Fogo, omissão e bravatas

Enquanto o incêndio destrói Roraima,
os militares recusam ajuda em nome da
soberania nacional na Amazônia

Klester Cavalcanti, de Boa Vista,
e
Vladimir Netto, de Brasília

 
Foto: Janduari Simoes
 

O mundo inteiro acompanhou na semana passada o drama de um pedaço do Brasil sendo literalmente consumido pelo fogo. O incêndio começou a partir das queimadas que fazendeiros, pequenos agricultores e índios sempre fazem para limpar o terreno da roça. Neste ano, sem controle, tomou conta de Roraima, o menos populoso e um dos mais pobres e longínquos Estados brasileiros. As chamas varreram toda a área de cerrado, tostando plantações, pasto e casas de fazendeiros. Entraram também pela área da floresta desmatada. Por fim, chegaram à selva amazônica. Normalmente úmida e imune ao fogo nesta época, a floresta ficou vulnerável em virtude da seca, do vento e das temperaturas recordes provocadas pelo El Niño, fenômeno responsável pelas grandes tragédias climáticas deste ano em todo o planeta. Pelos cálculos do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, Inpa, já foram queimados 31.000 quilômetros quadrados de cerrado, 4.200 de floresta derrubada e 1.800 de mata virgem, já dentro da reserva dos índios ianomâmis. Isso representa mais de 15% do Estado, uma área maior que a da Bélgica. É um dos grandes desastres ecológicos já registrados na Amazônia, que em trinta anos já teve desmatada uma área equivalente ao território da França.

No rastro do fogo, ficaram campos cobertos de ossadas de animais e um cenário de pesadelo. A capital de Roraima, Boa Vista, passou as últimas semanas permanentemente coberta por uma nuvem de fumaça que transformou o Sol num disco alaranjado. Com apenas 800 leitos, o sistema de saúde do Estado ficou lotado com pessoas, muitas delas crianças, atingidas por diarréia e pneumonia — conseqüências da intoxicação. O Rio Branco, que normalmente tem 8 metros de profundidade, em vários trechos tornou-se um leito arenoso. Como numa guerra, helicópteros cruzam o céu e das estradas se avistam animais mortos e colunas fumarentas. Na linha de frente do combate ao fogo, 800 soldados — número insignificante diante das proporções da tragédia — lutavam contra o fogo na selva, onde em alguns pontos a temperatura ultrapassa os 50 graus. O material usado era rudimentar: abafadores, motosserras, facões e enxadas. Só vinte dos 120 homens da brigada enviada pelo governo da Argentina contavam com bombas costais para lançar água sobre as chamas. Dos seis helicópteros em operação, os quatro preparados para despejar água na floresta também eram argentinos.

Em decorrência do El Niño, na semana passada lutava-se contra o fogo em países como Austrália, Indonésia e Venezuela — todos do porte do incêndio que acometeu Roraima. A diferença é que, no Brasil, ao desastre ecológico se juntou o desastre governamental. Desde o ano passado o governo vinha sendo alertado para os perigos das queimadas em Roraima diante das dimensões do fenômeno climático. Em novembro, o coordenador de assuntos humanitários da ONU, Vladimir Sakharov, enviou uma carta às autoridades oferecendo todo tipo de assistência que o Brasil julgasse necessária (veja quadro). A ONU existe para, entre outros objetivos, enfrentar situações dessa natureza. Ela não tem equipamentos nem bombeiros para apagar incêndios, mas pode arregimentá-los rapidamente entre os países-membros. Isso quer dizer que, se o Brasil quisesse, a Amazônia receberia aviões russos, helicópteros canadenses, bombeiros australianos, especialistas franceses em incêndios florestais — tudo que fosse necessário para salvar a floresta. Não foi isso que aconteceu. Sakharov reiterou a oferta duas vezes, em dezembro e março. Só obteve resposta na última sexta-feira, quando o incêndio já estava fora de controle. O governo decidiu que aceitará ajuda, desde que sob a coordenação de brasileiros. Se tivesse feito isso antes, poderia ter salvo Roraima da tragédia.

