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| Foto: Rogerio Montenegro | Foto: Raul Junior |
| Cochrane, um dos ex-sócios do Banco Noroeste: mal-estar em família | Horta Osório, do Santander: metade do pagamento usado para cobrir o rombo |
O novo escândalo financeiro da praça está incrustado no Banco Noroeste, cujo controle foi transferido na última sexta-feira para o banco espanhol Santander. É dinheiro grosso, 240 milhões de dólares, que desapareceu no ralo de um paraíso fiscal do Caribe. Só pelo valor, o roubo no Noroeste já é o maior desfalque descoberto no país. Pessoas que começaram a investigar o caso, e têm muita experiência nessa prática, comentam que ele é mais do que misterioso. "É inacreditável. Milhões de dólares sumiram, ninguém viu, e não existe a menor pista de onde foram parar", comenta um dos investigadores. Os correntistas do Noroeste não precisam preocupar-se, pois seus depósitos e investimentos estão garantidos. Quem sofreu o tranco foram os ex-donos do Noroeste, as famílias Simonsen e Cochrane. Eles venderam o banco por cerca de 480 milhões de dólares, mas só receberão a metade. A outra foi usada por António Horta Osório, chefe do Santander no Brasil, para cobrir o buraco.
O que ocorreu com o Noroeste foi sério e ainda bem que os espanhóis apareceram em tempo. Se a fraude tivesse sido descoberta antes da chegada dos novos donos, poderia haver uma corrida para saques e possivelmente uma intervenção do Banco Central. Ou seja, mais um golpe na credibilidade do sistema financeiro, abalada com a quebra do Nacional e do Econômico. "Teríamos um problema complicado nas mãos", diz um funcionário do BC. Nem os executivos do Santander nem os ex-donos do Noroeste falam sobre o assunto. O rombo foi mantido em segredo para não atrapalhar a venda do banco, mas já começou uma caçada para descobrir o dinheiro sumido. Os caçadores são detetives da agência americana Kroll, famosa por rastrear golpes financeiros. Os dólares começaram a desaparecer em 1995, em uma agência do Noroeste nas Ilhas Cayman, arquipélago no Caribe famoso pelas contas numeradas que não revelam o nome do dono. Essa agência sistematicamente drenou dinheiro do Noroeste e o transferiu para vários países. A última remessa, de 5 milhões, ocorreu em dezembro de 1997. Até agora, a Kroll não recuperou um único centavo.
Já se sabe quem manipulava o dinheiro sumido. Seu nome é Nelson Sakagushi, diretor da área internacional do Noroeste, quase vinte anos de casa e pessoa de confiança dos então donos do banco. Na aparência, Sakagushi seria uma pessoa acima de qualquer suspeita. Homem de hábitos simples, casado, trabalhador, era um dos executivos mais discretos do Noroeste. Mora numa boa casa em São Paulo e possui um sítio no interior, nada que pudesse chamar a atenção de quem o conhece. Sakagushi era responsável pela agência de Cayman, onde o Noroeste e alguns clientes importantes do banco tinham contas. A partir do Caribe, Sakagushi espalhou o dinheiro pelo mundo. Fez aplicações financeiras, apostou nas bolsas e fez empréstimos a empresas que ninguém no banco conhece. A maior parte do dinheiro foi parar na Suíça, mas Sakagushi operou também em países como Estados Unidos, Inglaterra e Nigéria. Ele escondia essas operações usando extratos, relatórios e documentos falsos, de maneira que durante três anos ninguém percebeu nada de anormal nesse dinheiro que estava no exterior.
