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"Os
melhores artistas são aqueles que têm alguma limitação a ser superada" |
| Foto: Paulo Jares |
Aos 61 anos, o ator Paulo José está vivendo um grande momento de sua carreira. Tem feito sucesso na televisão na pele do alcoólatra Orestes, personagem que interpreta magistralmente na novela Por Amor, exibida pela Rede Globo. Em maio, estréia no cinema como o protagonista do filme Policarpo Quaresma, baseado na obra de Lima Barreto. Está ainda traduzindo a peça O Balcão, de Jean Genet, e escrevendo o roteiro de um filme que pretende dirigir no próximo ano. Será seu primeiro trabalho de direção no cinema.
A devoção obsessiva ao trabalho sempre foi uma marca do gaúcho Paulo José Gomez de Souza. O espantoso é como ele consegue se manter tão ativo sofrendo há cinco anos do mal de Parkinson, uma doença degenerativa e incurável que afeta o sistema motor, causando tremores, rigidez muscular e prostração. Casado pela quarta vez e muito ligado às três filhas do seu primeiro casamento, com a atriz Dina Sfat, Paulo José não se entregou à depressão. Na semana passada, recebeu VEJA em sua simpática cobertura no Leblon, na Zona Sul do Rio de Janeiro, para uma entrevista de três horas e meia. Fumou dez cigarros, tomou dois cafés e duas doses de uísque e falou do seu esforço para superar a doença.
Veja Quando o senhor descobriu que sofria do mal de Parkinson?
Paulo José Em 1992, a Globo me passou a responsabilidade de implantar o projeto do Você Decide. Como sou perfeccionista, trabalhei sem parar de fevereiro até setembro. O batente era tanto que cheguei a ficar 36 horas na ilha de edição fazendo um Você Decide especial. Durante todo esse tempo, só comi sanduíches, tomei café e fumei. Quando a edição acabou, o diretor de produção abriu uma garrafa de uísque e dei uns goles. Foi aí que a coisa bateu fiquei num estado quase comatoso, completamente tonto. Vim para casa, deitei e fiquei desacordado o dia inteiro. Quando acordei, estava com dificuldade de pegar as coisas com a mão direita, que tremia muito.
Veja Algum sintoma da doença já tinha se manifestado antes dessa crise?
Paulo José Não. Embora a doença não tenha uma causa definida, os médicos acreditam que foi o stress que afetou a chamada substância negra do cérebro, a área que produz dopamina, um neurotransmissor fundamental para o bom funcionamento do sistema motor. Quando a pessoa tem problemas na produção de dopamina, ela passa a ter tremores e a fazer movimentos involuntários, sintomas mais evidentes do Parkinson.
Veja O diagnóstico do mal de Parkinson o assustou?
Paulo José Não tomei um susto porque tive tempo para me acostumar com a idéia de que tinha uma doença crônica. Foi um diagnóstico demorado, a que os médicos chegaram por eliminação. Fiz uma bateria de exames neurológicos, tomografia computadorizada e coisas do gênero, mas os médicos não constataram em princípio nenhum problema físico ou orgânico que saltasse aos olhos. Depois vim a saber que quase sempre é assim no caso do mal de Parkinson.
Veja Que limitações a doença lhe trouxe?
Paulo José As perdas são grandes. Em determinados momentos, perdi o controle sobre os movimentos de maneira bem visível e até tive dificuldade de falar. Esses e outros problemas ainda se manifestam vez por outra, apesar da medicação. No caso da fala, é como se existisse um hiato entre o pensamento e a palavra. Por isso, em certas ocasiões, prefiro escrever a entabular uma conversa. Perde-se o automatismo até mesmo para fazer os movimentos mais banais, como andar. Para dar dois passos, é preciso pensar antes. Acontecem também uns brancos, como se uma névoa descesse sobre o seu cérebro você está conversando e, no meio de uma frase, não encontra o fio da meada. Com o tempo, descobri que o melhor antídoto contra todas essas limitações é não ter medo de expô-las. Esconder esse estado causa ansiedade e aumenta ainda mais as dificuldades. Um dia, eu estava dando uma palestra na aula inaugural da Oficina de Atores da Globo e começaram a vir as lacunas. A primeira coisa que fiz foi falar do problema para a platéia.
Veja O senhor entrou em depressão ao descobrir que estava com uma doença degenerativa e incurável?
