China

Lixeira asiática

O país mais poluído do mundo começa a se
preocupar com o custo econômico da sujeira

País mais populoso do mundo, a China se presta a comparações em grande escala. Nem todas fazem inchar o peito de orgulho. O crescimento econômico médio de 9% nas últimas duas décadas transformou o país no mais poluído do planeta. O ar respirado nas grandes cidades chinesas, diz um estudo do Banco Mundial, é provavelmente o pior da Ásia. A indústria estatal nunca se preocupou com equipamento antipoluição, e o esgoto é despejado nos rios sem tratamento. Estima-se que 60% dos chineses recebam em casa água contaminada por esgotos ou produtos químicos. Até pouco tempo atrás, o governo sustentava que controle ambiental é luxo de país rico. A prioridade chinesa era tirar o povo da pobreza. Essa postura está mudando porque Pequim descobriu que a poluição também custa caro.

Como o país tem no carvão sua principal fonte de energia, a concentração de partículas em suspensão no ar é cinco vezes maior do que a recomendada pela Organização Mundial de Saúde. O Banco Mundial diz que a má qualidade do ar nas grandes cidades causa a morte prematura de 178.000 chineses por ano e 1,7 milhão de casos de bronquite crônica. O custo em despesas médicas e horas de trabalho perdidas: 32 bilhões de dólares, quase 5% do PIB. O incontrolável aumento da população disseminou a poluição urbana para grande parte da zona rural. A irrigação indiscriminada esgotou o solo e reduziu a produtividade de 10% a 25%. Só a chuva ácida, provocada pela poluição industrial, causa perda anual de 2,8 bilhões de dólares à agricultura. "A falta de proteção ambiental é uma das poucas coisas que podem impedir a China de continuar crescendo por muito tempo", preocupa-se Li Yining, da equipe econômica do novo primeiro-ministro, Zhu Rongqi, que tomou posse há duas semanas.

Poluição do consumo — A abertura da China ao capitalismo melhorou a qualidade de vida e enriqueceu uma parcela da população, que se aproxima dos padrões internacionais de consumo. Eletrodomésticos e automóveis já fazem parte da lista de compras de muitos chineses. O lado perverso da mudança é o aumento do lixo (abandonado na periferia ou jogado nos rios) e do consumo de energia elétrica. Num círculo vicioso, Pequim planeja represar rios e alagar ecossistemas delicados para construir uma centena de usinas elétricas nos próximos dez anos. O número de veículos registrados cresce entre 12% e 14% ao ano há duas décadas, aumentando a poluição do ar.

O presidente Jiang Zemin chegou a copiar de países ocidentais uma legislação ambiental, em 1996, que nunca foi implementada. A tentativa de intervir numa indústria poluidora, no ano passado, gerou tantos protestos que o governo preferiu mantê-la em funcionamento. Não há, por enquanto, nenhuma chance de o governo chinês resolver o problema a curto prazo, visto que seria preciso reformar toda a estrutura produtiva erguida ao longo de décadas. Proteção ambiental efetiva significaria fechar milhares de fábricas e aumentar o desemprego, um custo social que a China não vê razão para bancar. Governos comunistas nunca deram muita atenção às preocupações com poluição ambiental. Em parte, isso se deve à falta de opinião pública pressionando por qualidade de vida. Depois da reunificação, a Alemanha precisou desativar dezenas de fábricas herdadas da antiga Alemanha Oriental simplesmente porque ficaria caro demais convertê-las para seus padrões de controle da poluição.




Copyright © 1998, Abril S.A.

Abril On-Line