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O mosquito venceu
Transmissor
da dengue, o Aedes aegypti assola o país
Desde o início do
ano, 82.000 brasileiros de norte a sul do país caíram
de cama prostrados por uma epidemia cujos sintomas
incluem fortes dores de cabeça, febre alta e
intermináveis crises de vômito. A doença não poupou
ricos nem famosos: a cantora Fernanda Abreu passou a
semana sem conseguir levantar-se da cama. O prefeito do
Recife, Roberto Magalhães, teve de despachar sob as
cobertas. O responsável por tamanho estrago mede menos
que 7 milímetros de comprimento, tem pernas finas,
expectativa de vida de apenas 75 dias e atende pelo nome
de Aedes aegypti, o mosquito transmissor da
dengue. A desproporção entre suas dimensões e o
desastre que ele vem causando não é de todo ilógica: o
inseto, apesar da aparência insignificante, é um titã
da evolução das espécies, mestre na estratégia da
sobrevivência e da propagação.
Adaptado à vida
moderna, ele deposita seus ovos em qualquer cantinho que
veja pela frente: pratos usados, vasos ou no interior de
pneus velhos. Os ovos podem durar até um ano. E basta
uma garoa para que eclodam imediatamente. Os inseticidas
são incapazes de matá-los. Funcionam, no máximo contra
o mosquito. Supostamente originário da África, onde sua
proliferação não está controlada, o Aedes
nunca teve dificuldades em se deslocar pelo mundo. O fato
de hoje estar presente em pelo menos 100 países, segundo
Hermann Schatzmayr, chefe do departamento de virologia do
Instituto Oswaldo Cruz, tem estreita relação com o
incremento do tráfego aéreo. Inimigo insidioso, o Aedes
adora pegar carona em aviões. "Embora tenha
autonomia de vôo de apenas 100 metros do local onde
nasce, se encontra transporte vai para qualquer
lugar", diz o cientista.
Plano de
erradicação Para desenvolver seus
ovos, as fêmeas do Aedes aegypti precisam de uma
proteína existente no sangue humano. É, portanto, o
instinto de preservação da espécie que as leva ao
ataque. Basta uma picada de mosquito contaminado e o
vírus causador da doença se propaga. Por ano, o inseto
contamina cerca de 100 milhões de pessoas e mata
24.000 em todo o mundo. No Brasil, a Região Sudeste é a
mais atingida. Responde por 75% dos casos de dengue
registrados neste ano. No Espírito Santo, mais de 25.000
pessoas contraíram a doença. Em Belo Horizonte, foram
confirmados 20.000 casos nos últimos cinco meses. No
Rio, 4.978 novos doentes surgiram desde janeiro, em São
Paulo, 1.067. Até agora, uma pessoa morreu no país.
Schatzmayr, da
Fiocruz, diz que a dengue é um problema mundial e não
apenas brasileiro. A Venezuela teve recentemente uma
epidemia da variação hemorrágica, a mais grave. A
Costa Rica também enfrenta aumento no número de casos,
e já há registros da doença até no sul dos Estados
Unidos. No Brasil, o governo federal se debate na luta
contra o Aedes por meio de campanhas de
informação e dos 20.000 agentes federais da Fundação
Nacional de Saúde que percorrem o país à cata do
mosquito e seus esconderijos. Neste ano, o gasto previsto
com o combate à doença é de 227 milhões de reais.
Até agora, no entanto, seu transmissor continua livre,
impune e levando a melhor. Na batalha entre o Homo
sapiens e o Aedes aegypti, dez a zero para o
mosquito.
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| Foto: Oscar Cabral |
| O
mosquito da dengue: carona em avião para
propagar a doença |

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