Paulo José Não, porque ao mesmo tempo várias coisas boas estavam acontecendo na minha vida. No primeiro ano do Parkinson, dirigi a minissérie Agosto, sob a supervisão geral do Carlos Manga. Foi o trabalho na televisão em que tive maior apoio: pude fazer exatamente como gostaria, sem me preocupar em conduzir as gravações com pulso de ferro porque o Manga segurava todas as barras. Nesse instante, ficou claro para mim que, apesar de tudo, dava para continuar trabalhando, tocando o barco.
Veja Mas o senhor chegou a pensar que teria de parar de trabalhar?
Paulo José Passei por momentos bem difíceis. Há dois anos tive uma crise séria por causa da síndrome do uso prolongado de um medicamento que atenua os efeitos do Parkinson. O remédio passou a potencializá-los em vez de anulá-los. Andar era difícil e tinha muitos tremores. Foi insuportável. Mas, felizmente, apareceram novas drogas que me permitiram reduzir a dose do tal medicamento.
Veja O trabalho do ator exige domínio sobre os movimentos, expressividade, empostação de voz. O mal de Parkinson prejudica todas essas funções. Como o senhor faz para tentar superar essas limitações?
Paulo José O Parkinson tende a criar uma máscara rígida, uma falta de expressão no seu rosto. Ele enrijece o corpo e reduz movimentos. Até a própria articulação fica mais difícil. A voz do parkinsoniano é débil, vai ficando fininha, perdendo o harmônico. Tem dias em que acordo com a voz presa e ela só se abre com exercícios. Por ser ator, sempre tive muito treinamento, o que tem me ajudado a manter a mobilidade facial e a voz. Com exercícios não se perdem os movimentos, pelo menos no grau em que a doença se manifesta no meu caso. O que o parkinsoniano não pode fazer, em nenhuma hipótese, é acomodar-se e deixar de fazer os exercícios que lhe recomendam.
Veja O senhor continua trabalhando e fazendo sucesso. A doença prejudica sua interpretação do alcoólatra Orestes na novela Por Amor, da Globo?
Paulo José Em certa medida, até ajuda. Algumas coisas que o personagem faz são por causa do Parkinson. O Orestes tem uma parvoíce, uma certa perplexidade, uma cara de pateta, que são típicas do parkinsoniano. É claro que uso isso. É um elemento fácil de manipular. Também já aconteceu de eu estar cansado, estressado e aparecer em cena tremendo. Algumas pessoas que trabalham com alcoolismo vieram me elogiar, disseram que estavam impressionadas como eu tinha trabalhado os detalhes. Não foi interpretação, foi o Parkinson.
Veja Mas, assim como a doença favoreceu a construção do Orestes, ela pode atrapalhar a interpretação de outros personagens que não tenham características comuns aos parkinsonianos. O senhor teve dificuldade, por exemplo, para fazer Policarpo Quaresma no cinema?
Paulo José A consciência do limite ajuda a fazer as coisas bem. Demóstenes, o grande orador grego, era gago. Ele colocava umas pedrinhas na língua para forçar a articulação. O Nelson Gonçalves é gago e gravou mais de 2.000 canções sem gaguejar. Os melhores artistas são aqueles que têm alguma limitação a ser superada, alguma coisa que os torna menos superficiais. Não tive nenhum sintoma enquanto interpretava Policarpo Quaresma, talvez porque tenha atingido um ajustamento prazeroso com o personagem foi extremamente relaxante e confortável interpretá-lo. O Parkinson afeta a parte motora, mas não a intelectual. A limitação de movimentos me trouxe um ganho extraordinário em introspecção: fiquei mais para dentro, o que é excelente para o ator.
Veja O senhor se sente apto a atuar em teatro?
Paulo José O teatro exige uma estabilidade física que não consigo manter. É complicado ter o compromisso de fazer espetáculos todas as noites, porque há momentos em que não estou bem-disposto. No teatro, trabalha-se mais com o imaginário, manipulam-se objetos inexistentes, seu corpo fica mais solto. Ao contrário da televisão ou do cinema, não posso atuar só com a parte do corpo que está sendo focalizada. E, se errar, não posso repetir a cena.
Veja O senhor tem medo de, em algum momento, não conseguir superar a doença?
Paulo José Todo dia sinto medo. Agora há pouco, passei pelo medo de não conseguir dar esta entrevista. O interessante é o esforço de superação permanente em tudo. Depois de vários meses de Por Amor já controlei o medo das gravações. Já sei nadar naquela água. Mas quando vou fazer uma locução às vezes sou acometido de pânico. Já fiquei imobilizado e acabei não conseguindo executar certas tarefas. Se estou usando a voz e fico com medo, seca tudo: a língua fica dura, vira um pedaço de pau dentro da boca. Então você não consegue articular nada. Isso já aconteceu. Agora faço uma preparação de uma hora em casa toda vez que vou fazer uma locução. O filósofo e escritor francês Jean-Paul Sartre dizia que "a vida começa do outro lado do desespero". Para mim, essa frase adquiriu um significado altamente positivo. Quando bate o desespero, tento não naufragar e chegar à outra margem desse rio caudaloso que é a vida.
