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"Se tivesse saído quieto quando os americanos mandaram, eu poderia estar em um belo posto. Mas não seria uma pessoa feliz" |
O diplomata brasileiro José Maurício Bustani foi destituído na semana passada do cargo de diretor-geral da Organização para a Proibição das Armas Químicas (Opaq), órgão da ONU com sede em Haia, na Holanda. Bustani se licenciou do Itamaraty para ser eleito o primeiro diretor da Opaq, em 1997, e reeleito por unanimidade em 2000. A partir de meados de 2001, começou a receber ordens de membros do governo de George W. Bush e, como se negou a cumpri-las, sua vida se tornou um inferno. Na reunião do conselho executivo da Opaq em março, os Estados Unidos propuseram uma moção de não-confiança para a retirada do brasileiro. Como não conseguiram os votos necessários, apoiaram a idéia de uma conferência especial para tratar do assunto. Na semana passada, Bustani acabou saindo com 48 votos a favor de sua demissão, 7 contra e 43 abstenções. Apesar da destituição, o diplomata, casado e pai de três filhos adultos, não se considera derrotado. Depois de cinco anos sem férias, quer descansar antes de se apresentar ao Itamaraty. Bustani falou a VEJA de sua casa em Haia.
Veja Por que o senhor caiu?
Bustani
Fui um obstáculo para os americanos porque agi de maneira independente,
fazendo com que as regras valessem para todos. Dos Estados Unidos ao Paraguai.
Em tese, os americanos aceitam que as regras valem para todos, mas talvez
não queiram que seja assim na prática. Alguns elementos
do governo americano tiveram novas percepções em relação
ao que devem fazer as organizações multilaterais, aquelas
que reúnem vários países. A nova administração
dos Estados Unidos não admite que um diretor-geral tenha independência
de ação.
Veja Qual é a principal atividade da Opaq?
Bustani
Não
há mais fábricas produzindo armas químicas nos países
membros da Opaq. Nós destruímos todas. Fazemos inspeções
onde existem armas armazenadas, nos locais em que essas armas estão
sendo destruídas e nas indústrias químicas. Os Estados
Unidos, a Rússia, a Índia e a Coréia do Sul, os países
que possuem armas químicas, comprometeram-se a acabar com seus
arsenais e estão fazendo isso sob a supervisão da Opaq.
Todos os países membros da organização que têm
indústrias químicas mais desenvolvidas são inspecionados
para que a comunidade internacional tenha certeza de que não há
armas novas sendo produzidas.
Veja Quando o senhor sentiu que os americanos queriam sua
cabeça?
Bustani
Tive problemas com os americanos desde o começo. Eles não
aceitam facilmente que os funcionários da Opaq façam inspeções
nos Estados Unidos. Em várias oportunidades, os inspetores tiveram
dificuldades de entrar em partes das fábricas americanas. Nessas
oportunidades, não podiam assegurar que a finalidade da planta
era pacífica. Não pude fechar os olhos a esses casos, como
os americanos gostariam. Deixei os casos abertos, insistindo em voltar
às fábricas, entrar em todas as partes e poder garantir
que não havia nenhuma coisa errada. Isso os irritou. Acho que os
americanos não têm medo de que os inspetores roubem segredos
industriais, como alguns dizem. É apenas orgulho. Não querem
aceitar regras que valem para todos os países. A partir de meados
do ano passado, a situação começou a ficar muito
difícil, porque houve mudança na administração
americana. John Bolton, um sujeito da época de Ronald Reagan e
um dos mais tradicionais da linha dura, foi indicado como subsecretário
de Estado. Ao tomar posse, esse senhor decidiu interferir diretamente
em minha administração.
Veja Como assim?
Bustani
Bolton
me telefonou e me deu ordens. Queria inspeções mais camaradas
e que eu colocasse americanos em determinadas posições,
para que eles pudessem controlar mais a organização. Em
toda a minha administração sofri pressões de outros
países, como a Alemanha, e resisti. É importante dizer que
nem todo mundo é igual em Washington. É preciso fazer o
equilíbrio entre os de linha dura e os sujeitos mais inteligentes,
como o secretário de Estado, Colin Powell, que são as pessoas
mais sensatas. Há um ano, Powell, a quem admiro muito, mandou-me
uma carta me agradecendo pelo meu trabalho e me elogiando.
