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Sérgio
Abranches
O
espectro francês
"A
perda de identidade que derrotou
Jospin ameaça aqui ao mesmo tempo
Lula, que anda buscando avidamente
os eleitores de FHC, e o próprio Serra,
que está de olho mais nos votos de Lula
que nos que elegeram duas vezes o
governo a que pertenceu"
O
espectro do extremismo de direita ronda a Europa e assombra a América.
Quase toda a França se une para evitar a chegada de Jean-Marie
Le Pen ao poder. Paul Krugman escreveu que essa direita raivosa já
está no governo dos Estados Unidos. A onda conservadora apeia do
poder a social-democracia e os socialistas e elege os conservadores na
Espanha, em Portugal, na Dinamarca e na Noruega e a extrema direita na
Áustria e na Itália. Ameaça a frágil maioria
social-democrata na Alemanha. Na Holanda, já governa Roterdã.
O desempenho medíocre da economia européia e o elevado desemprego
já seriam suficientes para abalar governos de esquerda. O forte
movimento migratório de pessoas empobrecidas mas com alta qualificação,
vindas da Europa Central e do Leste, e de pessoas pobres e de baixa qualificação,
oriundas da África e de países árabes, agrava os
problemas sociais, deteriora o ambiente urbano, aumenta a pobreza e a
violência. Esse clima faz ampliar as objeções culturais,
políticas e econômicas à unificação
européia e à globalização, porque os imigrantes
competem com vantagem no mercado de pouco trabalho, aceitando salários
muito mais baixos. No pólo extremo, alimenta o voto racista e antiimigrantes.
A extrema direita que chega ao poder é ultranacionalista, beligerante
e discriminatória. No pólo de centro-direita, incentiva
o voto conservador.
Na França, ainda foi mais um fracasso da esquerda que um avanço
da direita. Lionel Jospin perdeu, não porque a esquerda se dividiu,
nem mesmo por causa da abstenção recorde. Perdeu em razão
do desempenho apagado de seu governo, da falta de respostas criativas
às contradições sociais provocadas pela unificação
e pela globalização e por não se ter diferenciado
de Chirac.
A direita esteve tão dividida quanto a esquerda. A abstenção
foi a mais alta registrada nas últimas quatro eleições
presidenciais, mas passou de 22% a 28%, entre 1995 e 2002. Seu principal
efeito ocorreu entre os jovens, chegando a 40%. O eleitor mais jovem tende
a ser mais progressista e fez falta à esquerda, que caiu de 37,2%
para 31,1%. Jospin caiu de 23% para 16%.
Em votos, é possível ver que a direita não avançou
e a esquerda socialista e comunista perdeu muito. Jacques Chirac perdeu
perto de 700.000 votos e Le Pen conquistou apenas 260.000 a mais. Jospin
perdeu quase 2,5 milhões de votos. O comunista Robert Hue sofreu
uma sangria de 1,6 milhão. Jean-Pierre Chevènement capturou
1,5 milhão de votos, e a trotskista Arlette Laguiller conquistou
mais 30.000 eleitores. Resultado: entre as duas eleições,
a esquerda caiu de 11 milhões para 9 milhões de votos, arredondando.
A direita saiu de 13 milhões de votos para pouco mais de 9,5 milhões,
uma queda de mais de 3,5 milhões de votos. Os verdes ficaram com
uma parte dessas perdas.
A grande divisão não foi na esquerda nem na direita. Foi
entre as regiões da França. Entre suas partes mais fechadas,
que reagem mal à rápida abertura à Europa e ao mundo,
de onde saiu a maior parte da votação de Le Pen, e a capital
e as regiões mais abertas, onde ele perdeu feio. Em Paris, Le Pen
teve apenas 9,5% dos votos, contra 20% de Jospin e 24% de Chirac. Na Bretanha,
no Loire e no Limousin, por exemplo, a votação de Le Pen
ficou na casa de 12% dos votos, contra perto de 25% para Chirac e 20%
para Jospin. Já na Champagne, na Lorena e na Alsácia, a
média de Le Pen foi de 22%, contra 19% de Chirac e magros 13% de
Jospin.
Os franceses, divididos e irritados, acabaram produzindo um "voto bronca"
que surpreendeu a todos. Chirac pode se reeleger com mais de 60% dos votos
no segundo turno. A direita, que teve 56% no primeiro turno, deve se dividir,
a maioria com Chirac, a minoria com Le Pen. A esquerda, incapaz de se
unir em torno de Jospin, se unirá contra o fascista Le Pen, em
torno do conservador Chirac. A esquerda e Chirac terão, porém,
de lidar com os sentimentos contraditórios de seus patrícios,
que salvaram a carreira do presidente e encerraram a do primeiro-ministro.
Parte do problema foi a coabitação amigável demais
entre esquerda e direita. Parte derivou da perda de identidade de Jospin.
Coisa que, por aqui, ameaça ao mesmo tempo Lula, que anda buscando
avidamente os eleitores de FHC, e o próprio Serra, que está
de olho mais nos votos de Lula que nos que elegeram duas vezes o governo
a que pertenceu.
Sérgio
Abranches é cientista político
(sergioabranches@sda.com.br)
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