Veja O mal de Parkinson teve alguma relação com sua separação da atriz Zezé Polessa, depois de sete anos de casamento?
Paulo José O risco da catástrofe iminente o deixa mais aguçado para a vida. Sinto que melhorei na minha relação amorosa, fiquei mais afetivo. Estou casado de novo, com a Kika Lopes, figurinista de cinema, diretora e roteirista. O casamento com a Zezé acabou porque o processo de crescimento dela se deu num sentido diferente do meu. Ela estava buscando o reconhecimento da carreira, queria se expor mais. E isso veio num momento em que eu fazia o movimento contrário, de introspecção.
Veja Embora atribua sua doença ao excesso de trabalho, o senhor continua envolvido em vários projetos. Por que o senhor não diminuiu o ritmo de trabalho?
Paulo José Antes da doença, como sempre tive enorme dificuldade de dizer não, acabava sendo vampirizado por inúmeras solicitações. O Parkinson tem me ajudado a negar convites. É uma desculpa que todo mundo entende: "Não posso porque estou mais limitado agora". Tento trabalhar mais no campo da criação, deixando a parte de execução com os colaboradores. Tenho seis pessoas trabalhando comigo, entre assistentes, secretária, motorista e empregada, uma infra-estrutura que me permite fazer várias coisas ao mesmo tempo. Mas estou diminuindo o ritmo, sim. Recentemente abri mão de fazer um filme da diretora Ana Carolina sobre a atriz Sarah Bernhardt porque realmente não tinha condição de fazê-lo. Também acabei de recusar um comercial de remédio, que me daria uns 200.000 reais. Nesse caso, porém, foi por uma questão ética: sou contra a automedicação.
Veja Além de tomar remédios e fazer exercícios, o senhor segue alguma outra prescrição médica?
Paulo José Eu deveria ter uma rotina alimentar controlada e saudável e horários regulares para dormir. Deveria também evitar frituras, pão, tudo aquilo que dificulta a digestão. Só que acabo comendo sanduíches, tomando café e refrigerantes durante as gravações. Procuro dormir pelo menos oito horas por noite, mas nem sempre posso. Os médicos disseram, ainda, que eu deveria maneirar no cigarro e abolir o álcool. Mas não me privo de nada.
Veja A doença o levou a pensar mais na morte?
Paulo José Sim, mas acho que a idade também ajuda a cair na real. Ao me tornar um sexagenário, percebi que chegar aos 120 anos seria inviável. Não podia mais pensar que estava na metade da existência. Talvez já tenha vivido dois terços e tenha mais trinta anos pela frente, se chegar aos 90 com condições mínimas de saúde. O autor argentino Jorge Luis Borges, quando fez 50 anos, escreveu um poema sobre essa consciência dos limites. Você compreende que não vai ler a metade dos livros da sua biblioteca, que tem uma esquina pela qual não passará uma segunda vez ou um rosto que não verá novamente. Quando se é jovem, existe a impressão de que sempre é possível deixar tudo para depois. Depois, vem a certeza de que não é assim, o que o obriga a ser seletivo. Se não pode ler todos os livros, por exemplo, você lerá os que o gratificam mais. Então, de certa maneira, começa a aproveitar melhor cada dia.
Veja Mesmo com todas as dificuldades, o senhor passa uma visão otimista da vida.
Paulo José É porque parto do pressuposto de que na vida tudo vai dar errado, de que nada acontece do jeito que se planeja. No entanto, sempre é possível corrigir rumos, porque todo erro traz embutido um acerto. A vida me deu mais do que eu esperava. Nunca precisei ir à luta, correr atrás, conquistar alguma coisa a duras penas. Nunca tive problema de ganhar dinheiro com o meu trabalho, mas também jamais quis ser rico.
Veja Qual foi a reação de suas filhas ao saber que o senhor tinha mal de Parkinson?
Paulo José Ficaram muito preocupadas porque, como perderam a mãe com câncer, têm certo pânico de perder o pai prematuramente. Depois da morte de Dina, passei a ser pai e mãe. Elas querem que eu morra velhinho, e espero não frustrar essa expectativa. Quando chegar a minha hora, gostaria de morrer num leito cercado de pessoas queridas, com a sensação de missão cumprida.
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