SATISFAÇÃO GARANTIDA

Com até 80% de eficácia está chegando
ao país a pílula contra a impotência

Karina Pastore e Valéria França

E uma grande notícia para milhões de homens. E para muitas mulheres também. Pela primeira vez, um dos mais angustiantes, constrangedores e aterrorizantes problemas masculinos, a impotência, poderá ser tratado de forma tão simples quanto curar a dor de cabeça com uma aspirina. Com a aprovação, na sexta-feira passada, do medicamento Viagra, o único quesito para uma deliciosa noite de sexo passa a ser o desejo pela mulher amada. Tão bom quanto nos tempos de Adão. A maçã, agora, é uma drageazinha azul, com a forma de um losango, a ser ingerida junto com um gole d'água uma hora antes do ato sexual. O Ministério da Saúde brasileiro esperava apenas o o.k. do FDA, a agência americana para controle de remédios e alimentos, para também autorizar a comercialização da droga. Depois da aprovação do remédio nos Estados Unidos, a pílula começará a ser produzida lá imediatamente. Em seguida, o Brasil será o próximo país a vender a droga contra a impotência. "O Viagra estará disponível nas farmácias brasileiras ainda no segundo semestre deste ano", prevê César Preti, presidente da filial do laboratório Pfeizer, em São Paulo. A Pfeizer foi a empresa responsável pelo desenvolvimento do novo comprimido.

"O sexo passou a me
causar medo. Fugia da
minha mulher. Após oito
anos, coloquei uma prótese.
Não vejo problema nisso.
Ruim é a impotência, não
a prótese. Dá até para usar bermudas."
Célso Lopes Nogueira, 68 anos, médico
Foto: Marcos Campos  

Na semana anterior à aprovação da pílula, já disseminados os rumores de que o FDA daria seu aval à comercialização, as ações da Pfeizer subiram mais de 5% na Bolsa de Valores de Nova York. Os analistas estimam que a droga venha a gerar receitas superiores a 2 bilhões de dólares por ano. As expectativas em torno do remédio são enormes, e não é para menos. Testado em 4.000 homens, mostrou-se eficiente em até 80% dos casos de impotência causada por pequenas disfunções físicas associadas ou não a causas psicológicas. A resposta mais baixa foi com vítimas de impotência causada por problemas neurológicos, como paraplégicos. Nesses casos, funcionou em cinco de cada dez pacientes. "Parece pouco, mas é a melhor resposta que já obtivemos nesse tipo de usuário", afirma o médico carioca Ronaldo Damião, presidente da Sociedade Brasileira de Urologia e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Bomba-d'água — As ereções poderosas com uma aparência natural providenciadas pelo Viagra nada têm a ver com a permitida pelos dispositivos, remédios e cirurgias empregadas até agora, que cobram um tributo muito alto do usuário. A prostaglandina injetável, por exemplo, tem de ser aplicada na base do pênis, dez minutos antes da relação sexual. É um método desconfortável que garante três horas de ereção, mas exige o rito sacrifical de picar o próprio órgão antes do namoro. Outro procedimento é a bomba a vácuo. Distribuído por algumas redes municipais de saúde, a bomba é uma geringonça que tira o romantismo de qualquer encontro amoroso. Com mais de 15 centímetros de comprimento, o aparelho é acoplado ao pênis e, pela força de algumas bombadas, aumenta a circulação sanguínea da região, promovendo a ereção. Tão natural quanto uma bomba hidráulica enchendo a caixa-d'água. Apesar da eficácia, é difícil imaginar algo mais constrangedor que uma situação como essa (leia sobre outros métodos).

Estima-se que um em cada dez brasileiros tenha algum grau de disfunção erétil. Um número que, segundo os especialistas, pode estar muito abaixo da realidade. Pesquisadores da Universidade de Boston avaliaram 440 homens moradores das redondezas da faculdade e verificaram que 10% deles sofriam de impotência total e 25% de distúrbios moderados de ereção. O pior: de todos os que apresentavam problemas, apenas um em cada dez se submetia a algum tratamento. "A falta de terapias brandas é um dos motivos que afastam os homens dos consultórios médicos", diz o médico Ronaldo Damião. Nessa linha de raciocínio, o Viagra pode contribuir até para aumentar o número de diagnósticos e a possibilidade de que cada vez mais homens possam submeter-se a terapias sérias. Esse problema — a seriedade das terapias — é grande nesse terreno. Tratamentos enganosos são o que não falta por aí, indo de chás a cremes supostamente milagrosos, além de simpatias curativas. "Essa é uma área em que os homens não economizam. Gastam o que têm", diz o médico Eduardo Bertero, de São Paulo.

