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Os cacos do mundo
Em São
Paulo, o peso e a solidão da
pintura do italiano Giorgio De Chirico
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| Fotos: Mubr |
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| Interior com Templo
Grego (1926) e Musa
Inquietante (1924):
pessimismo e estranhamento |
Apesar
da sensação de silêncio e da calma aparente, nada
descansa na pintura do italiano Giorgio De Chirico
(1888-1978). A grandeza do pintor, de quem o Museu
Brasileiro da Escultura expõe uma coleção de oitenta
pinturas e uma centena de esculturas, está na maneira
como ele espelhou, com suas cidades desoladas e
composições com figuras, o desconforto e a solidão nos
tempos modernos. Por parecer suspensas no tempo, tais
pinturas foram batizadas pelo próprio De Chirico de arte
metafísica. O termo acabou por nomear a escola fundada
por ele mesmo e seu amigo Carlo Carrà, que viria a
influenciar uma leva de pintores surrealistas, de René
Magritte a Salvador Dalí. O melhor De Chirico é aquilo
que ele pintou entre os anos 10 e meados dos anos 20. O
pior dele é do final de sua vida, principalmente o que
foi produzido nos anos 60 e 70, quando, cada vez mais
acabrunhado e ressentido com a crítica, ele diluía e
tentava copiar, sem sucesso, seus temas de juventude,
adulterando as datas, para tentar vender quadros tardios
como se fossem obras juvenis. Sua escultura também é de
baixa qualidade, comparada ao poder de fogo do início.
Essa mostra paulistana, que se estende
até o dia 28 de abril, traz cerca de uma dezena de quadros da melhor cepa
do artista, a maioria deles de sua juventude. Mesmo pequeno, o filé da
exposição justifica a visita ao museu. Munido de uma técnica apurada,
De Chirico, que teve sua infância dividida entre a Grécia e a Itália,
usou ferramentas clássicas para fazer pintura moderna. Conforme notou
o crítico americano William Rubin, De Chirico perverteu, cirurgicamente,
a técnica da perspectiva para transtornar o espectador. Como se sabe,
a perspectiva, que se desenvolveu durante a Renascença italiana, reúne
uma série de artíficios ópticos, como o ponto de fuga, para provocar no
espectador a ilusão de tridimensionalidade. O ponto de fuga é justamente
aquele lugar, no quadro, onde a vista parece alcançar o infinito. Um quadro
tipicamente clássico só tem um desses pontos. Pois De Chirico, em suas
melhores paisagens, como Musa Inquietante, de 1924, semeia três
pontos de fuga, ou mais, pelo espaço (confira no quadro). O observador mais atento percebe que na Musa
Inquietante eles estão na arcada, no lado esquerdo do quadro, no céu,
ao fundo das torres da construção em terracota, e outra vez no céu, acima
das duas chaminés à esquerda, no fundo do quadro. Com isso ele consegue
que o olhar do espectador vagueie, perdido pela paisagem, sem encontrar
descanso. Mas o artifício mais aparente de De Chirico para simbolizar
seu pessimismo diante da vida moderna foi o acúmulo de um arsenal de elementos
absolutamente díspares.
Ao contrário das
naturezas-mortas, um gênero de pintura que supõe a
ordenação do mundo pela combinação harmoniosa de
elementos diversos, como animais, alimentos e plantas,
nos quadros de De Chirico o resultado de suas
composições é um bricabraque indigesto o universo
em convulsão. São manequins, colunas gregas partidas,
chaminés e trens de ferro soltando vapor, estes uma
espécie de homenagem ao pai do pintor, que era
engenheiro ferroviário. De Chirico também se valia de
mais um recurso, o deslocamento das coisas para um
espaço absolutamente estranho. É o que acontece, por
exemplo, com Interior com Templo Grego, uma
sufocante sala fechada onde ele acumulou rochedos e
pedaços de pilastra jogados ao chão, como se
colecionasse os cacos de um mundo antigo e
irremediavelmente perdido. De Chirico não usava os
pincéis para criar ilusões, mas para desfazê-las.
Angela
Pimenta

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