junho, na reunião anual do episcopado americano. O documento não faz uma única referência a um dos aspectos mais candentes da questão: a denúncia dos abusos à Justiça, uma vez que, como disse o papa, além de pecaminoso, o sexo com crianças é criminoso. A situação do arcebispo de Boston, cardeal Bernard Law, que encobriu reiteradamente a atuação de pedófilos em sua diocese, também foi deixada de lado e tratada como um assunto que diz respeito apenas a ele e ao papa. Um jornal americano comentou na semana passada que Law poderá ser convocado para um cargo em Roma a partir de junho.

 
AP
THEODORE McCARRICK
Cardeal-arcebispo de Washington, defendeu a política de tolerância zero e a expulsão sumária dos padres pedófilos. Também é a favor da denúncia dos casos de abuso sexual à polícia e à Justiça

Parentes e grupos de defesa das vítimas dos abusos ficaram desapontados com o resultado da reunião. "Esperávamos que o papa, no mínimo, obrigasse os bispos a entregar esses casos a quem tem competência para lidar com eles, que é a Justiça", disse a VEJA David Clohessy, diretor da Rede de Sobreviventes de Abuso de Padres, organização baseada em Chicago. O escritor George Weigel, alinhado com a ala conservadora da Igreja Católica, argumentou, com razão, que o documento divulgado pelos cardeais no Vaticano representa um progresso – embora com a ressalva já mencionada. "O que conta é o documento, e ele de fato significa uma mudança drástica com relação a pedófilos e aqueles que incorrem sistematicamente no abuso sexual. A questão em aberto é o que fazer com aqueles que têm esse comportamento uma única vez", disse ele ao jornal The New York Times.

 
BERNARD LAW
Cardeal de Boston, está no centro da crise na Igreja Católica dos Estados Unidos. É acusado de acobertar e proteger padres que molestaram crianças em sua diocese. Três quartos dos católicos americanos querem que ele renuncie
Reuters

A atuação dos cardeais americanos reflete um previsível corporativismo e também uma preocupação de mais longo alcance. "A Igreja não quer tomar nenhuma atitude que leve a uma caça às bruxas. Isso poderia ser fatal para o catolicismo nos Estados Unidos", diz Philip Jenkins, professor de Estudos da Religião da Universidade Estadual da Pensilvânia. "Os casos de pedofilia propriamente dita são poucos, mas isso poderia ser uma abertura para falar de outros assuntos complicados para a Igreja, como o homossexualismo, por exemplo", diz ele. No documento divulgado no Vaticano, os cardeais americanos contornaram o problema minimizando os casos de pedofilia em si: "A maior parte deles envolvia adolescentes e portanto não eram casos de pedofilia de verdade".

O que é a pedofilia "de verdade" a que se referem os cardeais? Do ponto de vista clínico, pedófilo é a pessoa que sente atração sexual apenas por crianças de no máximo 12 ou 13 anos de idade. Estima-se que os pedófilos estejam entre uma parcela de 1% da população que sofre do que os psiquiatras chamam atualmente de "transtorno de preferência sexual". Nem todos chegam a concretizar suas fantasias. Não são porém apenas os pedófilos "clássicos" que abusam de crianças – embora, do ponto de vista das vítimas, não faça diferença: carícias ou atos sexuais praticados por adultos são sempre traumatizantes, quando não fisicamente violentos. Muitas vezes esse crime é perpetrado por pessoas que, mesmo não tendo a criança como foco único de sua preferência, acabam atacando-a por falta de controle de seus impulsos sexuais. São uma espécie de pedófilos de ocasião, portadores de problemas psicológicos de outra ordem, que se vêem em situações nas quais a abordagem é facilitada, geralmente pela convivência, e tiram proveito da fragilidade infantil. Essa é uma das razões de a incidência de abuso sexual de crianças ser tão alta. As estatísticas americanas são bastante precisas nesse campo e muitas de suas conclusões podem ser extrapoladas para outros países. Um estudo do Departamento de Saúde estima que em média 93.000 crianças sofram abuso sexual a cada ano nos Estados Unidos. Destas, metade é atacada pelos próprios pais. Os parentes próximos são responsáveis por outros 18% dos casos. Menos de 30% das pessoas que abusam de crianças travam contato com suas vítimas fora de casa. Esse tipo de molestador é detectável com relativa facilidade devido ao tratamento fora do comum que dedica aos menores. Se chamam a atenção dos adultos responsáveis que cercam as crianças, não se aproximam. É por isso que os pedófilos por excelência procuram atividades nas quais o contato freqüente com crianças seja visto com naturalidade. Caso dos padres encarregados de alunos de colégios internos, coroinhas e seminaristas, as vítimas preferenciais que agora, mesmo depois de adultos, estão se revoltando nos Estados Unidos e dizendo: nunca mais. As autoridades da Igreja precisam ouvir essa mensagem em toda a sua extensão.

   
 
   
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