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Não
há para
onde fugir
"Com
a vitória de
Le Pen, os intelectuais
italianos viraram motivo de chacota.
Eles acalentavam a idéia de que a
França
era um exemplo de civilidade"
Le Pen. Para
falar de Le Pen, porém, preciso dar uma voltinha, como aqueles
motoristas de táxi que escolhem o caminho mais longo para aumentar
o preço da corrida. O caminho mais longo me leva a Carlos Heitor
Cony. Tempos atrás o acusei de jogo duplo ao ceder uma crônica
para um anúncio do BNDES. O anúncio exaltava a venda da
Telebrás à iniciativa privada, medida repetidamente condenada
por Cony. Ele respondeu reclamando da burrice dos leitores, incapazes
de entender o que ele escreve. De acordo com ele, recriminá-lo
por ceder uma crônica ao BNDES equivale a acusar Carlos Gomes de
apoiar o Estado Novo, uma vez que a Hora do Brasil, instituída
pelo Estado Novo, apropriou-se de seu Guarani. Sou obrigado a reconhecer
que Cony estava certo: nunca consigo entender o que ele escreve. Numa
só tacada, explicou três coisas que minha burrice me impediu
de ver. Primeiro: o BNDES deve ter publicado sua crônica sem a sua
permissão. Segundo: ele não recebeu nada por isso. Terceiro:
se a comparação com Carlos Gomes for tomada ao pé
da letra, Cony está morto há mais de quatro décadas,
visto que o Estado Novo foi instaurado em 1937, e Carlos Gomes morreu
em 1896. Peço desculpas a Cony.
Mas eu sei
que sempre existe a possibilidade de ser mal interpretado pelos leitores.
Acabo de voltar para a Itália, depois de uma temporada de cinco
meses no Rio de Janeiro. Relendo os artigos que escrevi por lá,
parece que não gostei da cidade, pois só falei a respeito
de esgoto, favelas, dengue, Comando Vermelho e Garotinho. Não é
verdade: gostei muito do Rio de Janeiro. De certa forma, a cidade me reconciliou
com o Brasil. Sobretudo porque fez bem ao meu filho. Fomos para lá
por recomendação médica, mais ou menos como Byron
foi para Sintra. E funcionou. As praias com esgoto, as favelas no horizonte,
as bromélias com dengue, os tiroteios do Comando Vermelho e as
bênçãos de Garotinho fizeram um bem danado ao meu
filho. Sem contar a excelente fisioterapeuta, a melhor que encontramos
até hoje. Portanto, se passei a impressão de não
ter gostado do Rio de Janeiro, peço desculpas.
Quando meu
filho saiu do Rio de Janeiro, a Polícia Federal aplicou-lhe uma
multa de 800 reais. Ele tinha entrado no Brasil com o passaporte italiano,
dotado de um visto de noventa dias. Tendo ficado muito mais, precisará
pagar a multa. Como se vê, é um mau momento para os estrangeiros
em qualquer lugar do mundo. A onda de xenofobia começou com o triunfo
de Haider, na Áustria. Depois veio Berlusconi, na Itália,
que prometeu afastar do país os imigrantes clandestinos. Segundo
ele, os coitados disseminariam a criminalidade e a Aids. Bush expulsou
do Afeganistão o saudita Osama bin Laden e seu exército
de estrangeiros. Os israelenses tomaram a terra dos palestinos e decretaram
que eles são estrangeiros, sem direito a cidadania, até
em seu próprio país. Agora foi a vez de Le Pen, que chegou
ao segundo turno das eleições francesas graças ao
seu discurso abertamente racista. Quando Berlusconi foi eleito, muitos
intelectuais italianos ameaçaram fugir para a França. Com
a vitória de Le Pen, esses intelectuais viraram alvo de deboche
da imprensa berlusconiana, por terem acalentado a ilusão de que
a França ainda podia ser um exemplo de democracia e civilidade.
Não é. Consolemo-nos: não há para onde fugir.
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