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Música O
Resto É Ruído, do jornalista
americano Alex Ross,
De todas as grandes manifestações artísticas do século XX, a música erudita se provou a mais difícil e hostil ao homem comum. Ao abandonarem as regras da harmonia e abraçarem a dissonância e o ruído, seus praticantes mais extremos não afrontaram apenas convenções culturais vigentes havia séculos, mas também a própria biologia: o ouvido humano é um órgão programado para interpretar como agressão e aspereza tudo o que fuja a uma certa zona de conforto. Por isso, mais ainda do que apreciar poemas ou pinturas vanguardistas, ouvir a música de Arnold Schoenberg, Pierre Boulez ou John Adams, para citar compositores nascidos em diferentes décadas e países, é um hábito que só se adquire com algum esforço. O Resto É Ruído (Companhia das Letras; tradução de Claudio Carina e Ivan Weisz Kuck; 646 páginas; 64 reais), do jornalista americano Alex Ross, certamente não converterá as massas à música dodecafônica ou minimalista. Mas, ao desvendar os segredos técnicos das grandes composições e retratar dezenas de artistas contra um pano de fundo de guerras, ditaduras e agitação social, este belo livro tem um mérito indiscutível: transforma a história da música no século XX numa grande aventura. O Resto É Ruído começa em 1906, com a apresentação da ópera Salomé, do compositor alemão Richard Strauss, na cidade austríaca de Graz. Termina com uma visita ao americano John Adams em 2000, enquanto ele trabalha na composição do oratório El Niño. Na visão de Ross, são dois momentos emblemáticos. Strauss, que começou a carreira como autor romântico, decretou o fim desse movimento ao apresentar aquela obra surpreendente, marcada pela cacofonia. Gustav Mahler e Arnold Schoenberg assistiram à récita de Graz. Para Ross, a presença deles é também ela uma tradução simbólica da guinada precipitada por Salomé. Mahler, assim como Strauss, era representante do romantismo e das sinfonias formais o passado que ali se encerrava, enfim. Schoenberg, por seu turno, viria a ser o novo o atonalismo, para o qual o empurraram tanto a ópera de Strauss como a morte de seu professor Mahler, em 1911. No outro extremo, situado mais de nove décadas após aquele instante catalisador, está o americano Adams, o maior compositor de sua geração, por ser uma espécie de síntese viva dessa longa trajetória: o artista que combinou o formato sinfônico com a música minimalista.
Se existe um aspecto em O Resto É Ruído que pode ser definido como brilhante é a forma pela qual Ross mostra como a arte tantas vezes serviu a propósitos políticos. Richard Strauss, que aderiu ao nazismo porque Adolf Hitler supostamente era admirador de suas obras, virou um joguete. Ao final da guerra, alegou que sua adesão ao Partido Nazista fora um estratagema para proteger sua nora judia. Os russos Sergei Prokofiev e Dmitri Shostakovich viveram momentos de terror sob o jugo do ditador soviético Josef Stalin, que detestava o atonalismo por ser uma suposta expressão da "decadente" arte ocidental. As composições de Prokofiev eram criticadas pelo Partido Comunista, e Shostakovich irritou o ditador com a ópera Lady Macbeth do Distrito de Mtsensk. Para escapar do exílio ou mesmo da execução, teve de se retratar criando exaltações ao regime soviético as "sinfonias da guerra", da Quarta à Nona. Curiosa também é a cooptação da obra do americano Aaron Copland pelo governo do presidente Franklin Delano Roosevelt: durante a depressão econômica que abalou os Estados Unidos nos anos 30, o esquerdista e crítico severo do estilo de vida americano Copland se tornou o símbolo dos valores nacionais em razão de obras alvissareiras como Appalachian Spring. Os trabalhos desses autores e sua adesão ainda que forçada a regimes e governos diversos ajudaram, no pós-guerra, a manter vivo o espírito da vanguarda. Numa inversão curiosa, foi a música convencional que se tornou moralmente duvidosa. Theodor Adorno, uma das autoridades intelectuais do século XX, pregava que uma composição que preservasse a tonalidade traía uma mente fascista. Os artistas da geração que despontou nos anos 50 e 60, entre os quais se destacam John Cage, Pierre Boulez e Karlheinz Stockhausen, fariam o que Ross definiu como "arte da destruição". São obras iconoclastas há desde um quarteto para helicópteros até uma peça em que o pianista não toca nada e espera pela reação da plateia , mas também, com frequência, de concepção um tanto árida, que exige muito boa vontade por parte do ouvinte. Outro acerto de Ross é demonstrar a influência, muitas vezes insuspeita, da música erudita contemporânea sobre a composição popular do século XX. O mesmo atonalismo que afugentou a plateia das salas de concerto encontrou guarida no cinema. Stanley Kubrick fez uso das composições do húngaro György Ligeti em 2001 Uma Odisseia no Espaço e De Olhos Bem Fechados, enquanto os acordes sinistros do polonês Krzysztof Penderecki assinalam os momentos mais aterrorizantes de O Exorcista. O jazz se apoiou tanto nas melodias formais quanto nas dissonâncias da música contemporânea. A abertura de A Love Supreme, obra-prima do saxofonista John Coltrane, foi influenciada pelas sinfonias do finlandês Jean Sibelius. O rock bebeu da fonte da vanguarda e do minimalismo. Ross conta que Ligeti ficou surpreso ao escutar uma nova composição de Stockhausen na verdade, estava ouvindo A Day in the Life, dos Beatles, que utilizaram a técnica de colagens do autor alemão. A cantora Björk e o quinteto inglês Radiohead abraçaram as experimentações de Stockhausen, de Arvo Pärt e de Penderecki. Em O Resto É Ruído, Ross reconstitui cenas fundamentais da música do século XX com tanta riqueza de detalhes que se tem a impressão de estar presente no momento em que elas aconteceram. Ler sobre a estreia de Salomé ou a Conferência Científica e Cultural para a Paz no Mundo, que ocorreu nos Estados Unidos em 1949 (na qual uma multidão cercou o compositor Shostakovich e exigiu sua deserção), não é apenas saber o que aconteceu naqueles locais. É também perceber a excitação que marcou tais momentos. E, quando descreve uma obra musical, Ross evita abusar de termos técnicos. Mostra o detalhe e a função de cada instrumento, e passa ao leitor a impressão de estar ouvindo a obra in loco. O Resto É Ruído é básico para quem deseja entender o que instigou os artistas do século passado a criar composições tão estranhas para o ouvido humano e mais ainda para compreender como a música, qualquer que seja ela, é algo vivo, que responde não só às aspirações de seus autores, mas ao tempo e ao lugar em que eles existem.
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