Bravata nacionalista — Como sempre aconteceu nos desastres que atingiram a Amazônia, o governo só agiu quando a imprensa internacional começou a mostrar as imagens do incêndio e a denunciar a omissão das autoridades. Também como sempre acontece, procurou minimizar o desastre e sacou do bolso do colete uma surrada bravata nacionalista. Admitir a ajuda estrangeira, na visão dos militares e de boa parte do governo, seria admitir o fracasso brasileiro no gerenciamento da Amazônia. Seria, portanto — ainda segundo essa visão —, abrir as portas para a intervenção de outros países na região. É o que os militares durante anos chamaram, paranoicamente, de "internacionalização da Amazônia". Na quarta-feira, em reunião com sete membros da Comissão da Amazônia da Câmara dos Deputados, o general Benedito Leonel, chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, rechaçou com firmeza a ajuda internacional no combate ao fogo na Amazônia. "Não podemos aceitar que uma tropa estrangeira venha fazer um serviço que nós podemos fazer", discursou o general. "O governo não deve aceitar nenhuma ajuda que sinalize fraqueza no exercício da soberania da Amazônia. Não aceito nada que venha sem pleno conhecimento e acompanhamento das Forças Armadas." Era como se os militares tivessem ensaiado um discurso: no mesmo dia, o comandante militar da Amazônia, general Luiz Carvalho, deu uma entrevista na qual disse que o incêndio era brasileiro e deveria ser combatido pelos "nacionais".

Poucas vezes se viu uma exibição tão tacanha de nacionalismo retrógrado. É como se o Brasil tivesse parado no tempo, mais exatamente nos anos 60, quando a paranóia dos militares em relação à Amazônia teve início. Falava-se, já naquela época, que outros países, especialmente os EUA, tinham planos de tomar do Brasil a soberania sobre a Floresta Amazônica. Durante algum tempo, a paranóia foi alimentada por um projeto do Instituto Hudson, prevendo a construção de imensas barragens na floresta para fomentar a pesca, a navegação e a produção de eletricidade numa área inundada que englobaria vários países da América do Sul. Em outro momento, os militares ficavam nervosos porque entidades estrangeiras começavam a falar na necessidade de criar num pedaço do Brasil e da Venezuela uma "'nação ianomâmi", dando soberania a esses índios. Houve receio da "invasão de pregadores protestantes". Houve medo de que estrangeiros estivessem prestes a se instalar na região para a procura sigilosa de minerais. Os militares brasileiros sempre reagiram mal a essas ameaças, que eram produto quase exclusivo da fantasia deles. Rasgaram estradas inúteis na região, derrubando árvores, para apressar a "integração da Amazônia ao resto do país". Incentivaram a ocupação das matas por sem-terras. Convidaram grupos empresariais do Sul a criar gado na área — sempre para evitar o perigo estrangeiro. Nos últimos três meses, a paranóia voltou devido ao incêndio. Ficaram com medo de que, aceitando a ajuda da ONU, estivessem se confessando incapazes de cuidar da floresta e dando pretexto a entidades estrangeiras para ocupá-la.

Jornais estrangeiros
com as notícias do fogo
em Roraima: o Brasil
no papel de vilão na
imprensa internacional

Na quinta-feira, o governo todo — a começar pelo presidente Fernando Henrique — reuniu-se para discutir o assunto. Na reunião, o general Carvalho, uma vez mais, desprezou a ajuda internacional. Afirmou que não era necessário um aumento de homens na região e que arregimentar mais gente para combater o fogo seria fácil. E que equipamentos estrangeiros poderiam vir, desde que passassem antes por uma triagem para ver se seriam mesmo necessários. O ministro das Relações Exteriores, Luiz Felipe Lampreia, falou em seguida e aprofundou a tese sugerida no discurso do general. Segundo ele, toda ajuda será considerada, mas é preciso cuidado para que o Brasil não seja usado por países ou pessoas querendo fazer demagogia. "Não podemos deixar que esse desastre se transforme em uma confissão de que não sabemos tomar conta da Amazônia", disse ele. "O que aconteceu foi um desastre natural, e não um problema de gerenciamento ecológico", afirmou o ministro.

Foto: Sergio Lima/Folha Imagens
O fogo na floresta: só a
chuva resolve

Nos últimos dias, tem chovido ofertas de ajuda nos gabinetes do governo. Algumas sérias, outras não. Vão desde empréstimos de aviões russos com capacidade para levar 4.000 litros de água até o envio de especialistas em catástrofes. Na reunião de quinta-feira ficou definido que haverá um comando em Roraima e outro em Brasília, trabalhando juntos e, principalmente, com o mesmo discurso. Definiu-se que só o secretário de comunicação da Presidência, Sérgio Amaral, passaria a falar sobre o tema. As cenas observadas em Roraima na semana passada eram constrangedoras para o Brasil. Na Argentina, a brigada de fogo foi criada pelo presidente Carlos Menem há três anos, quando um incêndio quase destruiu a cidade de Bariloche. O Brasil, cuja quarta parte ainda é coberta pela selva — a maior do mundo —, não tem como enfrentar situação semelhante. "Não temos estrutura para combater esse incêndio", admite o presidente do Ibama, Eduardo Martins. Até a chegada de mais recursos, o governo de Roraima contava com apenas oitenta bombeiros. Sem equipamento, a maior parte dos soldados brasileiros envolvidos na operação de combate às chamas trabalhava apenas abastecendo de água os soldados argentinos e por eles sendo orientada. Mesmo assim, a única esperança de debelar o incêndio era depositada na chuva. Na semana passada, não havia nenhuma previsão de chuva. "Acabar com todo o fogo que está na floresta tornou-se humanamente impossível", diz o coronel Carlos Bunge, da Força Aérea argentina. "As ações de combate ao incêndio demoraram muito para começar."