Veja O senhor encontrou Bolton pessoalmente?
Bustani
Sim. Em março, Bolton veio a Haia e disse: "Washington quer que
o senhor saia da Opaq amanhã, antes da reunião do conselho,
e que se retire de Haia imediatamente". Perguntei as razões, e
a resposta foi: "Seu estilo de administração". Pedi que
fosse mais preciso, e ele respondeu que não tinha nada a explicar.
Veja Seu telefone foi grampeado?
Bustani
Desde janeiro, tenho grande dificuldade de falar ao telefone. Todas as
minhas ligações costumam ser interrompidas. Há barulhos
ou a ligação cai. Antes, não era assim.
Veja O senhor teve problemas quando deslocou de função
um funcionário americano?
Bustani
Um funcionário americano, muito próximo do subsecretário
Bolton, estava no posto responsável pelo orçamento, mas
não tinha a menor experiência nessa área. Era um historiador.
Em minha opinião, o orçamento deveria ser feito pela divisão
de orçamento. Em junho do ano passado, pedi que esse americano
exercesse outra função num cargo de prestígio igual.
Isso causou certo tipo de desconforto.
Veja Os americanos têm a intenção de
atacar o Iraque sob a alegação de que Saddam Hussein se
nega a abrir o país para inspeções em busca de armas
de destruição em massa. O que isso tem a ver com sua destituição?
Bustani
Parte de minha função era atrair novos países para
dentro da organização, algo que fiz com enorme sucesso.
O número de Estados membros saltou de 87 para 145 países,
entre eles o Irã e o Sudão. Há cinco anos, tento
convencer o Iraque a entrar para a Opaq, mas não consegui convencer
seus representantes. Não havia sinal algum de que estivessem prestes
a mudar de idéia. Caso o Iraque entrasse na Opaq, teria de aceitar
as inspeções. Talvez haja interesses contrários a
isso.
Veja Pesam contra o senhor acusações graves,
como má administração, iniciativas mal analisadas
e desmoralização de sua equipe.
Bustani
Os Estados Unidos lançaram uma campanha extremamente eficaz. São
responsáveis por 22% do orçamento, mas não pagam
em dia. Até agora, só pagaram metade do que deveriam neste
ano. O Japão, o segundo contribuinte, com 19%, não pagou
nada ainda. A Alemanha só pagou a metade. Tive de fazer das tripas
coração para conseguir manter o número de inspeções
desejado. No ano passado, fizemos apenas 75% das inspeções
que estavam programadas, porque os americanos atrasaram o pagamento. Os
atrasos prejudicaram o trabalho, e agora eles decidiram colocar a culpa
em mim. Sobre a administração, tivemos auditorias externas,
que não encontraram nenhuma irregularidade. Na última reunião,
não houve acusação alguma contra mim. Apenas decidiram
que eu deveria ser demitido imediatamente. Isso foi um linchamento sumário.
Veja Por quê?
Bustani
As regras das organizações multilaterais não permitem
a demissão do diretor-geral. É assim porque é preciso
ter liberdade para trabalhar, independência de ação.
Não se pode se sentir ameaçado, submetido à apreciação
dos Estados membros da organização, por mais importantes
que sejam. O momento de demonstrar desagrado com um diretor-geral ou secretário-geral
é na eleição. O Boutros Boutros-Ghali não
conseguiu reeleger-se como secretário-geral da ONU, em 1996, porque
houve objeção. Mas no meio de um mandato não se pode
fazer isso.
Veja Por que até os europeus ficaram contra o senhor?
Bustani
Os americanos ameaçaram os europeus de se retirar da organização,
o que a inviabilizaria. Para os europeus, isso seria extremamente traumático,
tendo em vista a posição isolacionista dos americanos no
Protocolo de Kioto, aquele do meio ambiente, no tratado das armas biológicas,
no Tribunal Penal Internacional e até na questão das minas
terrestres. A França foi o único país europeu mais
sensível e se absteve de votar contra mim.
Veja Por que o senhor decidiu ficar até ser expulso?
