Acelera Ayrton Senna

Claudio de Moura Castro

Luiza Ruberti

País pobre tem poucos recursos para a educação. Com educação pobre os alunos aprendem pouco, levam bomba e repetem de ano. Ao repetir e repetir, levam mais tempo para terminar, gastando doze anos para completar oito séries (muitos levam 2,5 anos para completar uma). Assim, quem economiza em educação acaba tendo de gastar mais. Na pátria amada, são 3 bilhões de reais gastos com repetentes. Economia porca, pois não?

João Batista Oliveira concebeu e desenvolveu o Projeto Acelera Brasil, promovido pelo Instituto Ayrton Senna (em dobradinha com a Petrobrás) e apoiado pelo MEC, demonstrando que há uma solução viável para eliminar o exército de repetentes que se acumula nas séries iniciais.

Como funciona? Os alunos repetentes são colocados em "classes de aceleração", onde recebem um programa especial, bem diferente das aulas que freqüentavam. Para início de conversa, busca-se aumentar sua auto-estima, exatamente o oposto do que faz a escola convencional. Todas as tarefas que são pedidas ao repetente ele dá conta de fazer, alimentando assim uma auto-imagem positiva — em vez de marginalizar-se com frustrações que acabam por gravar na sua cabeça que ele é um repetente, um fracassado.

O programa toma apenas os temas mais importantes do currículo, trocando quantidade por profundidade. Isso é uma revolução na nossa escola enciclopédica, feita para gênios e freqüentada por alunos mal preparados.

O programa tampouco supõe que os professores são ilustradíssimos e dispõem de tempo para criar materiais, exemplos e exercícios. Pelo contrário, ensina aos professores o que fazer na sala de aula e como fazê-lo. Há encontros semanais com os orientadores e supervisores do programa, rompendo a tradição de jogar o professor na sala de aula para que improvise como puder.

Trinta mil alunos passaram pelo programa (e por outros semelhantes em Minas e no Maranhão), desde gaúchos de municípios prósperos até maranhenses do interior. Ao fim do ano letivo, as professoras aplicaram provas nos alunos, aprovando virtualmente todos. A avaliação externa da Fundação Carlos Chagas mostra que os alunos foram aprovados porque, de fato, aprenderam a lição. De crianças repetentes e frustradas, viraram aprovadas e felizes.

Ao cabo de um ano de programa, em média, esses alunos terminam pulando dois. Testes preliminares mostram que eles têm praticamente as mesmas notas de seus colegas não repetentes de 4ª série. Impressionante, pois não?

Mas nada é de graça neste mundo. O programa custa entre 150 e 200 reais, num país que gasta 350 reais por aluno/ano. Só se obtêm os resultados gastando mais e operando o programa com seriedade. Não é uma poção mágica. Mas os números são eloqüentes. Ao se gastar 200 reais, economizam-se 850 com as repetências evitadas. Se aplicado a todos os multirrepetentes brasileiros, o programa custaria 2 bilhões e economizaria 8,5 bilhões de reais. Esse dinheiro permitiria expandir séries mais elevadas, aumentando o nível educacional dos brasileiros sem onerar as burras públicas.

De quebra, o programa destrói alguns mitos. Fracasso e repetência não são uma maldição dos deuses, mas uma barbeiragem crônica na gestão da escola. Mesmo os alunos mais pobres dos Estados mais pobres mostram bons resultados quando tratados com métodos apropriados e quando sua auto-estima é reforçada, em vez de castigada. Mesmo os mestres mais abandonados mostram resultados extraordinariamente positivos quando amparados por uma estrutura forte e corretamente orientada.

Mas isso não acontece apenas firmando convênios. Nada feito se os livros não chegam a tempo, se o regulamento imbecil não permite financiar os supervisores, se não se cuidar da logística, enfim, se tivermos uma caricatura e não um programa. Teremos mais um fracasso no congestionado cemitério dos programas para salvar a educação. A bola está com os prefeitos. Ayrton Senna está na "pole position" esperando quem acelere com ele.

Claudio de Moura Castro é economista (e-mail: ClaudioMC@earthlink.net)




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