| |
A crise da lingerie
Brasileiras
compram menos calcinhas
e dizem por que implicaram com o produto
Num país em que a influência africana
ajudou a fazer do tchan o fetiche nacional, nada mais
natural que a calcinha ocupe lugar de honra na
imaginação popular. A peça, que nunca teve vocação
para o pudor, como prova sua origem as primeiras
usuárias foram cortesãs européias do século XVI,
empenhadas em aumentar seus recursos de sedução ,
atravessou as últimas décadas coberta de glória.
Revelada pelo vento na pele de Marilyn Monroe (O
Pecado Mora ao Lado) e descoberta ausente em Sharon
Stone (Instinto Selvagem), a calcinha sempre deu o
que falar. Agora, o mais sensual apetrecho do
guarda-roupa feminino enfrenta a insatisfação da sua
principal aliada: a consumidora. Entre 1993 e 1997, a
indústria de lingerie no Brasil registrou queda de 14%
nas vendas do produto. Os 211 milhões de peças que eram
comercializadas anualmente passaram para 180 milhões,
segundo dados da DuPont do Brasil, fabricante do fio
Lycra. Pesquisa encomendada pela empresa à Research
International, envolvendo quase 1.000 mulheres das
classes A, B e C em todo o Brasil, detectou três motivos
para o fenômeno.
O primeiro é a
qualidade do produto. A opinião das consumidoras sobre
ele é das mais desfavoráveis. As mulheres criticam da
falta de conforto às cores das peças. Afirmam que o
elástico aperta, o tecido se esgarça, a cava sai do
lugar. Quando a compradora pertence à faixa dos 50 anos,
as queixas são ainda mais implacáveis: elas reclamam
que a indústria as condena a usar modelos antiquados e
cor de band-aid. "Os fabricantes se preocuparam em
diminuir os preços e esqueceram-se de levar em conta o
gosto da consumidora", admite Alain Brant, diretor
de marketing da DuPont.
"Olha,
gosta e leva" Preço, desta vez, não é
mesmo o problema. A explicação para o fato de as
brasileiras estarem comprando apenas sete peças por ano,
quando a média em 1993 era nove (leia quadro abaixo),
está na diminuição do que especialistas em marketing
chamam de "compra por impulso": aquela em que a
mulher olha, gosta e leva, ainda que não tenha saído de
casa com esse objetivo. Insatisfeita com o que vê nas
prateleiras, a brasileira passou a levar só o
estritamente necessário.
A estabilidade
econômica do país também ajudou a piorar a situação:
com o barateamento dos eletrodomésticos, a indústria de
lingerie perdeu competitividade no mercado. O conjunto
"calcinha e sutiã", por exemplo, um clássico
do Dia das Mães, agora tem de concorrer com cafeteiras
de preço semelhante e fornos de microondas que podem ser
saldados em suaves prestações. "Entre uma calcinha
e um eletrodoméstico, o filho prefere dar à mãe o
segundo. Impressiona mais", afirma Oswaldo de
Oliveira, diretor-geral da Valisère.
Os fabricantes
estão desesperados para recuperar a consumidora perdida.
Em abril, a Triumph estará lançando no Brasil a Sloggi,
calcinha feita de tecido micromodal, que não retém a
transpiração. Campeã de vendas do mundo, ela teve 40
milhões de unidades comercializadas na Europa só no ano
passado. Já a Duloren resolveu apostar no marketing
agressivo aliado ao investimento em modelos sensuais que
acompanham o passo da moda. Se a tendência das
passarelas é a transparência, ela vai atrás. Se a cor
da estação é o rosa-choque, dá-lhe calcinha e sutiã
nesse tom. "Estamos apostando na venda do conjunto
de lingerie. Quem compra a parte de cima, leva sempre a
de baixo junto", diz Roni Argalji, dono da Duloren.
Caso os esforços
da indústria para melhorar o produto não tenham
sucesso, restará à consumidora a possibilidade de
aderir à selvagem proposta de Sharon Stone na cena do
interrogatório policial. Vale lembrar que a própria
Marilyn Monroe, que glamourizou a calcinha na cena do
metrô, confessava que, na vida real, nunca fez questão
de usá-la.
Roberta
Paixão,
do Rio de Janeiro

|
|