A droga aprovada
pelo FDA: lançamento
fez subir até a Bolsa de
Valores de Nova York

Gastam mesmo. Desde o surgimento dos primeiros medicamentos contra a disfunção erétil, a indústria farmacêutica comemora a escalada dos lucros. Em 1995, as drogas contra a impotência geraram em todo o mundo faturamentos da ordem de 6,4 milhões de dólares. Dois anos depois, a cifra era de 117 milhões. No ano passado, o FDA aprovou a comercialização do Muse, uma espécie de supositório em forma de gel que, quando introduzido na uretra, leva à ereção. Em menos de um ano o supositório do laboratório Vivus foi receitado para 665000 pacientes apenas nos Estados Unidos. Aprovado em fevereiro passado pelo Ministério da Saúde, com a chegada às farmácias prevista para o segundo semestre, as estimativas são de que no Brasil o Muse gere uma receita de 10 milhões de dólares por ano. E isso com uma droga que promete eficiência em cerca de 50% dos casos. O que dizer do Viagra — uma pílula que anuncia resultados satisfatórios para oito de cada dez pacientes? Os homens, as mulheres e os empresários da indústria farmacêutica riem à toa.

Em busca da potência perdida, o professor universitário de São Paulo I.R. investiu mais de 40.000 dólares. Aos 41 anos, em 1982, ele estava divorciado, com os três filhos criados e uma ótima conta bancária. Resolveu aproveitar a vida: "Chegou a hora do prazer!" Chegou e passou. Alguns anos depois, ele começou a ter problemas no relacionamento sexual com as namoradas. Conseguir uma ereção completa transformou-se num tormento. Com o tempo, o problema foi se agravando. "Eu vivia uma angústia constante", lembra. "Saía com uma mulher para jantar, mas nunca sabia como terminaria a noite." Os namoros tornaram-se menos duradouros. O professor procurou mais de vinte médicos. Nenhum encontrou a causa da impotência. Fez todos os exames possíveis. Parou de fumar. Diminuiu a carga de trabalho. Mudou a dieta alimentar. Em vão. Desesperado, visitou centros de macumba e chegou a tomar injeções de ouro na veia. I.R. deixou de lado as mulheres. Depois, começou a tomar injeções de prostaglandina e conseguiu recuperar em boa parte suas funções sexuais.

A procura desesperada dos pacientes por tratamentos alternativos tem, em grande parte, origem na dificuldade da medicina para entender e explicar a impotência. "A disfunção erétil é um assunto muito novo para os médicos", afirma o andrologista Lister de Lima, de São Paulo. "A fisiologia do pênis e o processo de ereção só foram completamente esclarecidos na década passada." Nos anos 60, defendia-se a tese de que a impotência era um problema puramente psicológico. Não é. Hoje, os médicos creditam à pura instabilidade emocional no máximo 20% dos casos — stress, culpa, depressão, baixa auto-estima ou angústia de falhar na próxima relação sexual. Mas esse índice cresce até a marca de 80% dos casos de impotência quando um pequeno e ocasional problema fisiológico dispara uma cadeia de medos e angústias de falhar na próxima vez. "A ansiedade causada por uma situação de impotência, mesmo que ocasional, pode-se transformar num problema repetitivo de fundo psicológico", diz a psiquiatra Carmita Abdo, coordenadora do Projeto Sexualidade, do Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo.

