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O
ataque cardíaco
do doutor Atkins
O criador da polêmica
dieta gordurosa
passa mal do coração, mas jura que
isso nada tem a ver com seu método
Karina Pastore

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Na
quarta-feira da semana passada, o cardiologista americano Robert Atkins
recebeu alta do Weill Cornell Medical Center, em Nova York. Criador de
uma popular dieta à base de proteína e gordura, Atkins foi
vítima, aos 71 anos, de um ataque cardíaco. O colapso ocorreu
seis dias antes, em seu consultório, durante o café da manhã
à base, provavelmente, de ovos mexidos com muito bacon.
Por alguns segundos, o coração do médico parou de
bater. Ele foi socorrido por um de seus assistentes, que fez respiração
boca a boca e massagem cardíaca. Há menos de um mês,
Atkins contestou um alerta feito pela Associação Americana
de Cardiologia: o de que as dietas como as propostas por ele fazem mal
à saúde, sobretudo ao coração. É natural,
assim, que Atkins se tenha apressado em desvincular a parada cardíaca
do seu programa de perda de peso. Segundo o comunicado emitido por seus
médicos, o ataque foi decorrente de uma infecção
causada por um vírus contraído dois anos atrás, durante
uma viagem internacional. Mais preocupados em explicar o fato do que com
o fato em si, repetiam em uníssono: as artérias de Atkins
estão limpinhas. O que ele sofreu, garantiram, não foi um
infarto. "Obviamente, meus críticos aproveitarão para me
atacar. Eles me odeiam porque insistem em preconizar uma dieta com pouca
gordura e proteína, quando o mundo inteiro sabe que a única
fórmula de sucesso para perder peso e manter-se magro é
a minha", afirmou o cardiologista.
Na década de 70, Atkins lançou a idéia de que, para
ter um corpo esbelto e saudável, as pessoas deveriam abster-se
dos alimentos ricos em carboidratos e cair matando nas comidas gordurosas
e hiperprotéicas. A explicação é que, sem
dispor de carboidratos para produzir energia, o organismo queima gorduras
para realizar essa tarefa. Daí a necessidade de ingeri-las continuamente,
para se manter magro e vivo. Com base nesse pressuposto, ele elaborou
uma dieta muito eficiente, que não demorou a ser adotada por milhares
de pessoas. Mas os alertas de que o consumo de montanhas de gordura poderia
causar uma obstrução cardíaca fizeram que seu método
fosse deixado de lado. Em meados dos anos 90, no entanto, ele voltou com
força, graças ao estabelecimento de padrões cada
vez mais anoréxicos de beleza. O cardiologista americano se tornou
um milionário em todos os sentidos: conquistou milhões de
adeptos ao redor do mundo, vendeu mais de 10 milhões de livros
e criou uma linha de produtos paupérrimos em carboidratos que vende
feito pão quente. Pão, não, que tem carboidrato.
Feito torresmo em boteco brasileiro. O sucesso de Atkins é tamanho
que sua fortuna atual está avaliada em 200 milhões de dólares.
Ainda que não contasse com tantos inimigos, ele teria razão
em temer que se estabelecesse uma conexão entre sua dieta e seu
problema cardíaco. Quando atingidos por uma doença, qualquer
que seja ela, os criadores ou divulgadores de receitas de saúde
e beleza tendem a ser vistos como vítimas de seus próprios
modelos. Foi o que aconteceu em 1984 com o maratonista americano Jim Fixx,
um dos principais defensores das maravilhas proporcionadas ao coração
e aos pulmões por longas corridas diárias o jogging.
Ele morreu de infarto, aos 52 anos, logo depois de percorrer seus 7 quilômetros
matinais. O fato levou muita gente a abandonar esse hábito. Receoso
de que a repercussão negativa sepultasse definitivamente o jogging,
o médico Kenneth Cooper, criador do famoso método de corrida
que leva seu nome, resolveu investigar a fundo as causas da morte de seu
amigo Fixx. A necropsia revelou um organismo extremamente debilitado.
Em uma das três artérias coronárias seriamente comprometidas,
a obstrução chegava a 99%. Cicatrizes no coração
indicavam, ainda, que Fixx já havia sofrido sem saber outros três
infartos.
A investigação de Cooper mostrou também que Fixx
tinha um péssimo histórico familiar. O pai do maratonista
havia morrido com apenas 43 anos, vítima justamente de infarto.
Além disso, antes de se tornar esportista, Fixx cultivava hábitos
nocivos. Tragava dois maços de cigarro por dia e não se
importava com seus níveis de colesterol que eram estratosféricos.
Para completar, depois que começou a correr, ele não deu
atenção às dores no peito que por vezes sentia durante
os exercícios. Tampouco seguiu o conselho de fazer check-ups regulares.
Ou seja, não foi o jogging que matou Fixx, e sim as seqüelas
de uma vida desregrada, aliadas à tendência de sua família
a problemas cardíacos e à falta de exames rotineiros. A
pesquisa de Cooper rendeu o livro Running without Fear (Correndo
sem Medo), publicado em 1985. É preciso ter cuidado, portanto,
com as conclusões a ser tiradas a respeito do piripaque do doutor
Robert Atkins.
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