A cerimônia dos titãs

Foto: Pablo Grosby
Cláudia e Fernanda: modelito de
última hora

Antes de decolar para Hollywood, a atriz Fernanda Torres cansou-se de posar com a roupa made in Brazil que usaria na cerimônia de entrega do Oscar. Ao chegar a Los Angeles, sucumbiu ao charme das lojas da famosa Rodeo Drive. Optou por um modelito marrom com detalhes dourados do holandês Dries van Notten. Do figurino original, usou apenas o colar de águas-marinhas. "Foi para homenagear o Brasil", disse. Cláudia Abreu, recém-casada com o cineasta José Henrique Fonseca, optou por um pretinho básico nacional.

Em um ano de premiações transatlânticas e piadas náufragas, o veterano Stanley Donen, diretor de musicais como Cantando na Chuva, navegou tranqüilo. Para agradecer o Oscar pelo conjunto de sua obra, Donen colou a estatueta ao seu rosto enquanto sapateava e cantava Cheek to Cheek (Rosto no Rosto) imortalizada por Fred Astaire e Ginger Rogers. Seu charme singelo contrastou com a dublê de atriz e cantora Cher, que abriu o bloco dos efeitos especiais com um longo vestido transparente coroado por um chapéu aerado de duvidosa inspiração futurista. O time das que esnobaram diamantes de todos os quilates em prol do brilho próprio foi comandado pela belíssima Kim Basinger e mostrou que resta uma esperança à festa mais cinematográfica do ano.

Acompanhada de um rapagão de cavanhaque, todos pensaram que Madonna enfim assumiria o namoro com o bonitão Guy Oseary, executivo de sua gravadora. Não foi desta vez. A cantora, ladeada por seu irmão, Christopher Ciccone, trocou o visual neo-hippie por um modelo Jean-Paul Gauthier apropriado para festas do Dia das Bruxas. O decote abissal, que exibia sem pudores a devastação da maternidade, não eclipsou seus bíceps másculos.

A atriz inglesa Kate Winslet, a belíssima (e talentosa) passageira principal do Titanic, tentou se proteger de um naufrágio na disputa de melhor atriz do ano envergando um modelo sereia de Givenchy. As más línguas disseram que as curvas em profusão da moça eram de balançar todos os escaleres do Titanic, mas triste mesmo ela ficou quando soube que voltaria para casa de mãos vazias. Afogou as mágoas devorando duas rodadas do menu completo do jantar oficial da Academia.

Deslumbrante em um vestido cor de pistache que lembrava Grace Kelly, Kim Basinger, a vencedora do Oscar de melhor atriz coadjuvante, era um brilho tão ofuscante aos olhos dos milhões de telespectadores que pouca gente ouviu seus agradecimentos. Quem não perdeu a audição descobriu que a loura sabe ser má como os bandidões de Los Angeles — Cidade Proibida. Agradeceu ao diretor, à irmã, ao maridão, Alec Baldwin, à filha de 2 anos e ao pai. E a mamãe? Kim ignora dona Ann Basinger, de 70 anos, a quem proibiu de ver sua filhinha.

Além de ganhar a estatueta por sua espetacular atuação em Melhor É Impossível, a atriz Helen Hunt reforçou sua conta bancária assinando horas antes um contrato de 1 milhão de dólares para cada episódio da série Louco por Você. De quebra, livrou-se da pecha de uma das dez mulheres mais mal vestidas dos Estados Unidos. Magérrima, brilhou em um Gucci tomara-que-caia azul-turquesa à prova de comentários maldosos.

Sharon Stone anunciou o vencedor na categoria de melhor filme estrangeiro mostrando que o contrato matrimonial assinado com Phil Bronstein permite quebras fortuitas em nome do amor. A loura aditivou a saia acetinada usando uma camisa surrupiada do guarda-roupa de Phil. A cara amarrada do maridão não tinha nada a ver com o avanço da moça sobre suas posses. A bronca era pelo modo peculiar como a atriz usou sua camisa. Sharon ignorou os botões.

Comentarista da TV Globo convidado para a transmissão da entrega do Oscar, o cineasta Arnaldo Jabor roubou a cena. Chamou Robin Williams, o melhor ator coadjuvante, de canastrão e disse que James Cameron, diretor de Titanic, deveria ganhar o Oscar de melhor construtor naval. Para quem não entendeu o jeitão raivoso de Jabor, ele explicou. "Não podemos ficar como espectadores deslumbbadoc de uma festa provinciana."

Editado por Eduardo Junqueira.
Com reportagem de João Gabriel de Lima, de Los Angeles




Copyright © 1998, Abril S.A.

Abril On-Line