Enfim, no azul

Mesmo com onze Oscar e um faturamento
bilionário, Titanic só agora começa a se pagar

João Gabriel de Lima, de Los Angeles

Titanic: megalomania e estouros no orçamento

Nenhum iceberg foi grande o suficiente para abalroar Titanic na última festa do Oscar. Das catorze categorias para as quais estava indicado, o filme de James Cameron abocanhou as estatuetas de onze, entre elas as de melhor filme e diretor, igualando o recorde de Ben-Hur em quantidade de prêmios. É mais um número impressionante na carreira dessa produção que custou 230 milhões de dólares, aí já incluídos os custos financeiros do projeto, e arrecadou 1,1 bilhão nas bilheterias dos quatro cantos do mundo. O espanto provocado por essas cifras deu margem, no entanto, a duas interpretações equivocadas. De acordo com a primeira, o filme teria compensado com sobras vultosas o monstruoso investimento feito pelos estúdios Fox e Paramount. A segunda é uma teoria segundo a qual, motivados pelo sucesso de Titanic, os mamutes do mundo do cinema estariam dispostos a gastar fortunas em megaproduções daqui para frente. Não é verdade. Só agora, quando rompeu a barreira do bilhão de dólares, é que o filme está começando a se pagar, com um lucro de 35 milhões de dólares (veja quadro acima), baixo para os padrões estratosféricos da indústria cinematográfica americana. Se não fosse o campeão de bilheteria em todos os tempos, Titanic teria dado prejuízo. Longe de querer repetir a empreitada, os estúdios encaram o filme como um exemplo a ser evitado.

"O Titanic representou uma aposta alta demais, que tirou o sono dos executivos da Fox e da Paramount", avalia a advogada Nathalie Hoffman, de Los Angeles, especialista em contratos do show business. Foi uma aposta que, na verdade, os dois estúdios não queriam fazer. O orçamento inicial do filme, que já era considerado acima dos padrões, chegava a 120 milhões de dólares. Metade seria bancada pela Fox e metade pela Paramount. Pelo contrato, a Paramount se encarregaria dos custos do lançamento nos Estados Unidos, ganhando em troca todo o lucro no mercado americano. A Fox se responsabilizaria pelas despesas — e auferiria os ganhos — no resto do mundo. Embora os Estados Unidos sejam o maior mercado do planeta, a Fox levaria uma certa vantagem, exceto por uma cláusula. Caso o orçamento do filme estourasse, a Paramount só entraria com mais 5 milhões de dólares. O resto caberia à Fox. A Paramount pediu para incluir essa cláusula sabendo da fama de gastador de James Cameron. Fez bem. A Fox acabou torrando pelo menos 135 milhões para atender às demandas cada vez mais megalomaníacas do autodenominado — vide seu agradecimento na festa do Oscar — "rei do mundo", segundo números fornecidos pela própria companhia. Em Hollywood, porém, comenta-se que esse gasto teria sido ainda maior. Recuperar um investimento desses, com largas margens de ganho, é dificílimo.

Os estúdios costumam trabalhar com uma fórmula segundo a qual um filme, para se pagar, tem de arrecadar o triplo do que foi gasto na sua confecção. No caso de Titanic, essa regra deixou de valer porque seus custos adicionais superaram os limites do bom senso. Um bom exemplo foi o que se desembolsou com publicidade. Normalmente, a divulgação de uma grande produção sai por 35 milhões de dólares, menos da metade do consumido pela propaganda do filme de Cameron: 85 milhões. Os produtores de Titanic esperam ganhar mais dinheiro agora, com a venda dos seus direitos para vídeo e televisão. Na semana passada, a Fox e a Paramount estavam negociando a venda do filme para o canal aberto americano ABC por 30 milhões de dólares. A emissora já teve uma amostra do potencial televisivo da fita durante a transmissão da entrega do Oscar. Graças a Titanic, o programa foi assistido por 87 milhões de americanos, o que o transformou no mais visto do gênero na História do país. A extraordinária performance do filme na premiação, espera-se, deve colocar ainda mais lenha em suas fornalhas. Ele continua no topo do ranking de arrecadação em países como Alemanha, França, Inglaterra, Japão e Austrália, além dos Estados Unidos e do Brasil.

