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O ataque cardíaco
do doutor Atkins

O criador da polêmica dieta gordurosa
passa mal do coração, mas jura que
isso nada tem a ver com seu método

Karina Pastore

Veja também
Dos arquivos de VEJA
Entrevista com Robert Atkins, de 28/2/2001
"Guerra das dietas", de 19/4/2000
"Coma de tudo um pouco", do especial VEJA Sua Saúde, de março de 2001

Na quarta-feira da semana passada, o cardiologista americano Robert Atkins recebeu alta do Weill Cornell Medical Center, em Nova York. Criador de uma popular dieta à base de proteína e gordura, Atkins foi vítima, aos 71 anos, de um ataque cardíaco. O colapso ocorreu seis dias antes, em seu consultório, durante o café da manhã – à base, provavelmente, de ovos mexidos com muito bacon. Por alguns segundos, o coração do médico parou de bater. Ele foi socorrido por um de seus assistentes, que fez respiração boca a boca e massagem cardíaca. Há menos de um mês, Atkins contestou um alerta feito pela Associação Americana de Cardiologia: o de que as dietas como as propostas por ele fazem mal à saúde, sobretudo ao coração. É natural, assim, que Atkins se tenha apressado em desvincular a parada cardíaca do seu programa de perda de peso. Segundo o comunicado emitido por seus médicos, o ataque foi decorrente de uma infecção causada por um vírus contraído dois anos atrás, durante uma viagem internacional. Mais preocupados em explicar o fato do que com o fato em si, repetiam em uníssono: as artérias de Atkins estão limpinhas. O que ele sofreu, garantiram, não foi um infarto. "Obviamente, meus críticos aproveitarão para me atacar. Eles me odeiam porque insistem em preconizar uma dieta com pouca gordura e proteína, quando o mundo inteiro sabe que a única fórmula de sucesso para perder peso e manter-se magro é a minha", afirmou o cardiologista.

Na década de 70, Atkins lançou a idéia de que, para ter um corpo esbelto e saudável, as pessoas deveriam abster-se dos alimentos ricos em carboidratos e cair matando nas comidas gordurosas e hiperprotéicas. A explicação é que, sem dispor de carboidratos para produzir energia, o organismo queima gorduras para realizar essa tarefa. Daí a necessidade de ingeri-las continuamente, para se manter magro – e vivo. Com base nesse pressuposto, ele elaborou uma dieta muito eficiente, que não demorou a ser adotada por milhares de pessoas. Mas os alertas de que o consumo de montanhas de gordura poderia causar uma obstrução cardíaca fizeram que seu método fosse deixado de lado. Em meados dos anos 90, no entanto, ele voltou com força, graças ao estabelecimento de padrões cada vez mais anoréxicos de beleza. O cardiologista americano se tornou um milionário em todos os sentidos: conquistou milhões de adeptos ao redor do mundo, vendeu mais de 10 milhões de livros e criou uma linha de produtos paupérrimos em carboidratos que vende feito pão quente. Pão, não, que tem carboidrato. Feito torresmo em boteco brasileiro. O sucesso de Atkins é tamanho que sua fortuna atual está avaliada em 200 milhões de dólares.

Ainda que não contasse com tantos inimigos, ele teria razão em temer que se estabelecesse uma conexão entre sua dieta e seu problema cardíaco. Quando atingidos por uma doença, qualquer que seja ela, os criadores ou divulgadores de receitas de saúde e beleza tendem a ser vistos como vítimas de seus próprios modelos. Foi o que aconteceu em 1984 com o maratonista americano Jim Fixx, um dos principais defensores das maravilhas proporcionadas ao coração e aos pulmões por longas corridas diárias – o jogging. Ele morreu de infarto, aos 52 anos, logo depois de percorrer seus 7 quilômetros matinais. O fato levou muita gente a abandonar esse hábito. Receoso de que a repercussão negativa sepultasse definitivamente o jogging, o médico Kenneth Cooper, criador do famoso método de corrida que leva seu nome, resolveu investigar a fundo as causas da morte de seu amigo Fixx. A necropsia revelou um organismo extremamente debilitado. Em uma das três artérias coronárias seriamente comprometidas, a obstrução chegava a 99%. Cicatrizes no coração indicavam, ainda, que Fixx já havia sofrido sem saber outros três infartos.

A investigação de Cooper mostrou também que Fixx tinha um péssimo histórico familiar. O pai do maratonista havia morrido com apenas 43 anos, vítima justamente de infarto. Além disso, antes de se tornar esportista, Fixx cultivava hábitos nocivos. Tragava dois maços de cigarro por dia e não se importava com seus níveis de colesterol – que eram estratosféricos. Para completar, depois que começou a correr, ele não deu atenção às dores no peito que por vezes sentia durante os exercícios. Tampouco seguiu o conselho de fazer check-ups regulares. Ou seja, não foi o jogging que matou Fixx, e sim as seqüelas de uma vida desregrada, aliadas à tendência de sua família a problemas cardíacos e à falta de exames rotineiros. A pesquisa de Cooper rendeu o livro Running without Fear (Correndo sem Medo), publicado em 1985. É preciso ter cuidado, portanto, com as conclusões a ser tiradas a respeito do piripaque do doutor Robert Atkins.

   
 
   
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