Sorte grande

Achado na Itália fóssil de dinossauro com
fígado, estômago e outros órgãos preservados

Paleontólogos de todo o mundo estão maravilhados com uma descoberta que pode esclarecer alguns mistérios sobre a vida dos dinossauros. Em um artigo publicado na revista científica Nature, os especialistas italianos Cristiano dal Sasso, do Museu Cívico da História Natural, em Milão, e Marco Signore, da Universidade de Nápoles, revelaram na semana passada os detalhes do mais bem conservado exemplar fóssil encontrado até hoje. Localizada na província de Benevento, no sul da Itália, a valiosa peça contém os restos de um filhote que pertence à família dos terópodes, a mesma linhagem dos temíveis tiranossauros rex. O animal possuía apenas 60 centímetros de comprimento e, na fase adulta, poderia chegar ao triplo do tamanho. Como era uma espécie desconhecida, foi batizado de Scipionyx samniticus, em homenagem à cidade (Samnium é o antigo nome romano da região) e a um dos maiores generais da História romana (Ciprião Africano). Com exceção de fragmentos das patas e boa parte da cauda, todos seus ossos encontravam-se intactos, apesar da idade inacreditável: 113 milhões de anos. Mais raro ainda, foram preservados o intestino, as fibras musculares e partes de vários outros órgãos. O conjunto oferece oportunidade única para estudar detalhes jamais observados da anatomia desses animais.

Antes da descoberta, os fósseis mais bem preservados pertenciam a sítios arqueológicos localizados na China e no Brasil. Mesmo assim, as peças continham somente alguns fragmentos de tecidos. No terópode italiano há um intestino completo. Comparado ao dos animais de hoje, ele é muito menor, sugerindo que os dinossauros possuíam processo de digestão mais eficiente. Outra parte importante encontrada foi o fígado. O órgão não estava intacto, mas os cientistas puderam notar até a coloração do pedaço — púrpura-escuro —, tamanho o grau de conservação. Agora os especialistas tentam descobrir qual é a posição exata do fígado no corpo do animal. Esse detalhe pode ser fundamental para esclarecer a principal divergência dos paleontólogos sobre a cadeia natural de evolução. Uma ala de cientistas acredita que os dinossauros são antepassados das aves. Outro grupo nega essa teoria. A partir da localização do fígado no corpo do babyssauro italiano, os cientistas podem presumir onde estaria o pulmão do animal. Sabendo-se a posição exata do pulmão, é possível identificar as características do aparelho respiratório. Se ele for muito simples, e não complexo como o das aves, ficaria claro que os dinossauros foram antepassados apenas dos crocodilos e outros répteis.

Geladeira natural Um verdadeiro milagre da natureza permitiu a preservação dos órgãos do dinossauro italiano. O fóssil foi encontrado num lago raso. Os cientistas constataram que no local circula pouco oxigênio. Isso dificulta a sobrevivência das bactérias responsáveis pela decomposição de matéria orgânica. Livre do ataque biológico, o terópode ficou preservado durante milhões de anos, numa espécie de geladeira natural. O estado de conservação é tão bom que os cientistas puderam produzir uma réplica do animal com alto grau de fidelidade. Quase nunca isso é possível. Apesar do acelerado ritmo em que se encontram fósseis em várias partes do mundo, poucos deles possibilitam a reconstituição perfeita do esqueleto dos dinossauros. Para ter uma idéia de sua anatomia, os especialistas completam as lacunas do quebra-cabeça jurássico projetando os ossos e órgãos que estão faltando, muitas vezes com base nas estruturas anatômicas dos animais de hoje. Obviamente, o resultado não é perfeito.

Sabe-se atualmente com riqueza de detalhes como foi o processo de extinção dos dinossauros, mas muito pouco sobre a estrutura dos animais da época. Permanece um mistério, por exemplo, o mecanismo cardíaco que permitia ao organismo de gigantes como o sismossauro bombear sangue para um corpanzil de 42 metros de comprimento. Como nunca se achou um coração fossilizado desse animal, os cientistas podem apenas formular hipóteses. Uma delas afirma que o bicho teria um sistema de oito corações para manter a irrigação de sangue pelo corpo.

Até cenas dos filmes de Steven Spielberg provocam controvérsia. Alguns cientistas dão gargalhadas quando vêem nas telas um tiranossauro caçar e devorar presas vivas. "Parte dos especialistas defende que esse animal era muito lento para caçar e, por isso, dispunha de narinas avantajadas para farejar animais mortos, seu alimento principal", afirma Reinaldo Bertini, paleontólogo da Universidade Estadual Paulista. Por ironia, foi graças a Spielberg que os segredos do raríssimo terópode italiano vieram à tona. O fóssil havia sido recolhido do local, nos anos 80, por um curioso, que guardou a peça em casa pensando tratar-se de um simples esqueleto de pássaro. Ao assistir a Jurassic Park, ele resolveu doar o material aos cientistas responsáveis pelos estudos que estão ajudando a entender melhor o mundo dos dinossauros.




Copyright © 1998, Abril S.A.

Abril On-Line