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Edição 1 749 - 1° de maio de 2002
Diogo Mainardi

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Não há para
onde fugir

"Com a vitória de Le Pen, os intelectuais
italianos viraram motivo de chacota.
Eles acalentavam a idéia de que a França
era um exemplo
de civilidade"

Le Pen. Para falar de Le Pen, porém, preciso dar uma voltinha, como aqueles motoristas de táxi que escolhem o caminho mais longo para aumentar o preço da corrida. O caminho mais longo me leva a Carlos Heitor Cony. Tempos atrás o acusei de jogo duplo ao ceder uma crônica para um anúncio do BNDES. O anúncio exaltava a venda da Telebrás à iniciativa privada, medida repetidamente condenada por Cony. Ele respondeu reclamando da burrice dos leitores, incapazes de entender o que ele escreve. De acordo com ele, recriminá-lo por ceder uma crônica ao BNDES equivale a acusar Carlos Gomes de apoiar o Estado Novo, uma vez que a Hora do Brasil, instituída pelo Estado Novo, apropriou-se de seu Guarani. Sou obrigado a reconhecer que Cony estava certo: nunca consigo entender o que ele escreve. Numa só tacada, explicou três coisas que minha burrice me impediu de ver. Primeiro: o BNDES deve ter publicado sua crônica sem a sua permissão. Segundo: ele não recebeu nada por isso. Terceiro: se a comparação com Carlos Gomes for tomada ao pé da letra, Cony está morto há mais de quatro décadas, visto que o Estado Novo foi instaurado em 1937, e Carlos Gomes morreu em 1896. Peço desculpas a Cony.

Mas eu sei que sempre existe a possibilidade de ser mal interpretado pelos leitores. Acabo de voltar para a Itália, depois de uma temporada de cinco meses no Rio de Janeiro. Relendo os artigos que escrevi por lá, parece que não gostei da cidade, pois só falei a respeito de esgoto, favelas, dengue, Comando Vermelho e Garotinho. Não é verdade: gostei muito do Rio de Janeiro. De certa forma, a cidade me reconciliou com o Brasil. Sobretudo porque fez bem ao meu filho. Fomos para lá por recomendação médica, mais ou menos como Byron foi para Sintra. E funcionou. As praias com esgoto, as favelas no horizonte, as bromélias com dengue, os tiroteios do Comando Vermelho e as bênçãos de Garotinho fizeram um bem danado ao meu filho. Sem contar a excelente fisioterapeuta, a melhor que encontramos até hoje. Portanto, se passei a impressão de não ter gostado do Rio de Janeiro, peço desculpas.

Quando meu filho saiu do Rio de Janeiro, a Polícia Federal aplicou-lhe uma multa de 800 reais. Ele tinha entrado no Brasil com o passaporte italiano, dotado de um visto de noventa dias. Tendo ficado muito mais, precisará pagar a multa. Como se vê, é um mau momento para os estrangeiros em qualquer lugar do mundo. A onda de xenofobia começou com o triunfo de Haider, na Áustria. Depois veio Berlusconi, na Itália, que prometeu afastar do país os imigrantes clandestinos. Segundo ele, os coitados disseminariam a criminalidade e a Aids. Bush expulsou do Afeganistão o saudita Osama bin Laden e seu exército de estrangeiros. Os israelenses tomaram a terra dos palestinos e decretaram que eles são estrangeiros, sem direito a cidadania, até em seu próprio país. Agora foi a vez de Le Pen, que chegou ao segundo turno das eleições francesas graças ao seu discurso abertamente racista. Quando Berlusconi foi eleito, muitos intelectuais italianos ameaçaram fugir para a França. Com a vitória de Le Pen, esses intelectuais viraram alvo de deboche da imprensa berlusconiana, por terem acalentado a ilusão de que a França ainda podia ser um exemplo de democracia e civilidade. Não é. Consolemo-nos: não há para onde fugir.

 
 
   
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