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Império em risco

Sob ameaça de recessão, o Japão tenta animar a economia

O Japão, quem diria, já não é a máquina econômica agressiva que encostou o mundo na parede nas décadas de 70 e 80. A situação por lá não anda nada boa. Por mais que se esforce, o governo japonês não consegue arrancar o país do marasmo. Desde 1990 a economia cresce a taxas pífias, em média 1% ao ano, e para 1998 os economistas estão prevendo crescimento zero. Ou recessão, que seria a primeira desde o choque do petróleo de 1974. Com a crise asiática, o caldo entornou. De outubro até agora, o governo já aplicou cinco pacotes para estimular o crescimento. Os quatro primeiros não deram certo. O quinto foi anunciado na semana passada. Haverá um desembolso de 124 bilhões de dólares para obras públicas, como pavimentação de estradas, ampliação da rede de esgotos e instalação de cabos de fibra óptica. O objetivo é criar emprego, estimular o consumo e reanimar as empresas, que já não andavam bem e pioraram com a queda das exportações para os países asiáticos.

O pacote não pára por aí. Nesta semana, Tóquio pode anunciar corte no imposto sobre o consumo, para que os japoneses comprem mais. Outra alternativa em discussão é reduzir o imposto de renda de pessoas e empresas — também para que sobre mais dinheiro. Essas são medidas de emergência, que mostram o grau de inquietação das autoridades japonesas. Elas já fizeram de tudo para que a população volte a comprar — e as empresas a prosperar — e nada funcionou. Nem os juros baixíssimos, de 0,5% real ao ano, desestimularam a poupança. O japonês está desconfiado e por isso guarda todos os ienes que sobram. Está desconfiado dos bancos, que carregam créditos podres de 500 bilhões de dólares. Está desconfiado dos políticos, pois há uma onda nunca vista de denúncias de corrupção. E, pela primeira vez, o temor de perder o emprego está tirando o sono dos japoneses. Eles sabem que o sistema antigo, de emprego vitalício, não dura muito, pois as empresas terão de se reciclar para ganhar produtividade. É um processo que normalmente sacrifica trabalhadores.

O Japão é a segunda economia mais forte do mundo, com produção anual de 5 trilhões de dólares. Cresceu com base em um modelo econômico diferente do dos demais países ricos. No mercado interno, o preço dos produtos é altíssimo, para subsidiar os bens exportados. O japonês é obrigado a guardar muito para poder aposentar-se com salário razoável. Há a disciplina férrea e obediência aos mais velhos nas empresas. E o governo interfere freqüentemente na economia. Ajuda bancos e empresas e regulamenta quase todas as atividades. O modelo funcionou por décadas, mas parece à beira de mudanças profundas. A máquina exportadora agora enfrenta a China. A disciplina acabou impedindo que idéias novas reformem uma empresa, e o excesso de regulamentação engessa a economia.

O mais desagradável, no momento, é a descoberta dos efeitos ruins da interferência governamental em bancos e companhias. O sistema é uma fonte de corrupção. Desde o início do ano, quatro altos funcionários do governo se suicidaram, depois de flagrados recebendo propinas. O ministro das Finanças pediu demissão em janeiro e o presidente do banco central saiu em março. Assessores dos dois envolveram-se em casos de corrupção. O império terá de mudar, essa é a percepção dos japoneses e a razão pela qual eles se acautelam, estocando dinheiro embaixo do colchão.




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