Calças abaixadas — A revolução no tratamento da impotência data de 1982. Na sala de operação, o cirurgião Ronald Virag injetou na artéria pélvica do paciente anestesiado um relaxante muscular de nome papaverina. Qual não foi a surpresa do médico ao notar que o homem ali estendido sobre a mesa de operação, completamente inconsciente, manteve uma ereção por três longas horas. No ano seguinte, durante uma conferência médica em Las Vegas, nos Estados Unidos, o doutor Virag, sem nenhum constrangimento, abaixou as calças e expôs a uma platéia atônita o pênis ereto. Alguns minutos antes, ele havia injetado a droga no próprio órgão genital. Foi um choque. E também uma mudança no tratamento da impotência. O problema da papaverina é seu terrível efeito colateral. Com muita facilidade, ela leva o paciente a sofrer de priapismo — estado em que a ereção dura mais de seis horas e pode causar sérios danos ao tecido nervoso dos corpos cavernosos do pênis, a parte do órgão masculino que se enche de sangue, provocando o enrijecimento do membro. Isso, paradoxalmente, pode levar a uma impotência cuja única cura é o implante de prótese. Depois da papaverina veio o vasodilatador prostaglandina, a matéria-prima de todas as drogas contra a disfunção erétil, com exceção do Viagra.

O princípio do Viagra foi descoberto por acaso, há cinco anos, quando os cientistas da Pfeizer testavam a substância sildenafil para combater a hipertensão. Não funcionou. Em 1993, às vésperas de o estudo ser arquivado, alguns pacientes relataram um estranho efeito colateral. Com a droga, passaram a ter ereções maiores e com mais freqüência. Que efeito colateral, que nada. Com um investimento de 400 milhões de dólares, o sildenafil transformou-se no Viagra, que agora chegará ao mercado. "O homem está prestes a passar por uma revolução sexual tão importante como foi a da pílula anticoncepcional na mudança da história da mulher", completa o doutor Bertero. Há motivos para a euforia. Aos resultados vistosos quanto à eficiência, o Viagra agrega uma lista muito pequena de efeitos colaterais. Apenas 3% dos pacientes testados com a droga apresentaram pequenos distúrbios visuais, dor de cabeça e indigestão. É uma droga sutil. Para funcionar, depende do desejo. Ao contrário das bombas a vácuo, das injeções de prostaglandina, dos implantes de prótese, que levantam como um guindaste o órgão decaído, seja na presença da mulher amada, seja diante de uma simples cadeira, o Viagra estabelece um pré-requisito: que haja o desejo sexual, sem o que nada feito. É, por isso, uma pílula que depende do mistério que faz um homem desejar uma determinada mulher. Sublime, pode-se dizer, porque exige que amar seja um verbo transitivo. Precisa de alguém que o complete.

O andrologista Lister:
"A impotência ainda
é um tema novo
para a medicina"
  Foto: Claudio Rossi

Fogueira acesa — É assim porque o Viagra age diretamente na cascata bioquímica envolvida no processo da ereção. Tudo começa no sistema nervoso, matriz de todo o desejo. No afã por sexo, o cérebro masculino libera uma série de substâncias químicas que invadem a corrente sanguínea e chegam ao pênis. Lá, deflagram a produção de óxido nítrico, que, por sua vez, aumenta a produção de uma enzima chamada GMP. Os músculos dos corpos cavernosos (dois cilindros flexíveis de 1 centímetro de diâmetro, os principais canais da ereção) se relaxam e são invadidos por sangue. É a tumescência. Satisfeito o prazer, depois do orgasmo, vem a estafa. Entra, então, no processo, uma outra enzima, a fosfodiesterase, destruidora da GMP. A musculatura dos corpos cavernosos volta a se contrair. É o fim da ereção. Um comprimido de Viagra, e o medicamento inibe a produção de fosfodiesterase, aumentando a concentração de GMP. "A droga amplifica a resposta fisiológica normal", diz o diretor médico da Pfeizer, Valdair Pinto. "As drogas antigas colocam lenha na fogueira e o novo comprimido impede que a fogueira se apague", compara o urologista Celso Gromatzky, do grupo de andrologia do Hospital das Clínicas, de São Paulo.

O Viagra resolve a maioria dos casos, mas não representa uma panacéia para todos os tipos de impotência. Se, por exemplo, as duas artérias que levam o sangue para os corpos cavernosos estiverem completamente entupidas, o Viagra não tem efeito algum. Só o implante de uma prótese peniana resolve um caso assim. Se houver lesões graves na musculatura dos corpos cavernosos, como a falta de elasticidade, o remédio também não funciona. "Para dois de cada dez homens com mais de 50 anos, o Viagra não deve funcionar", calcula o doutor Gromatzky.