Fama injusta — Maior e mais rica floresta tropical do mundo, a Amazônia sofre com uma fama injusta, a de que os seus recursos são inesgotáveis. Isso não é verdade. Embora o Rio Negro sozinho tenha mais variedade de peixes do que toda a Europa, o número absoluto de animais é pequeno. Por isso existem tantas espécies ameaçadas de extinção na região. O solo também é muito frágil. Árvores de 30, 40 metros se sustentam sobre raízes rasas em terrenos extremamente pobres. A ilusão de que existe uma imensidão de floresta foi pretexto para os grandes projetos agropecuários fracassados que infestaram a região nos anos 70 e 80. Hoje, a Amazônia enfrenta ameaças de outra natureza. Em algumas áreas são as madeireiras asiáticas que estão chegando, depois de destruir o que havia de floresta em seus países. Há também as invasões de terra e a retomada da atividade agrícola em pequenas propriedades na borda da floresta. Roraima, ex-território federal promovido a Estado pela Constituinte de 1988, é uma das regiões em que o ritmo da devastação ainda é menos acelerado.

 
 


Com o tamanho da Grã-Bretanha e a população da cidade de Maringá, no Paraná, Roraima tem 1,16 habitante por quilômetro quadrado, densidade demográfica 135 vezes inferior à de São Paulo. A maior parcela de produto interno bruto do Estado ainda vem da agricultura e do extrativismo. Cerca de 80% dos 30.000 habitantes do interior vivem na selva, que cobre 83% do seu território. Um recente estudo da Embrapa mostrou que há hoje em Roraima 45.000 hectares plantados, a maior parte em lugares onde antes estava a mata virgem. Isso significa que a floresta está sendo devastada, enquanto cerca de 1,5 milhão de hectares de cerrado permanecem improdutivos ou subaproveitados com pecuária extensiva. Nessas áreas, as técnicas de cultivo são primitivas. O fogo costuma ser o único meio de preparar a lavoura antes do plantio. Nem mesmo o desastre é capaz de tirar a população dessa rotina. Em fevereiro, o lavrador Francenildo Silva, de 27 anos, já tinha queimado seu terreno para plantar arroz, tomate e pepino e renovar o pasto. Morando numa pequena casa às margens da BR-174, que hoje em alguns trechos se assemelha a um túnel de fumaça, Francenildo conseguiu evitar que o fogo alcançasse a floresta, a pouco mais de 20 metros de seu roçado. Na quarta-feira passada, ele resolveu queimar o restante da área. Dessa vez, o fogo ganhou a luta territorial e atingiu a selva. Enquanto as chamas crepitavam, ele procurava justificar-se: "Pelo menos já limpei minha terra. Não tenho nada a ver com a floresta."

Povo primitivo — Na semana passada, Roraima era alvo da curiosidade mundial. Jornais, revistas, redes de televisão e agências de notícias estrangeiros tinham enviado repórteres para lá, com o objetivo de acompanhar a evolução do incêndio. Além da proporção da tragédia, o que mais contribui para chamar a atenção internacional sobre Roraima neste momento é a presença dos índios ianomâmis, um dos últimos e mais primitivos grupos humanos contatados pelos brancos. Eles estão espalhados por uma grande região na fronteira do Brasil com a Venezuela. Só em Roraima são 10.000 e suas reservas ocupam um terço do Estado. Na semana passada, a fumaça do incêndio já cobria suas aldeias. Tradicionalmente arredios, com a chegada das chamas os ianomâmis passaram a procurar os postos da Funai e das organizações religiosas em busca de comida. Embora também usem o fogo para plantar, consideram a fumaça um presságio de epidemias e catástrofes. "Como a área em que vivem está coberta de fumaça, os ianomâmis estão muito deprimidos", diz o antropólogo francês Bruce Albert, que desde a década de 70 convive com eles. "É como se fosse um sinal do apocalipse."