Bustani
Primeiro, porque não havia feito nada de errado. Não pretendia
sair porque os Estados Unidos e outros dois ou três países
estavam me mandando. Esperei para que os países que me elegeram
por aclamação decidissem pela minha saída. Quando
os americanos lançam uma campanha dessa natureza, sabe-se que as
dificuldades serão bastante grandes. Principalmente quando é
um indivíduo contra uma força dessas. Mas isso nunca me
assustou. O que me ajudou foi a certeza de que estava com a consciência
limpa. Se tivesse saído quieto quando os americanos mandaram, eu
poderia estar em um belo posto em outro lugar. Mas não seria uma
pessoa feliz. O mais valioso são os princípios que defendi.
Veja Quais são as vantagens das instituições
multilaterais, as formadas por várias nações?
Bustani
É a forma que encontramos de democratizar as relações
entre os países. Cada país tem um voto e uma voz. O pequeno
e o grande são ouvidos, e existe o compromisso de chegar a conclusões
que são as melhores possíveis para a vida em comum.
Veja Qual é a conseqüência de sua destituição
para a diplomacia?
Bustani
Abre um precedente gigantesco. A partir de agora, qualquer diretor de
organização internacional, incluindo o secretário-geral
da ONU, pode ser retirado sumariamente, como eu fui. Não há
base jurídica alguma para o que fizeram. Não tinha apego
ao cargo, e a minha preocupação era o precedente. Essa decisão
representa um perigo muito grande para o multilateralismo.
Veja Sua resistência não acabou prejudicando
a relação do Brasil com os Estados Unidos?
Bustani
Representantes brasileiros e americanos declararam que esse assunto jamais
afetaria as relações entre os dois países. Imagino
que não tenha afetado mesmo. Eu fui diretor da Opaq, não
o Brasil. Estava licenciado do Itamaraty. Trabalhava como funcionário
internacional e não recebia ordens de ninguém, nem do Brasil.
Veja Os Estados Unidos têm um terço da economia
mundial e um poder militar sem paralelo na história. Se o senhor
fosse um diplomata americano, também não seria prepotente?
Bustani
Infelizmente,
esse é um dos raciocínios que prevalecem em Washington.
O mundo não pode ser feito dessa maneira. Por mais poderoso que
um país seja, não pode viver em isolamento. A comunidade
internacional se relaciona por meio da comunicação e da
cooperação. É impossível impor a vontade de
um país ao resto do mundo. Os grandes impérios acabaram
se destruindo por causa disso.
Veja Sua queda não é uma prova de que os americanos
podem, sim, impor a vontade deles?
Bustani
Houve uma conscientização enorme no Brasil. A cobertura
da imprensa inglesa foi estupenda. Isso me deixa muito contente. As vozes
ainda são baixas, mas elas existem e estão se levantando
contra esse tipo de comportamento. Não é assim que se organiza
a comunidade internacional. Quarenta e três países se abstiveram
de votar contra a minha saída. Isso indica que houve grande desconforto.
Esses países sabem que não deveriam ter apoiado os Estados
Unidos. Quem sabe numa nova oportunidade eles tenham a coragem de votar
diferente.
Veja O Brasil almeja um lugar no Conselho de Segurança
da ONU há anos. Qual é a importância desse conselho?
Bustani
Pelo seu tamanho populacional e geográfico, potencial econômico,
tradição diplomática, história e excedente
de dignidade, o Brasil merece esse lugar. Nosso país tem dez vizinhos
e vive em paz com eles. Seguimos tradições pacíficas
e sempre obedecemos ao direito internacional. O conselho traz prestígio,
mas isso não é o mais importante. O Brasil teria a capacidade
de participar de maneira bastante direta e eficaz nas decisões
sobre a manutenção da paz e da segurança internacional.
Veja Por que o Brasil não conseguiu ainda?
Bustani
É um processo muito complicado. Primeiro o Brasil mudou de posição.
Por algum tempo, o conselho deixou de ser prioridade do governo brasileiro.
Nos últimos dois anos, passou a ser importante de novo. Houve entendimentos
com a Alemanha, e a Rússia deu apoio explícito. Mas esse
é um processo que demorará um pouco.
Veja Qual foi sua maior vitória?
Bustani
Considero que venci a batalha. Minha mensagem foi entendida e apoiada
por um grande número de pessoas. Há um mês, fui ao
Brasil e, quando estava saindo de Guarulhos, em São Paulo, um funcionário
do aeroporto se dirigiu a mim e disse: "O senhor é o seu
Bustani, não é? Só queria dizer que estou com o senhor
e não abro".
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