O coração frágil

Por que a mulher está morrendo mais
do coração e a incidência por cidades

Foto: Paulo Jares
Nina, a enfartada:
"Nunca pensei"

Não há no mundo coração tão frágil quanto o das cariocas. Em lugar algum as representantes do sexo feminino morrem por doenças cardiovasculares na mesma proporção em que isso acontece no Rio de Janeiro. O infortúnio das cariocas está descrito num estudo do médico Paulo Andrade Lotufo, professor da Universidade de São Paulo. No final do mês, o trabalho será apresentado no XIII Congresso Mundial de Cardiologia. Na Cidade Maravilhosa, de cada 100.000 habitantes, 143,2 mulheres entre 45 e 64 anos morrem em decorrência de problemas cardíacos. A quantidade de óbitos surpreende. É quase o dobro da média americana, 2,5 vezes superior à polonesa, dez vezes maior do que a japonesa. A performance macabra do Rio de Janeiro se explica: é a cidade com o maior número de hipertensos do país, ou 20% da população, contra a média nacional de 12%. Florianópolis, por exemplo, registra menos da metade dos óbitos anotados entre as cariocas. Há mais de dez anos, a capital catarinense mantém sistematicamente programas de prevenção às doenças cardiovasculares.

É por falta de monitoramento que o Brasil sofre tanto do coração. Poucos desconhecem que sal em excesso ou um torresmo gordurento fazem mal. Mas raros são os que controlam a hipertensão ou o colesterol. Isso é verdade sobretudo entre as mulheres. Até a década de 60, doença cardiovascular era coisa de homem (veja quadro). "Com a emancipação feminina, o ingresso delas no mercado de trabalho, a exposição ao stress, o tabagismo e as dietas à base de fast food, houve a feminização do infarto", diz o médico Mário Maranhão, professor da Universidade Federal do Paraná. Apesar disso, ainda persiste a idéia de que as mulheres são infensas aos males coronarianos.

Um levantamento do doutor João Fernando Monteiro Ferreira, do Instituto do Coração e chefe do pronto-socorro de cardiologia do Hospital São Luiz, em São Paulo, é a prova disso. Por não se acreditarem vítimas potenciais de infartos, 70% das mulheres que chegam ao pronto-socorro acusando sintomas de ataque cardíaco estão em fase avançada das lesões. Nos homens, apenas 30% chegam nesse estado.

Em janeiro de 1997, aos 49 anos, a carioca Nina Maria de Aboim sofreu um infarto. Uma dor insuportável no cotovelo esquerdo se alastrou pelo braço e ganhou as costas. Dias antes, quando os sintomas apareceram, brandos e discretos, ela não deu atenção. "Nunca pensei que isso pudesse acontecer com uma mulher", lembra. Separada, mãe de três adolescentes, fiscal da prefeitura, fumante de dois maços de cigarro por dia, sedentária, nada afeita ao controle alimentar, Nina abandonou o tabaco depois do infarto, passou a caminhar quarenta minutos todos os dias na praia e começou a se alimentar com mais critério. Precisa mesmo. Um estudo já demonstrou que as mulheres têm mais predisposição para sofrer um segundo ataque cardíaco do que os homens (veja quadro).

Com o tempo, alguns mitos sobre o coração feminino desmoronam. "Acreditava-se, por exemplo, que as mulheres estariam protegidas contra as doenças cardíacas até a menopausa", diz o doutor Maranhão. Não é verdade. A partir dos 35 anos, a proteção hormonal começa a decair, expondo as jovens senhoras a taxas de risco semelhantes às dos homens. Há mais. "Alguns fatores predisponentes têm impacto muito maior sobre as mulheres", afirma Ferreira. Se o homem fuma, os riscos de ataques triplicam. Se for ela a fumante, aumentam em até seis vezes. O coração feminino necessita atenção. Em 1995, o infarto matou 21.850 brasileiras — o dobro da soma dos óbitos por câncer de mama e de útero.

Karina Pastore




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