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Edição 2106

1º de abril de 2009
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Livros
Memórias quase póstumas

Chico Buarque segue os passos de Machado de
Assis e retrata, com desgosto, a elite brasileira


Carlos Graieb

Leonardo Aversa/Ag. O Globo


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Trecho do livro

Parece ser uma sina inescapável para os escritores brasileiros fazer uma oferenda, cedo ou tarde, no altar de Machado de Assis. A oferenda de Chico Buarque acaba de ser entregue: é o seu quarto romance, Leite Derramado (Companhia das Letras; 196 páginas; 36 reais). O espírito do livro não poderia ser mais machadiano: com um misto de amargura pelos próprios fracassos e desdém senhorial pelas pessoas que o cercam, Eulálio Montenegro D’Assumpção, um filho da classe alta brasileira, relembra a sua história de maneira não inteiramente honesta. Mas também nos detalhes as dívidas com Machado se revelam. De Dom Casmurro vem, por exemplo, o tema do ciúme doentio que acaba por destruir a vida de uma mulher. E, se as Memórias Póstumas de Brás Cubas são narradas, de maneira inusitada, por um "defunto autor", Leite Derramado se esforça em busca de um efeito próximo: com mais de 100 anos, e meio embotado pela morfina, o anti-herói Eulálio agoniza no "ambiente pestilento" de um hospital público do subúrbio carioca, onde desfia seu monólogo para enfermeiras distraídas.

Leite Derramado pretende fazer um diagnóstico crítico da sociedade brasileira. Filho de senador da República, neto de nobre do Império, bisneto de um figurão da corte de dom João VI – e assim por diante, até o tempo dos afonsinhos –, Eulálio é herdeiro de todos os vícios e preconceitos de seus antepassados. Ele seria a prova viva de como males ancestrais ainda infectam o presente. O problema é que, nascido em 1907, Eulálio não é, verdadeiramente, um homem do tempo atual. Na verdade, ele quase não é um homem do século XX. Tudo o que aconteceu no Brasil a partir dos anos 50 mal se reflete em sua narrativa. Novamente, a sombra de Machado de Assis se impõe. Machado apontou mazelas concretas de seu tempo. Chico Buarque, ao contrário, não fala de como o racismo, o sexismo, a corrupção ou o esbulho das coisas públicas se manifestam no Brasil contemporâneo – fala apenas das peculiaridades odiosas de um homem muito velho, criado 100 anos atrás. Sua pretensão sociológica naufraga nas águas rasas do esquerdismo. O que sobra é a denúncia, vazia e caricatural, de uma "elite podre".

Isso não significa que Leite Derramado seja uma má leitura. Desde o seu primeiro livro, Estorvo, Chico Buarque pratica um estilo em que o prosaico se mistura a efetivos achados poéticos. Esse estilo leve arrasta o leitor para dentro da história. A maneira fragmentária como Eulálio vai arrancando lembranças do "pandemônio da memória" também cria lacunas e um certo suspense. O maior enigma é a natureza do sumiço de Matilde, a amada esposa de Eulálio. Ela fugiu com outro homem? Foi acometida por uma doença terrível? Ou recebeu um castigo imerecido? Longe de ser um fracasso como narrativa, o novo livro de Chico Buarque apenas deixa de realizar todas as suas ambições – e mostra que nunca é seguro para um escritor seguir as pegadas de Machado de Assis.

DESEJO POR FÊMEAS

"Foi meu pai quem me apresentou às mulheres em Paris, contudo, mais que as próprias francesas, sempre me impressionou o seu olhar para elas. Assim como o aroma das mulheres daqui não me impressionava tanto quanto o cheiro dele, impregnado na garçonnière que ele me emprestava. Debaixo do chuveiro eu agora me olhava quase com medo, imaginando em meu corpo toda a força e a insaciedade do meu pai. Olhando meu corpo, tive a sensação de possuir um desejo potencial equivalente ao dele, por todas as fêmeas do mundo, porém concentrado numa só mulher."

Trecho de Leite Derramado,
de Chico Buarque



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