No país dos coitadinhos

"Atolados num estapafúrdio dilema ideológico,
os governos não resolvem o crescimento
desordenado da pobreza"

Roberto Nejme

A omissão do governo é criminosa, mas o tema aqui é o inacreditável silêncio de ONGs e ecologistas sobre o incêndio que devasta as florestas de Roraima. É difícil explicar o mutismo. Fiquemos com o que normalmente engasga a militância. É possível que alguma forma de roça aberta no coração da selva tenha dado forte colaboração para o fogaréu. Eis um gênero de desmatamento que envolve gente pobre e os pobres, como se sabe, não são culpados de nada. Veja-se o que aconteceu na década de 80. Como os garimpeiros compunham o proletariado dos desbravadores de novas fronteiras, a eles era permitido intoxicar rios com mercúrio na busca de ouro. Mesmo agora, sob a fachada do social, corrompe-se a doutrina Chico Mendes. Martirizado por suas idéias, Chico Mendes defendia o manejo racional da mata em favor de uma vida digna para os "povos da floresta". No dicionário do Movimento dos Sem Terra isso virou licença ecológica. Em nome da luta pela sobrevivência é legítimo desmatar para plantar. A lei vale para o matuto nordestino preso em flagrante pelo crime ambiental de ter matado um tatu para comer, mas não vale para os deserdados da terra.

A confusão não vigora apenas no campo ou na vastidão amazônica. Prospera também nas cidades. Uma sinistra quietude de lideranças ecológicas abona no Rio de Janeiro o avanço da favelização sobre o verde das encostas. O manto florestal dos morros está todo roído, mas as vozes altissonantes da ecologia só são ouvidas quando se quer espetar lá no alto hotéis ou condomínios para ricos. Quarenta e oito favelas já habitam a área do Parque da Floresta da Tijuca. E sobre isso pesa uma descabida afonia. A população carioca cresce à modesta taxa de 1,3% ao ano. Sinal de que a proliferação das favelas não pode ser debitada à pressão demográfica. O fenômeno é outro e está à espera de melhores explicações. Quanto mais favelas, mais fica evidente a orfandade da pobreza esquecida dentro delas. Um levantamento recente revela o abandono por caminhos oblíquos. Nas comunidades pobres o que a Polícia Militar menos atende são casos de homicídio. A PM é chamada para fazer partos, ajudar doentes, apartar pendengas, enfim, para socorrer as imensas carências do cotidiano dos pobres que outras repartições públicas simplesmente ignoram. Tudo bem, a pobreza precisa de tudo. Mas também precisa de disciplina para que seu crescimento não seja fonte de miséria ambiental. E isso é papel do poder público, o mesmo que deveria arruar favelas para que nelas possam entrar canos de água e esgoto, ambulâncias e caminhões de lixo. Os governos não resolvem o miserê e o crescimento desordenado da pobreza porque ficam atolados num estapafúrdio dilema ideológico. Assim, ficamos no pior dos mundos.




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