Sakagushi vem sendo interrogado pelos agentes da Kroll. Ele vai ao banco, tranca-se com os detetives numa sala e dá algumas pistas, que até agora não levaram a lugar algum. Aos ex-donos do banco, Sakagushi teria admitido que usou o dinheiro sem autorização, mas para aplicações em nome do Noroeste. O problema é que teria perdido tudo fazendo aplicações ruins e porque as empresas que receberam seus empréstimos não devolveram o dinheiro. Uma auditoria feita pela Price Waterhouse já confirmou que algumas das empresas às quais Sakagushi fez empréstimos não existem. "Se essas empresas não existem, onde é que o dinheiro foi parar? Como é que alguém some com 240 milhões de dólares?", diz o executivo de um dos bancos.
Depois que Santander e Noroeste fecharam o negócio, em agosto do ano passado, as contas do banco brasileiro foram auditadas pelo menos três vezes pelos auditores da Price, pelos analistas do Santander e pelos funcionários do próprio Noroeste. Todos consideraram os números impecáveis. Numa última checagem, no começo do ano, o pessoal do Santander levantou uma dúvida burocrática sobre a conta de Cayman, que não parecia muito exata. O Noroeste abriu essa conta e seus diretores perderam o eixo. Perceberam que ali se havia perdido muito dinheiro. Avisaram o Banco Central, a Comissão de Valores Mobiliários, CVM, e pediram para manter o caso em segredo, enquanto faziam suas averiguações. O tamanho do rombo apareceu na semana passada, num relatório feito pela Price.
Há pelo menos duas dúvidas inquietando pessoas que tomaram contato com o caso. Uma delas diz respeito ao montante do prejuízo, que pode ser maior. Já que houve um deslize gigante na conta de Cayman, o Santander resolveu passar outros itens da contabilidade do Noroeste por um pente fino. Para evitar novas surpresas, os ex-acionistas do Noroeste concordaram em fazer uma provisão temporária de cerca de 100 milhões de dólares, proveniente do dinheiro que vão receber do Santander, como garantia contra qualquer susto no futuro. A outra dúvida diz respeito à autoria do desfalque. Há uma forte desconfiança de que Sakagushi não agiu sozinho. A fraude foi tão grande e passou por tantas checagens que, suspeitam os detetives, pode haver algum outro funcionário do Noroeste envolvido, pessoa de muito prestígio dentro do banco. É um dos pontos importantes da investigação.
Nas famílias dos ex-donos, a descoberta caiu como uma bomba. Entre sócios, filhos e netos são mais de vinte pessoas que esperavam repartir, mais cedo ou mais tarde, quase 500 milhões de dólares. Leo Cochrane Jr., ex-presidente da federação brasileira dos bancos, a Febraban, estava afastado do banco e teve de voltar correndo para resolver o problema. Luis Vicente Mattos, cunhado de Leo e até a semana passada o principal executivo do Noroeste, ficou arrasado com o episódio. "Ele foi muito cobrado pela família, porque era ele quem tocava o banco", diz um banqueiro amigo de Mattos.
Do lado do Santander, a compra do Noroeste continua sendo considerado um excelente negócio. Nos últimos dois anos, o banco espanhol, que administra 171 bilhões de ativos em 32 países, comprou sete bancos na América Latina. No Brasil, os espanhóis já tinham comprado o controle do Banco Geral do Comércio, do grupo Camargo Corrêa. De todos, segundo seus executivos, o Noroeste era o que melhor funcionava. Com a aquisição do Noroeste, o Santander passa a ser um dos dez maiores bancos privados do país, com 8 bilhões de dólares em ativos e uma rede de 150 agências.
Até agora o Banco Central esteve acompanhando o caso a distância. Deixou que o Noroeste procurasse entender sozinho o que aconteceu com seu dinheiro, e que se acertasse sozinho com o Santander. Com a transferência do controle do Noroeste para a instituição espanhola, o BC vai começar sua própria investigação. Os ex-donos do Noroeste, por sua vez, continuam procurando a fortuna perdida, vão processar Nelson Sakagushi criminalmente e talvez os gerentes que trabalhavam com ele.
Os grandes golpesAlgumas das fraudes praticadas contra bancos brasileiros:
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Com reportagem de Felipe Patury
Copyright © 1998, Abril
S.A. |