Edição 1 638 - 1°/3/2000

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Memorial da Terra Papagalli

Notas singelas mas sinceras sobre o que vai pelo país das palmeiras frondosas e das aves palradoras

Um ministro, ao anunciar a demissão do mais estratégico subordinado, explicou o método pelo qual se costuma pautar nas relações com os membros de sua equipe: "Quando não aprovo algo, chamo a pessoa e digo o que está me desagradando. Dou duas oportunidades. Na terceira, demito".

Agora que conhecem o segredo do chefe, os subordinados têm duas maneiras, uma otimista e outra pessimista, de reagir. A pessimista é ficar com medo de chegar ao terceiro chamamento. A otimista é a segurança de que têm duas chances de fazer tudo errado.

* * *

Outro ministro, o mais novo integrante do gabinete, disse ao assumir o cargo que a "sociedade vai decidir" a política que deseja para seu setor (o da Defesa). Antes, na Terra Papagalli, quando não se queria resolver um problema formava-se uma comissão para estudá-lo. Hoje se afirma que quem vai decidir é a sociedade.

* * *

Para que serve uma eleição parlamentar? Para eleger deputados, cada qual filiado a um partido. A soma dos deputados de um partido constitui sua bancada. Portanto, o tamanho da bancada depende do resultado das urnas. Vale dizer, da vontade do eleitor.

Ou não? Na Terra Papagalli as bancadas aumentam ou diminuem sem interferência do eleitor. Eis o grande avanço. É a tecnologia. Não há hoje fábrica sem operário, banco com caixa automática e avião sem piloto? A Terra Papagalli inventou, e aprimora continuamente, um sistema parlamentar que prescinde do eleitor.

Não é de hoje que o sistema vem sendo colocado em prática. Houve tempo em que os "coronéis", como eram chamados os mandachuvas da Terra Papagalli, ao montar as seções eleitorais em suas áreas de influência, providenciavam também um médico. Era para atender os feridos, que sem dúvida os haveria, no transcurso do ato eleitoral, e eventualmente expedir os atestados de óbito. Costumava-se eliminar o eleitor no nascedouro. Hoje o sistema se refinou. Um sutil movimento, fora das vistas do público, e – zaz! – umas bancadas aumentam, outras diminuem. E sem derramamento de sangue. É a tecnologia.

* * *

Não bastasse ter muita coisa ruim, a Terra Papagalli sofre do vezo de pintá-las pior. Trata-se de popularíssimo esporte nacional. Há uma invencível tendência, entre os papagallis, de dilacerar-se a si mesmos, arrancar-se pedaços de carne e fazer-se sangrar – como se, em vez de papagaios, fossem pelicanos, pássaros que oferecem o próprio papo à bicada dos filhotes. Recentemente, um professor de prestigiosa universidade papagalli divulgou estudo segundo o qual, em números absolutos, a Terra Papagalli tem o terceiro maior desemprego do mundo. A imprensa divulgou a notícia com a volúpia que costuma reservar a esses casos. Quase 8 milhões de desempregados! Mais de dois Uruguais! Um Paraguai e meio! Ulalá!

Ora, a Terra Papagalli, com seus 160 milhões de habitantes, ostenta os maiores resultados, em números absolutos, em tudo. Tem um dos maiores contingentes de desempregados assim como de muitas outras coisas, de praticantes de peteca a bebedores de cerveja. O autor do estudo poderia concluí-lo ao inverso. Com a constatação de que a Terra Papagalli tem um dos maiores contingentes de empregados do mundo – sim, porque até isso, em números absolutos, ela tem. Setenta milhões de empregados! Vinte Uruguais! Sete Bélgicas! Quase duas Espanhas!

* * *

Uns dirão que é a internet, outros que as acrobáticas reboladoras com véu ou máscara no rosto, outros ainda que o aparelho de barbear de três lâminas. Engano. A maior novidade dos últimos tempos, na Terra Papagalli, é o técnico de futebol de terno e gravata. Gravata virara exclusividade de executivos e integrantes do ministério. Nem gente em busca de emprego de uns tempos para cá sente necessidade de enrolá-la ao pescoço. Eis que ressurge, e no lugar mais inesperado.

A gravata confere uma formalidade que não costuma conviver com o futebol. Os técnicos mostram-se empertigados como lordes, sóbrios como desembargadores, santos como outrora os meninos na primeira comunhão. Há algo que não combina, algo de falso, de irreal nisso, até que... Até que a câmara de TV fecha no rosto do técnico e flagra-o no momento entre todos eletrizante de desferir o palavrão, um palavrão de encher a boca, rico, expressivo – que só não merece o adjetivo "sonoro" porque não é sonoro, é mudo, mas mesmo assim com todas as letras, tal a explicitude dos movimentos labiais, ainda que os locutores, fingindo não entendê-lo, informem que o técnico acaba de ordenar ao time para atacar pelas pontas.

O palavrão nos restitui à realidade. O velho futebol volta à inteireza de seu esculacho. O palavrão desmente a sisudez do traje, desmoraliza a pretensão à solenidade, desmonta a farsa. Ainda mais contundente, mais abusivo, mais ferino e malcriado por ser um palavrão mudo – e de gravata.