A humanidade sempre correu atrás da fonte da juventude. Para os homens, isso significa manter a vitalidade sexual típica dos 18 anos ao longo de toda a vida. Não dá! Nenhum idoso está fadado necessariamente à impotência. Mas, com o passar dos anos, com a chegada de doenças típicas da velhice, com o somatório de hábitos pouco saudáveis, o cigarro, o álcool, as comidas gordurosas, as alterações hormonais, a potência sexual diminui mesmo. Mais de um terço dos homens com mais de 45 anos experimentam algum sintoma de impotência. E mais de dois terços entre os homens acima dos 75 anos.

Atire a primeira pedra o homem que nunca tenha sofrido de impotência. Ocasional, passageira, que seja. Cansado, o marido chega em casa do trabalho e não consegue manter relações sexuais com a mulher. O garoto se intimida na "primeira vez". É normal. "O problema surge quando a disfunção erétil não está ligada a nenhum fato específico e persiste por semanas a fio", diz a psiquiatra Carmita Abdo. O homem tem desejo mas não consegue satisfazê-lo. Angústia. Terror. Vergonha. A auto-estima vai para o ralo. Nos consultórios dos melhores especialistas, as consultas são marcadas com vinte minutos de intervalo. Evita-se, assim, o constrangimento na sala de espera. O médico paranaense Cléso Lopes Nogueira, de 68 anos, sabe do que se fala. Seu problema variava da impotência total à parcial. Foram oito anos sem uma relação sexual satisfatória. "Quando fiquei impotente, pensei que seria melhor morrer", conta. Envergonhado, ele não contou nada nem à mulher. Passou a evitá-la. Freqüentemente, mesmo sem sono, ia dormir mais cedo do que ela só para evitar possíveis encontros. Foi um horror. A mulher sentia-o distante e arredio. Imaginou que ele tivesse uma amante. O casamento quase se desfez. Salvou-o uma prótese peniana. "Como num passe de mágica, tudo ficou para trás: o medo, a dor e a vergonha", diz. Outro médico, o pernambucano A.C., de 65 anos, não tem a mesma coragem de Nogueira para falar abertamente sobre a própria impotência. "É depreciativo", justifica.

Simples comouma
aspirina: a nova pílula
promete dar adeus aos
velhos métodos

Desde que Charles Darwin escreveu seu trabalho A Origem das Espécies, em 1859, vem se tentando explicar a sexualidade humana com base em determinantes biológicas. Os encontros sexuais entre homens e mulheres aconteceriam por uma imposição natural. Os homens espalham sua semente, as mulheres acolhem-na, de modo a garantir a sobrevivência do Homo sapiens. É apenas parte da verdade. O que Darwin não explicou, porque não era isso que buscava, foi o motivo pelo qual um determinado homem, num momento específico de sua vida, procura mais uma determinada mulher do que qualquer outra. Por que ele telefona insistentemente para ela, por que, quando está com ela, sente calores, suas faces ficam ruborizadas, a mão sua, o coração se acelera e o olhar se esgazeia e torna-se lúbrico. E por quais razões ela, quando há a feliz conjunção, experimenta a mesma reação.

A explicação darwinista é insuficiente para dar conta dessa fome de um pelo outro, uma curiosa fome, que é altamente discriminatória. O homem sente atração pela mulher em geral, mas há algumas mulheres que o sensibilizam muito mais do que outras. A mesma coisa ocorre com a mulher. É um velho e delicioso mistério que não pode ser entendido apenas pelo ângulo simplificador da biologia. Seria o mesmo que tentar explicar o apetite pela necessidade de preencher o organismo com nutrientes. É, de novo, apenas parte da verdade, como se percebe quando o prato preferido — com aquele aroma, aquela consistência, aquelas cores, aquele sabor — se aproxima. A fome saciada se redescobre em ansiedade pelo prazer que aquele pitéu oferecerá.

Não é de amores eternos que se está falando, como sabe todo casal que já tenha passado longos anos junto. É de paixão e obscuridade de desígnios. Começo, meio e fim, portanto. A mesma mulher que despertou os mais profundos desejos, tempos depois, continua linda, mas o anseio minguou. Enquanto isso, a jovem antes preterida adquire um viço nunca imaginado. Dependente do desejo, o Viagra não é um macaco hidráulico, não salva relacionamentos que se desfizeram pela falta de apetite. No máximo, ele confere um brilho extra ao amor, e pode, por isso, torná-lo ainda mais eterno. Enquanto durar.

 

 





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