Coisa de amador

Auditoria descobre que velhinhas de Beardstown
calcularam mal seus lucros, que são medíocres

Foto: Divulgação/Hiperyon
As sócias do clube de investimentos: erro nas contas

Nos últimos dez anos, um grupo de senhoras da cidade americana de Beardstown se banhou em fama por causa de seu clube de investimentos. Embora pequeno, ele rendia 23% ao ano, em média, batendo o desempenho da maioria dos grandes fundos. As "velhinhas de Beardstown", como ficaram conhecidas, publicaram cinco best-sellers, deram centenas de palestras e apareceram dezenas de vezes em entrevistas na televisão. Vieram até o Brasil para lançar um livro editado com o patrocínio da Bolsa de Valores de São Paulo.

Pressionadas pelo ciúme de financistas profissionais, as velhinhas concordaram que suas aplicações fossem auditadas pela Price Waterhouse. O resultado foi constrangedor. O fundo das velhinhas de Beardstown tem, na verdade, rentabilidade de 9% ao ano. Só isso. Está abaixo da média dos fundos de investimento americanos, de 12%. A investigação revela que as senhoras, embora sejam muito simpáticas, aplicam mal seu dinheiro. Aparentemente, o erro não foi cometido com más intenções. Ele é resultado de uma contabilidade de amador. Segundo o regimento do clube, todo mês cada uma das integrantes depositava 25 dólares num fundo comum para a compra de ações. Esse capital era somado ao lucro obtido, e dessa forma se produziam os lucros inflados que encantaram tanta gente e criaram inveja entre as feras de Wall Street. Quando a auditoria desagregou o capital dos lucros, apareceu a rentabilidade medíocre.

Receitas de bolo — As velhinhas não lesaram ninguém e a revelação não atrapalha o conteúdo de seus livros — embora seja difícil que alguém volte a comprá-los com muito entusiasmo. Nesses livros, elas misturam técnicas de investimento com receitas de bolo e dão conselhos de muito bom senso. Recomendam que as pessoas comprem ações de empresas que conhecem e nas quais confiam. Partem de observações práticas, comuns às donas de casa. Se as pessoas estão comprando muito chocolate em pó nos supermercados de Beardstown, então é hora de jogar algum dinheiro nos fabricantes de chocolate. Como se vê, as receitas têm um recheio de bom senso. O problema é que não são fórmulas mágicas para lucro certo.

O clube de Beardstown foi criado em 1983 por um grupo de mulheres que se reuniam para tomar chá no salão da igreja evangélica luterana. Elas levavam biscoitos, cópias de receita e, durante horas, discutiam os assuntos do momento, inclusive o desempenho das empresas americanas. Até que transformaram o passatempo numa espécie de comitê de investimento. As senhoras de Beardstown não são o sucesso que se imaginava, mas provocaram um movimento positivo nos Estados Unidos. Hoje, há 36.000 clubes de investimento espalhados pelo país, o dobro do que havia três anos atrás. Em geral, esses clubes são montados por quinze pessoas, das quais apenas uma tem alguma experiência em investimento no mercado de ações. O clube funciona como uma escola. Cinco anos depois que começa a operar, praticamente todos os sócios já possuem investimentos próprios, feitos independentemente do clube, nas bolsas de valores. As velhinhas podem ter errado nas contas, mas animaram novos investidores a arriscar seu dinheiro em ações. O que é muito bom para as bolsas de valores e para as empresas americanas.




Copyright © 1998, Abril S.A.

Abril On-Line