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Rússia Virada de mesaNum acesso
inexplicável, Ieltsin demite todo Quase uma década depois de a União Soviética ter enrolado a bandeira, os bastidores do Kremlin podem ser tão misteriosos e inexplicáveis como nos tempos sombrios de Stalin. Num rompante que pegou a Rússia de surpresa, o presidente Boris Ieltsin demitiu todo o seu ministério na segunda-feira passada, inclusive o primeiro-ministro Viktor Chernomirdin, seu braço direito nos últimos cinco anos e, pensava-se, seu candidato para as eleições do ano 2000. Por que Ieltsin fez isso? O país está acostumado às reações destemperadas do presidente mas desta vez só se pode especular. Obrigado a se afastar com freqüência do governo por problemas de saúde, talvez queira simplesmente mostrar que é ele quem manda. Igualmente obscura é a nomeação para primeiro-ministro interino do jovem tecnocrata Serguei Kirienko, de 35 anos, com menos de um ano de experiência num cargo público. A explicação oficial para a demissão coletiva é a irritação presidencial com a lentidão das reformas econômicas e a falta de benefícios concretos para a população. Desde o fim do comunismo, sete anos atrás, o desemprego subiu a níveis alarmantes e a qualidade de vida da maioria da população despencou. O pior, contudo, parece já ter passado. A Rússia está melhor das pernas, sobretudo se comparada à crise financeira que aflige o restante do mundo. Os investimentos externos estão de volta, a produção industrial cresceu em 1997 e a previsão é que a economia engorde 3% neste ano, depois de perder peso durante quase uma década. O único problema russo realmente sem solução é a instabilidade do presidente. Boris Ieltsin nunca mais foi o mesmo homem desde a cirurgia de coração, há um ano e meio. É um governante ausente, delega poderes e quase nunca está em Moscou. A demissão coletiva seguiu-se a um período de repouso por motivo de saúde. Quando visitou a Suécia, em dezembro, pensou que estava na Noruega. Na semana passada cancelou um encontro com onze líderes de países da ex-União Soviética por causa de uma dor de garganta. Na quinta-feira, ao abrir uma reunião com o presidente Jacques Chirac, da França, e o chanceler Helmut Kohl, da Alemanha, enganou-se e anunciou o início de uma entrevista coletiva de imprensa. Nos corredores do Kremlin se fala em depressão e mudanças bruscas de humor. Terceiro mandato Como ele está em segundo mandato e a Constituição russa (que o próprio Ieltsin escreveu) proíbe um terceiro, Chernomirdin parecia ser o candidato que o presidente preparava para a própria sucessão. Quando Ieltsin foi eleito, contudo, a União Soviética ainda existia e a Rússia era um Estado sem autonomia. Ele está perguntando à Suprema Corte se, devido a essa circunstância, o terceiro mandato não poderia ser considerado o segundo. É pura malandragem jurídica, mas com argumento muito parecido o peruano Alberto Fujimori ganhou o direito de concorrer à terceira eleição. Os comentaristas russos falam em conspiração e no surgimento de uma espécie de oligarquia de novos milionários, manipulando nos bastidores a troca de governo. É muito mais provável que Ieltsin se tenha irritado com as ambições políticas do primeiro-ministro. Se for esse o caso, Ieltsin não precisa preocupar-se com relação a Serguei Kirienko. Ele é jovem, cheio de energia, reformista entusiástico mas peso levíssimo no quesito influência política.
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