| |
País da heroína
Com
produção liberada e economia movida a
dinheiro sujo, Mianmar torna-se um narco-Estado

Esqueça a má fama
da Colômbia. O primeiro narco-Estado está surgindo do
outro lado do mundo. É Mianmar, no Sudeste Asiático,
que sozinho responde por metade do consumo mundial de
heroína e ópio. Logo que tomou o poder, em 1988, a
junta militar acertou com os narcotraficantes que o
dinheiro sujo seria aplicado na economia local. Em troca,
as autoridades garantiam repressão zero. O negócio
trouxe vantagens para ambos os lados aos traficantes
pela facilidade em lavar o dinheiro das drogas, ao
governo pelo aquecimento da economia , mas foi um
desastre para o restante do mundo. "A produção de
droga no país dobrou depois que a junta assumiu o
governo", atesta um relatório preparado pelo
Departamento de Estado dos Estados Unidos.
Mianmar, chamado de
Birmânia antes do golpe, é um país dividido por grupos
étnicos e complicado por persistentes movimentos
guerrilheiros. Saiu de 26 anos de governo comunista para
uma ditadura condenada internacionalmente por violação
dos direitos humanos. Prêmio Nobel da Paz, a líder da
oposição democrática, Aung San Suu Kyi, está em
prisão domiciliar desde que os militares tomaram o
poder. Depois do acordo feito com o governo,
guerrilheiros e traficantes suspenderam qualquer ação
bélica no Triângulo Dourado, a tradicional região
produtora de heroína na tríplice fronteira com China,
Laos e Tailândia. Como contrapartida, ganharam o
controle das chamadas "zonas de livre produção do
ópio".
Hotéis de luxo e
negócios mirabolantes, cuja única finalidade é
legalizar o dinheiro das drogas, pipocaram imediatamente.
Adquirida por um rico traficante, a companhia aérea
Yangon Airways registrou lucros estratosféricos, ainda
que seu aviões permanecessem às moscas. Acredita-se que
o narcotráfico controle hoje pelo menos 60% dos
negócios na capital, Yangon.
Grana
fácil No começo, a idéia dos generais de
Mianmar era fazer o dinheiro das drogas migrar para o
mercado legal, aquecendo a economia e incentivando o fim
do narcotráfico. Não deu certo. Os próprios militares
acabaram entorpecidos pela grana fácil. Um dos
principais conselheiros do general Khin Nyunt, o chefe da
junta militar, é o barão das drogas Lo Hsing-han, que
controla o maior conglomerado do país. Longe de ter-se
aposentado como traficante, aumentou em seis vezes a
produção de ópio na área em que atua. "Em
Mianmar, o governo lucra com o tráfico", diz a
secretária de Estado americana, Madeleine Albright.
"Os principais traficantes do país são os maiores
investidores e figuras emergentes da política."
A quase
legalização do comércio de drogas permitiu pôr certa
ordem no interior, onde milícias étnicas e
guerrilheiros controlam vastas áreas de floresta. O
lendário Khun Sa, o maior traficante de heroína e
líder de um exército de milhares de homens, hoje pode
ser visto de gravata e terno em Yangon. Ele é
proprietário de dois cassinos em sociedade com um grupo
tailandês e planeja construir um enorme parque de
diversões num bairro chique da capital. Com a ajuda do
filho Sam Heung, continua operando normalmente suas
refinarias de ópio na fronteira com a Tailândia.

|
|