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Gigantes e ágeis

Não há mais lugar no basquete
profissional para o janjão, aquele
tipo cuja única virtude é a altura

José Eduardo Barella

Veja também
Na internet
NBA.com (em inglês)
Site oficial de Shaquile O’Neal (em inglês)
José Medalha Basketball

O basquete sempre valorizou homens altos, capazes de tocar o aro dando apenas um saltinho. Isso não mudou. Ocorre que, na fase atual do esporte, as portas dos clubes praticamente se fecharam para os chamados "janjões" – figuras que entravam em quadra apenas pelo fato de ter mais de 2 metros de altura. Nos anos 80, havia um janjão da antiga União Soviética, chamado Vladimir Tkachenko, que impressionou o mundo com seus 2,20 metros. Tkachenko tinha poucos recursos técnicos. Lento, limitava-se a lutar pelos rebotes (ganhava todos) e a colocar a bola dentro da cesta. Nos Estados Unidos, onde se pratica o melhor basquete do mundo, há um número cada vez maior de gigantes nos times da liga profissional, a NBA. Acontece que, apesar da altura, tais jogadores apresentam uma agilidade impressionante. O exemplo mais notável é Shaquille O'Neal, que tem 2,16 metros. Pesado até para os padrões da NBA (142 quilos), o pivô do Los Angeles Lakers possui uma mobilidade surpreendente para seu biótipo. Em questão de segundos, é capaz de abortar um ataque adversário e sair em velocidade em direção à cesta. Em 2000, foi eleito o melhor jogador da liga. Shawn Bradley, do Dallas Mavericks – o jogador mais alto da NBA, com 2,29 metros de altura –, é outro fenômeno. Bradley não tem os recursos do superastro do Los Angeles Lakers, mas pareceria um Michael Jordan se comparado ao gigante soviético de vinte anos atrás.


Irmo Celso

Tkachenko, o gigante de 2,20 metros dos anos 80: longe do perfil atual


Existem várias razões para essa melhoria na qualidade de jogo dos grandalhões. Uma delas está ligada ao aumento na estatura média da população. Antigamente, homens como Tkachenko eram aberrações. Hoje em dia, tornaram-se produtos naturais da raça. Com mais "material humano", seleciona-se um talento alto com mais facilidade. Outra razão diz respeito à alta competitividade nos campeonatos, principalmente na NBA, em que se movimentam bilhões de dólares por ano. Com isso, o sistema de marcação tornou-se mais rígido, obrigando os jogadores a se deslocar o tempo todo e a executar mais de uma função. Os treinamentos foram intensificados. Há duas décadas, havia treinos específicos para os altos e outros destinados aos mais baixos. Agora, independentemente da altura, grandalhões e jogadores mais baixos recebem a mesma carga de exercícios desde as categorias de base. Por isso, é cada vez mais comum na NBA deparar com jogadores altos e pesados mas com a mesma agilidade e velocidade de um atleta com biótipo médio.

Além de agilidade, os treinamentos conseguiram criar uma geração de jogadores muito altos porém dotados de uma harmonia corporal comum aos mais baixos. Só se percebe que são impressionantemente compridos quando colocados ao lado de um homem de estatura mediana. Não há na NBA um único desengonçado como o jogador norte-coreano Ri Myong-Hun, um janjão típico. Gigante com 2,35 metros, há anos deseja uma vaga nas equipes da liga americana. Nunca conseguiu. O mais perto que chegou disso foi obter a oportunidade de jogar no Canadá. Myong-Hun é tão alto que consegue colocar a bola na cesta sem tirar os pés do chão.


AP
Ri Myong-Hun, da Coréia do Norte: bola na cesta sem tirar os pés do chão  


O biótipo do atleta é o primeiro passo para o sucesso nos esportes. Em algumas modalidades, como o vôlei e o basquete, a altura ajuda. Nos últimos anos, o tênis e a natação também foram tomados pelos altões. Gustavo Kuerten tem 1,91 metro. Nas piscinas, nosso herói Gustavo Borges tem 2,03 metros. Em outros esportes, a altura atrapalha. Um piloto de Fórmula 1 precisa ser baixo, por causa do pouco espaço existente no cockpit do carro. O alemão Michael Schumacher tem 1,74 metro de altura. Um jóquei também não pode ser muito grande, sob pena de aumentar o peso nas costas do cavalo e prejudicar o desempenho dos animais na corrida. E o que dizer de uma ginasta com mais de 1,70 metro? Como ela vai decolar do chão? Há também aqueles esportes que abrigam diversos biótipos, sem predileção especial. É o caso do futebol. Um dos maiores desafios da ciência do esporte e dos preparadores físicos é orientar os atletas a trabalhar seus pontos mais fracos. No tênis, jogadores baixos apresentam maior dificuldade para sacar forte. O francês Sébastien Grosjean, de 1,75 metro, investiu em treinos especiais para sacar a mais de 200 quilômetros por hora – característica própria dos tenistas com estatura superior a 1,90 metro. No basquete, a grande dificuldade dos mais altos é correr e disputar bolas baixas. São esses alguns dos fundamentos mais trabalhados pelos gigantes.

Tal disciplina, que faz nascer os campeões, faz surgir também as contusões. Quando um jogador de vôlei com 90 quilos de peso volta ao chão após uma cortada, o impacto do choque com o solo sobre suas pernas é de aproximadamente 900 quilos. O braço, que desenha um movimento nada natural, também sofre. Depois de alguns anos jogando, boa parte dos atletas apresenta tendinite crônica nos ombros, nos joelhos e nos tornozelos. No basquete ocorre a mesma coisa. O jogador Oscar Schmidt, cestinha do basquete nacional, tem uma folha corrida impressionante no campo médico. Quebrou a mão direita quatro vezes e fraturou o tornozelo. Em conseqüência das dores que sente no joelho esquerdo, não pode mantê-lo dobrado por mais de uma hora e meia. Segundo um estudo realizado com 680.000 jovens atletas dos Estados Unidos ao longo de trinta anos, das onze modalidades competitivas mais praticadas naquele país, o basquete é o segundo esporte coletivo mais massacrante para o corpo humano. Perde apenas para o vôlei.

   
 
   
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