Vale quanto pesa

Prepare seus músculos e sua coluna —
os best-sellers estão cada vez mais grossos

Carlos Graieb

Numa era obcecada pela magreza e pelos objetos portáteis, a literatura popular anda na contramão. Basta observar as prateleiras das livrarias, para constatar que os best-sellers — aquelas obras que oferecem diversão em estado puro, sem pretensões intelectuais — andam cada vez mais grossos. Sejam eles romances água-com-açúcar, de terror ou ficção científica, eles parecem feitos sob medida para entrar nos quadros de Fernando Botero, o pintor dos personagens gorduchos. Tome-se como exemplo dois lançamentos recentes de autoras que fazem muito sucesso no Brasil. O Regresso, de Rosamunde Pilcher, tem 1.091 páginas e pesa 1,52 quilo. Os Favoritos de Fortuna, de Colleen McCullough, é ainda maior: 1.205 páginas e quase 2 quilos no ponteiro da balança. Não que medidas como essas sejam novidade no terreno das letras — o primeiro romance moderno, Dom Quixote, do espanhol Miguel de Cervantes, já era um calhamaço considerável. Mas os livros de ficção engordam atualmente por ordem expressa dos editores. Amparados em pesquisas de mercado, eles pedem aos autores histórias mais longas, que resultem em livros mais cheios. Querem pesos pesados — e isso não se refere ao recheio intelectual.

A escritora britânica Rosamunde Pilcher é um bom exemplo dessa nova tendência no mundo dos romances. Durante anos ela publicou livros de tamanho médio, em torno de 300 páginas, com sucesso relativo. Certo dia, recebeu um desafio de seu editor americano, Tom Dunn: escrever uma obra de fôlego, que superasse as 600 páginas. "Tom sentia que meus leitores gostariam de tramas mais minuciosas, personagens com quem pudessem conviver por mais tempo", disse Rosamunde a VEJA, por telefone. "Aceitei a proposta. Tenho imenso prazer em trabalhar nos detalhes e, na minha idade, acumulei experiências que podem encher muitas páginas." O primeiro trabalho da nova fase foi Os Catadores de Conchas, que catapultou a autora para o topo das listas de best-sellers. Seguiram-se Setembro e O Regresso — ambos tijolaços de enorme sucesso.

Outras escritoras igualmente caudalosas, que vendem muito no Brasil, são Judith McNaught (Em Busca do Paraíso) e Judith Michael (Pote de Ouro). Segundo estimativas recentes, 53% de toda a literatura comercializada anualmente nos Estados Unidos vem do filão dessas autoras: ficção romântica, para um público majoritariamente feminino. A fórmula habitual para livros desse tipo é mais ou menos a seguinte: homem e mulher se encontram, o destino os separa, eles se reconciliam — normalmente para um casamento feliz. "É um esquema seguro, que não oferece muitos desafios para o leitor", diz Rosamunde Pilcher. "As autoras mais sofisticadas, no entanto, conseguem usar essa forma leve para fazer observações profundas sobre as relações humanas." Tempos atrás, as regras para compor esses livros eram bastante rígidas. Sexo muito explícito ou temas como divórcio eram tabu. Hoje há mais tolerância, o que ajuda a rechear páginas e páginas com as tais "observações profundas".

Conversa emblemática — "Se um autor me oferecer escolha entre um livro um pouquinho maior e um livro um pouquinho menor, fico com o primeiro", diz o editor Pat Lo Brutto, da megaeditora americana Bantam Books. "Os leitores acham que estão investindo melhor seu dinheiro em livros grossos. Não devemos deixar que eles pensem coisas do tipo 'uma caixa de sorvete vai durar mais que este romance'." Nos Estados Unidos, a tendência dos best-sellers românticos com mais páginas não chega a pesar significativamente no bolso dos leitores. Livros desse tipo não costumam ser lançados em capa dura, apenas em brochura, e custam entre 5 e 8 dólares. No Brasil, a escala é bem diferente. Para ler a tradução de O Primeiro Homem de Roma, de Colleen McCullough, por exemplo, a leitora brasileira tem de desembolsar 49,50 reais, preço proporcional ao volume da obra.

Mesmo assim, também no Brasil, a tendência é que as obras encorpadas atraiam leitores. Rosemary Alves, editora da Bertrand Brasil, que publica os tijolões de McCullough, conta que uma vez presenciou uma conversa emblemática entre uma compradora e um caixa de livraria. A leitora achou alto o preço de 60,50 reais por um exemplar de A Coroa de Ervas, que pretendia levar. Depois de fazer uma equação custo/benefício, concluiu que valia a pena: "Dividindo o valor por seis meses de leitura não fica tão caro!" Uma técnica alternativa para "financiar" a leitura dos romances muito grossos é dividi-los em volumes. Copiando as editoras francesas e portuguesas, a Rocco fez isso com A Hora das Bruxas, de Anne Rice, e Os Pilares da Terra, de Ken Follett.

Enquanto durar a tendência dos romances-tijolo, é bom que os leitores dessas obras preparem os músculos para agüentar seu peso. E não se deve esquecer os conselhos dos fisiatras: leitura requer postura correta, caso contrário pode causar problemas na coluna. Ler deitado, nem pensar, ainda mais se o livro for muito pesado. Na dúvida, é melhor seguir o conselho do crítico americano Edmund Wilson: "Só valem a pena as obras que se podem levar para a cama".




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