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De como a imprensa ajuda
a desmoralizar a política
Por
decisão das manchetes, grande parte das
questões é rebaixada à categoria de briga eleitoreira
Mudou o ministro da
Saúde na semana passada. Pela terceira vez o governo vai
tentar outra vez, na área que talvez mais interesse à
população, e na qual tem conhecido sucessivos
fracassos. E quais foram as manchetes dos jornais? Alguns
exemplos:
"Nomeação de
Serra provoca crise com PFL";
"Escolha de
Serra divide base governista";
"PFL reage a
Serra na Saúde".
A troca de comando
no ministério trazia à tona a dificuldade de
administrar um setor corroído pela corrupção e a
ineficiência, diante do qual o governo tem se pautado
pela falta de firmeza e a indefinição de propósitos
e o que se lia nos jornais? O episódio resumido a uma
briga partidária. Estava em questão uma área cheia de
esconderijos sinistros, por onde verbas públicas escoam
para cofres particulares, somem vacinas, remédios são
esquecidos até apodrecer, profissionais faltam ao
serviço, bebês morrem, velhos morrem, grávidas morrem
e o maior destaque, na imprensa, ia para como ficam o
PFL e o PSDB, o PPB e o PMDB. Os mais delirantes leram em
suas bolas de cristal a definição do quadro sucessório
de 2002. O senador José Serra teria se colocado na
condição de candidato do governo.
A cobertura da
semana passada revela um traço característico da
imprensa: a fixação maníaca na política pela
política, a política partidária, em prejuízo das
questões de fundo. Em tudo se vê o rastro de um jogo de
bancadas, ou de personalidades, à cata de melhores
posições. É o fenômeno que o jornalista americano
James Fallows, num livro sobre jornalismo
recém-publicado no Brasil (Detonando a Notícia,
Editora Civilização Brasileira), chama de
"reductio ad electum". Tudo acaba reduzido ao
embate eleitoral. A maioria dos jornalistas, diz Fallows,
ou pelo menos a maioria dos mais prestigiosos, aqueles
que definem a hierarquia das notícias, interessam-se
sobretudo por "política pura", e só
ocasionalmente "podem ser forçados a examinar a
essência de um assunto".
O problema não é
só brasileiro, como se vê. Fallows está falando da
imprensa americana. Mas seus conceitos servem como uma
luva ao Brasil. Ele cita um fato ocorrido em 1995. Depois
de um atentado a bomba em Oklahoma City que chocou o
país, o presidente Bill Clinton anunciou uma série de
medidas antiterroristas. Num programa de rádio,
perguntaram então a uma jornalista se as medidas
realmente ajudariam a resolver o problema. Ela respondeu:
"Essa não é bem a questão. O que importa é que a
imagem do presidente cresceu, ao anunciar medidas
drásticas". Não se exige, escreve Fallows, que uma
jornalista seja especializada em combate ao terrorismo,
ou em drogas, ou em negociações no Oriente Médio. A
questão é que "todos os assuntos acabam no mesmo
saco, aquele no qual os mais preeminentes jornalistas
são experts: o perde-ganha do jogo
político".
O fenômeno é tão
corriqueiro, observa Fallows, que passa despercebido
"ou é fácil notar um único grão de areia numa
praia?" No Brasil, igualmente, pode-se
identificá-lo todos os dias. "O instinto natural
dos jornais e da TV", escreve Fallows, "é
apresentar qualquer questão pública como se seu
significado real fosse político, no sentido mais estrito
e operacional do termo as tentativas dos partidos e de
seus candidatos de ganhar vantagens sobre seus
rivais." O resultado é tão frustrante e
emburrecedor, acrescenta, "como seria se, a cada
avanço da medicina, só se discutisse quem vencerá o
próximo Prêmio Nobel".
Se a imprensa age
assim, perguntará o leitor, não é porque a política
é realmente assim? A imprensa não é apenas um reflexo,
um espelho da realidade? A resposta à primeira pergunta
é "mais ou menos", e à segunda é
"não". Há muitos políticos que são assim,
ou seja, que estão na vida pública para auferir
vantagens, sem interesse verdadeiro pelo conteúdo dos
problemas, mas há muitos que não são. Portanto, a
política é só "mais ou menos" assim. Quem
contribui decisivamente para que ela pareça assim é a
imprensa. Porque a imprensa, definitivamente, longe de
ser espelho, tem forte participação na direção do
espetáculo, ao definir que assunto ou que pessoa vão
para a primeira página, sob que enfoque e com que
ênfase. A imprensa no mínimo tanto faz quanto é feita
pela agenda política. E, se decide que a agenda é essa
a briga do PFL com o PSDB , será essa.
Políticos e
jornalistas condicionam-se mutuamente. Se um quer, o
outro acaba aceitando que a verdadeira questão é a
briga partidária-eleitoral, e assim o assunto aparecerá
na primeira página, travestido de "grave
crise", quando, na verdade, na maioria dos casos,
não passa de uma bolha de sabão uma fantasia
destinada a ser esquecida na próxima esquina, ou uma
previsão equivocada. Com isso a imprensa ajuda a fixar a
idéia, para voltar a Fallows, de que "a esfera
política é principalmente uma arena onde políticos
ambiciosos lutam pelo domínio", e tornar ainda mais
distante a noção do que deveria ser: "uma
estrutura na qual os cidadãos tratem dos problemas
coletivos".

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