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índio Sôkriti, em 1996, com seu retrato, de 1973 |
| Foto: Pedro Martinelli |
Depois de sobreviver à diarréia, à prostituição e ao alcoolismo legado da convivência com os brancos , os índios panarás conseguiram finalmente duas vitórias. A primeira é a demarcação de sua reserva pelo governo, às margens do Rio Iriri, entre Mato Grosso e Pará. A outra é uma indenização de 4.000 salários mínimos, mais correção monetária, a ser paga pela União pelas mortes, doenças e violências sofridas pelos índios desde 1973, ano de seu primeiro contato com os brancos, durante uma expedição do sertanista Cláudio Villas-Boas. Nessa época, quando ficaram conhecidos como kranhacãrore, ou os "índios gigantes", por ter até 2 metros de altura, eles eram uma tribo de 600 pessoas. Hoje são 170 almas, das quais setenta são crianças. Sua saga originou o livro Panará A Volta dos Índios Gigantes, uma parceria de duas Ongs, o Instituto Socioambiental e a Fundação Rainforest (168 páginas, 35 reais).
Recheado de fotos dos índios tiradas nos últimos 25 anos, o livro é um documento essencial para avaliar as perdas e os ganhos dos panarás. Entre imagens desoladoras, como a floresta dizimada por garimpos, madeireiras e pastos para o gado, desponta uma fotografia emblemática do grau de aculturação por que passou esse povo ao longo de mais de duas décadas. É uma imagem do índio Sôkriti, em 1996, de bigode e vestido com uma camiseta. Nessa mesma foto, Sôkriti segura o seu primeiro retrato, feito em 1973, em que aparece nu e com arco e flecha na mão. Nessa foto de 1973, Sôkriti ainda era um selvagem. Via brancos pela primeira vez na vida naquele exato momento. Ambas as imagens foram colhidas pelo fotógrafo Pedro Martinelli, integrante da histórica expedição de Villas-Boas, que localizou os índios às margens do Rio Peixoto de Azevedo, na Bacia do Xingu.
O vilão dos panarás foi o governo Médici, que decidiu rasgar a região onde eles viviam para abrir a Estrada CuiabáSantarém. Diante da chegada iminente dos tratores, Villas-Boas e a Funai resolveram visitá-los. Em fevereiro daquele ano, depois de uma longa espera de seis meses, os índios surgiram no acampamento dos brancos. Trocando brindes como panelas e pentes pelo sorriso algo desconfiado dos panarás, Villas-Boas conseguiu estabelecer um convívio amistoso. Bastaram dois anos, porém, para a tribo encontrar-se à beira da extinção. Vitimados pela diarréia e a gripe trazidas pelos brancos, os índios foram reduzidos a 79 pessoas. De acordo com relato do índio Akè, os panarás começaram a morrer repentinamente: "Estávamos tão doentes que não enterrávamos os mortos, que apodreciam no chão. Os urubus comeram tudo". A solução encontrada por Villas-Boas foi transferi-los de avião para perto do Rio Xingu.
Depois de muito perambular, os panarás ocuparam o território que constitui sua atual reserva, de 4950 quilômetros quadrados de mata virgem, às margens do Iriri. Mesmo com essa vitória, carregarão para sempre a ferida da aculturação. Trocaram suas bordunas e o arco e flecha por anzóis e facões. Vestem-se com calções, camisetas e, loucos por açúcar mas sem cultivar hábitos de higiene bucal, viraram um povo desdentado. Adoram jogar futebol e, à noite, escutam radinhos de pilha, enquanto dançam forró. De herdeiros de uma tribo livre e orgulhosa, passaram a ser brasileiros pobres, simplesmente.
Copyright © 1998, Abril
S.A. |