CRIANÇAS QUE MATAM

Massacre em escola cometido por meninos de
11 e 13 anos deixa americanos em estado de choque

Eram só crianças. Tinham acabado de almoçar no refeitório da escola e já se acomodavam nas carteiras das salas de aula quando o alarme de incêndio soou na terça-feira passada. Retirados às pressas, meninos e meninas não viram nenhum sinal do fogo. Ao cruzar o portão de saída e alcançar a rua, estavam diante do inferno que irá habitar suas cabeças para o resto da vida: tiros que partiam de um bosque ao lado transformaram o muro do colégio num paredão de fuzilamento. Algumas crianças correram de volta ao prédio. Outras se jogaram no chão, em choque, repetindo uma tática de guerra vista e revista na televisão. Em poucos segundos, com o fim da descarga de balas, o saldo da brutalidade contava onze pessoas feridas. As meninas Natalie Brooks, Paige Herring e Stephanie Johnson, todas de 12 anos, e Brittheny Varner, de 11, estavam mortas. A professora Shannon Wright, 32 anos, que tentou protegê-las, também morreria horas depois, no leito de um hospital.

O terror que se abateu sobre Jonesboro, cidade de 51.200 habitantes, a 200 quilômetros de Little Rock, capital do Arkansas, é o tipo de tragédia que, visto de fora, acaba rotulado como "coisa de americano". Nos Estados Unidos, volta e meia a população defronta com malucos que invadem lojas de departamento ou lanchonetes e abrem fogo contra inocentes. Não raro, tem-se notícia de mais um serial killer ou de lunáticos como Theodore Kaczynski, o Unabomber, que mandava explosivos pelo correio. Na maioria das vezes, são presos e condenados — Kaczynski cumprirá prisão perpétua —, mas não chegam a instalar nenhum debate nacional. Nesses casos, todos tendem a acreditar que os envolvidos não passam de pessoas com um parafuso a menos. A tragédia da semana passada é diferente porque, na mata ao lado da escola, camufladas e fortemente armadas, também estavam duas crianças — Mitchell Johnson, de 13 anos, e Andrew Golden, de 11. Foram eles os autores dos 27 tiros que atingiram alunos e professoras da escola Westside Middle.

Jovens armados — Fazia dias que Johnson vinha ameaçando os colegas. Segundo eles, uma certa vez chegou a falar em "pessoas morrendo na escola". A professora Sara Thetford, que ficou ferida no ataque, contou que era ameaçada havia meses, mas nunca levou o garoto a sério. Mitchell Johnson não era propriamente a boa companhia que as mães sonham para seus filhos. Entre os colegas, era conhecido por ser um menino truculento. O pastor da igreja que freqüentava costumava chamá-lo de "candidato a bandido", mas quem atirava melhor era seu pequeno parceiro, Andrew Golden, que costumava sair com o pai para caçar. Foi de seu avô que a dupla roubou três das armas utilizadas no massacre, incluindo uma espingarda com mira telescópica, capaz de atingir o alvo a quase 200 metros de distância. Depois do banho de sangue, os dois foram apanhados pela polícia quando corriam em direção a um carro estacionado nas proximidades do bosque. No porta-malas, encontraram-se vários revólveres.

Embora a violência entre menores nos Estados Unidos esteja diminuindo — entre 1994 e 1996 caiu 30% —, tragédias como essa vêm assombrando as escolas americanas nos últimos anos (veja quadro). Elas deixam pais, psicólogos e políticos atormentados com uma questão de difícil resposta: o que há de errado com uma sociedade que produz assassinos tão jovens? Na quarta-feira passada, Clinton pediu à secretária de Justiça Janet Reno que encontrasse especialistas para responder à questão. Os médicos dizem que há aumento no stress da criança e do adolescente. O sentimento — perfeitamente normal para a idade — de que o mundo vai acabar toda vez que aparece um problema se somou à falta de contato mais freqüente entre pais e filhos. "Todo mundo gosta de culpar a violência da televisão quando acontecem casos como o de Arkansas", diz o presidente do Comitê Multidisciplinar de Adolescência da Associação Paulista de Medicina, Wimer Botura Junior. "O problema está na desestruturação da família." Certamente não é só por isso. Cerca de metade dos americanos guarda uma arma de fogo em casa. Em 1993, uma pesquisa revelou que 15% dos estudantes secundários tinham carregado um revólver no mês anterior. As estatísticas mostram que, desde 1992, houve 201 casos de disparo de armas de fogo em escolas americanas. O que acontece, na maioria das vezes, é uma versão armada das brigas de porta de escola.

Segundo a legislação do Estado de Arkansas, Mitchell Johnson e Andrew Golden devem ser julgados por leis específicas, que regulamentam os crimes cometidos por menores. Nesse caso, devem ficar presos em reformatórios até os 18 anos, ou, no máximo, até os 21. Na semana passada, alguns promotores de Justiça tentavam encontrar uma brecha na Constituição Federal que permitisse julgá-los como adultos, o que os levaria à execução ou, com alguma sorte, à prisão perpétua. Até 29 de abril, quando começam as audiências que vão decidir o destino dos dois meninos, o assunto promete render longos debates. Enquanto isso, na cadeia, eles voltam a se comportar como criança. Andrew, o mais jovem, chora e pede pela mãe. Mitchell, o mais velho, lê a Bíblia. Ambos perguntaram se podiam trocar o almoço servido pelos carcereiros por pizza. Não podiam. A escola voltou a funcionar na quinta-feira, mas faltavam 43 das 250 crianças. Também não houve aula. No lugar das lições, cinqüenta psiquiatras tentavam apagar das cabecinhas as imagens do horror.

Rotina violenta

Desde 1992, uma onda de violência em escolas dos Estados Unidos deixa um rastro de mortos e feridos, e a suspeita de que há algo de muito errado na formação dos jovens americanos. Veja abaixo a cronologia dos piores crimes:

1° de dezembro de 1997 — Um menino de 14 anos, descrito como "emocionalmente imaturo", atira em um grupo de estudantes que rezavam numa escola secundária do Estado de Kentucky. Três alunos são mortos e cinco feridos.

1° de outubro de 1997 — No Mississippi, Luke Woodham, de 16 anos, assassina a mãe, vai até a escola e atira em nove pessoas. Mata a ex-namorada e um estudante. Seis amigos do adolescente que faziam parte de uma seita satânica são acusados de cumplicidade.

19 de fevereiro de 1997 — Evan Ramsey, um adolescente de 16 anos, dispara contra alunos que estão no pátio de um colégio em Bethel, no Alasca, matando um estudante e o diretor da escola. É condenado a 99 anos de prisão em cada um dos crimes.

2 de fevereiro de 1996 — Durante uma aula, o estudante Barry Loukaitis, 14 anos, mata dois colegas e a professora em Moses Lake, Washington. Recebe duas penas de prisão perpétua.

18 de janeiro de 1993 — Scott Pennington, de 17 anos, atira na cabeça da professora Deanna McDavid, de uma escola em Grayson, no Kentucky. Em seguida, atinge o funcionário Marvin Hicks. Pega prisão perpétua.

1° de maio de 1992 — Quatro pessoas são mortas e dez ficam feridas numa escola de 2º grau da Califórnia. Aos 20 anos, o assassino Eric Houston, que havia sido reprovado, é condenado à morte.




Copyright © 1998, Abril S.A.

Abril On-Line