Cenas de época

Um belo acervo de pintura holandesa na Pinacoteca

A Passadora
de Roupa:
cena
burguesa
Foto: Centraal Museum Utrecht  

Não é de hoje que os holandeses sabem contar uma história, como atesta o Oscar dado ao filme Caráter. A exposição Mestres do Século de Ouro na Pintura Holandesa, em cartaz até 26 de abril na Pinacoteca do Estado, em São Paulo, é um fino exemplo da narrativa pictórica praticada no século XVII na terra dos diques e moinhos. São trinta telas de dezoito artistas vindas diretamente da coleção do Museu Central de Utrecht, uma cidade medieval encravada no coração da Holanda. Num tempo em que os pintores de outros países europeus empunhavam seus pincéis para criar obras sacras ou retratos empolados da nobreza, os holandeses pintavam sua própria burguesia, compondo um vivo painel de época.

São retratos de família, paisagens urbanas, cenas rurais e até arranjos de flores. Situações cotidianas banhadas por uma luminosidade algo dramática, inspirada na obra do italiano Caravaggio, que influenciava fortemente a pintura européia da época. Os principais mestres da escola de Utrecht eram Joachim Wtewael (1566-1638), célebre por suas paisagens urbanas, Paulus Moreelse (1571-1638), o maior retratista da cidade, e Abraham Bloemaert (1566-1651), um refinado criador de cenas campestres. A eles se junta o nome de Jacob Duck (1600-1667), que primava pela criação de grupos humanos, como soldados jogando cartas em quartéis e moças em afazeres domésticos. Esses artistas, que ganhavam a vida vendendo seus trabalhos para o povo da cidade, influenciariam uma dupla de gênios do pincel, os seus conterrâneos Rembrandt (1606-1669) e Jan Vermeer (1632-1675).

De Jacob Duck, a mostra exibe uma encantadora cena doméstica, A Passadora de Roupa. Nela, uma jovem empregada, muito possivelmente numa friorenta manhã de inverno, passa a roupa da patroa no porão da casa. Ela tem um dos pés descansando sobre um aquecedor alimentado por brasas. Aos seus pés, um cesto de roupas e um bicho estranho, híbrido de gato com cachorro. Igualmente bizarro é o rosto da menina, sentada à esquerda do quadro, segurando um cata-vento nas mãos. No simbolismo da época, o brinquedo tanto está ligado à infância quanto à loucura. O talento de Duck se faz presente na riqueza de detalhes e no realismo com que trata os materiais. Além do tecido que a moça engoma, brilham pratos de estanho e cobre, pendurados na parede. Essa curiosa cena doméstica é uma pintura precursora dos magníficos retratos que Vermeer pintaria de mulheres trabalhando. No quadro de Duck já se notam alguns traços típicos da obra do gênio de Vermeer, como a luz que banha a cena. Enviesada, vinda do lado esquerdo do quadro, ela faz com que o frio porão se converta num espaço aconchegante.

A única ressalva a ser feita à mostra não diz respeito à coleção exibida, mas sim ao novo sistema de iluminação da Pinacoteca. Ele faz com que todas as bochechas dos retratados saltem aos olhos do espectador, num resultado involuntariamente histriônico. Para um acervo como este, o melhor teria sido optar por uma luz intimista, mais afinada com a vida na Holanda daqueles tempos.




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