Vingança — Para muitos críticos, a vitória do Titanic foi saudada como a vingança dos grandes estúdios contra o cinema independente, que dominou o Oscar no ano passado com produções como Fargo e Shine — Brilhante. Na verdade, embora sigam investindo em grandes produções, os principais estúdios gostam cada vez mais de filmes que custam pouco e faturam muito. A própria Fox, que torrou uma bolada com Titanic, adorou co-produzir Ou Tudo ou Nada, que custou apenas 3,5 milhões, arrecadou 217 e proporcionou um lucro líquido de 43 milhões. Ao contrário de Guerra nas Estrelas, que iniciou a onda dos filmes feitos para vender badulaques, Titanic não vai inaugurar uma nova era — a das superproduções delirantes. É um caso único de aposta maluca que por pouco não dá errado. Seu único efeito, em relação ao cinema, talvez seja uma mudança de perspectiva. Depois da exuberância visual, do romance e da adrenalina de Titanic, talvez passemos a achar os filmes de pancadaria de Schwarzenegger e congêneres muito chinfrins — e tão arrastados como um "filme de arte".

Por que Barreto não levou

Barreto: ele só
pôs a mão na réplica
Foto: Pablo Grosby  

Bruno Barreto, diretor de O que É Isso, Companheiro?, sentou-se ao lado do holandês Mike Van Diem, de Caráter, na platéia do Oscar. Pouco antes do início da cerimônia, o holandês disse ao brasileiro: "Todos sabem que o prêmio está entre nós dois. Você já preparou o discurso?" Diante da afirmativa de Barreto, Van Diem arrematou: "Eu não. Você me ajuda?" E rabiscou ali mesmo, tirando dúvidas de inglês com a mulher de Bruno, a atriz Amy Irving, o discurso que leria horas mais tarde, ao receber o prêmio de melhor filme estrangeiro. Quando o Oscar foi anunciado, Van Diem beijou a testa do brasileiro e foi receber, no palco, o beijo que Bruno cobiçava — o de Sharon Stone, que entregou o Oscar da categoria. Naquele momento, o holandês ganhou a batalha do tostão contra o milhão.

Companheiro tinha por trás o lobby de uma distribuidora poderosa, a Miramax, foi lançado nos Estados Unidos com estardalhaço em 48 cidades e teve um público de 300.000 pessoas em território ianque. Antes do Oscar, Bruno Barreto ia a festas onde bebia champanhe junto com Madonna e Robin Williams. Enquanto isso, o estreante Mike Van Diem, de 39 anos, passeava incógnito em Los Angeles. Caráter, lançado em maio do ano passado, fez carreira medíocre em países como Holanda, Alemanha e Polônia. Estreou nos Estados Unidos apenas na sexta-feira passada e, no Brasil, deve entrar em cartaz ainda no primeiro semestre.

Como foi que um obscuro filme holandês derrubou um produto badalado pela poderosa Miramax? Para muitos, a razão é simples: ele é melhor do que o brasileiro. Mas, além da qualidade, há uma outra explicação — a estratégia esperta da Sony, distribuidora de Caráter. Em vez de mostrar o filme, ela o escondeu. Sabendo que a obra de Van Diem tinha uma boa recepção no comitê que escolheu os cinco indicados para melhor filme estrangeiro, fez só duas sessões em Los Angeles. O objetivo da manobra era que não houvesse muitos eleitores além do comitê — já que só podem votar os acadêmicos que tenham visto todos os cinco filmes concorrentes. Ao diminuir o tamanho do colégio eleitoral, a Sony aumentou consideravelmente as chances do filme holandês. Deu no que deu.




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