O incêndio, um desastre de natureza humana e ambiental, também afeta profundamente a economia de Roraima. A indústria no Estado é praticamente inexistente. Há uma fábrica da Coca-Cola, algumas pequenas indústrias de laticínios e nada mais. Grande parte dos alimentos é importada da Venezuela ou comprada em Manaus. Nem se quisessem as indústrias poderiam ir a Roraima: não haveria energia elétrica suficiente. A eletricidade de Boa Vista é fornecida por uma termelétrica de geradores ultrapassados. A população espera que esse empecilho seja removido com a importação de energia elétrica da Venezuela, que está sendo viabilizada pelo governo federal. A esperança de dias melhores, contudo, não reside apenas nisso. Dos 785 quilômetros que separam Boa Vista de Manaus, só falta asfaltar 100. Também há projeto de pavimentar a estrada que leva a Puerto Ordaz, na Venezuela, que seria um lugar para o escoamento de sua produção. A espera por dias melhores se desvaneceu nos últimos três meses. Agora, o maior movimento nas estradas é o das tropas, que, a partir desta semana, começam a reforçar o combate ao fogo. Quando ele terminar, Roraima terá de recomeçar do zero.

Em novembro, o coordenador de assuntos humanitários da ONU, Vladimir Sakharov, mandou sua primeira carta oferecendo ajuda ao governo brasileiro. Não teve resposta e insistiu outras duas vezes. Na última , declarava que "a situação desastrosa no Brasil se torna mais e mais séria" e chamava a atenção das autoridades. O general Luiz Edmundo de Carvalho, comandante das operações de combate ao fogo em Roraima, expressou a posição dos militares ao recusar ajuda internacional: "O incêndio é um problema brasileiro que deve ser resolvido por nacionais".


As loucuras do El Niño no mundo

Os incêndios florestais estão entre os problemas ambientais mais freqüentes e antigos do planeta. Todo ano é a mesma coisa. Quando a chuva diminui em regiões como a Amazônia brasileira ou o sudeste australiano, focos de incêndio se multiplicam e uma parcela da mata é consumida pelas chamas. A diferença é que desde o ano passado há um ingrediente novo e poderoso na fórmula dessa catástrofe. O El Niño provocou mudanças climáticas radicais em outros pontos do globo. Levou tempestades tropicais para o Deserto do Arizona, maremotos para o México e inundações para o Rio Grande do Sul. A África enfrentou uma das maiores secas de sua História no ano passado. Na Nova Zelândia, o calor tornou-se tão escaldante que os cabos elétricos que abastecem a principal cidade do país, Aukland, derreteram. Bairros inteiros estão às escuras há cinco semanas. Nas florestas tropicais, o clima seco tornou os incêndios muito maiores que os habituais. Um relatório do Fundo Mundial para a Natureza apontou 1997 como o ano em que as florestas mais foram consumidas pelo fogo. Desapareceram cerca de 5 milhões de hectares de vegetação, o equivalente a 270.000 estádios do Maracanã.

Além da Amazônia, a região mais atingida pela seca foi o Sudeste Asiático. Com uma diferença. Lá, as florestas ficam próximas dos grandes centros urbanos. Resultado: na Indonésia, 32.000 pessoas foram parar nos hospitais com problemas respiratórios provocados pela fumaça no ano passado. Uma nuvem negra cobriu a região entre as Filipinas e a Austrália, na Oceania, provocando dois acidentes fatais. Num deles, um jato de passageiros estatelou-se na Indonésia — 234 pessoas morreram. Dias mais tarde, dois navios, cegos pela fumaça, trombaram a poucos quilômetros dali. Trinta marinheiros morreram. O fogo na Indonésia só foi debelado quando a chuva chegou. Atrasada, por culpa do El Niño.

Neste ano, o fogo voltou mais cedo do que nunca. Na semana passada, os moradores de Samarinda, cidade de 350.000 habitantes na Ilha de Bornéu, também na Indonésia, tiveram de ligar os faróis de seus automóveis em pleno meio-dia. A cidade passou os últimos dias encoberta por uma densa fumaça vinda das florestas da região. A situação ficou tão crítica que o governo distribuiu 20.000 máscaras para a população e recomendou que os moradores não saíssem de suas casas. O El Niño também alimentou os incêndios que assolam o sudeste da Austrália todo verão. O fenômeno desvia as chuvas da região para o oceano. Tempestades elétricas e um vento constante fazem o resto. Desde o início de dezembro, o fogo vem consumindo fazendas, parques nacionais e até residências nas redondezas de Sidney. Quatro bombeiros morreram tentando debelar as chamas e os subúrbios da cidade passaram parte da semana passada cobertos pela fumaça. Além de mobilizar centenas de bombeiros em questão de horas para combater os incêndios, as autoridades australianas correm atrás de culpados. A polícia acredita que boa parte do fogo esteja sendo provocada por um piromaníaco. Uma caçada está em curso para encontrar um suspeito que foi visto vagando pelas regiões onde os incêndios começaram.

Com reportagem de Ricardo Villela
e Thomas Traumann, de São Paulo




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