Memorial da Terra Papagalli
Notas singelas mas sinceras sobre o que
vai pelo país das palmeiras frondosas e das aves
palradoras
Um ministro, ao anunciar a demissão do mais estratégico
subordinado, explicou o método pelo qual se costuma
pautar nas relações com os membros de sua
equipe: "Quando não aprovo algo, chamo a pessoa e
digo o que está me desagradando. Dou duas oportunidades.
Na terceira, demito".
Agora que conhecem o segredo do chefe, os subordinados
têm duas maneiras, uma otimista e outra pessimista,
de reagir. A pessimista é ficar com medo de chegar
ao terceiro chamamento. A otimista é a segurança
de que têm duas chances de fazer tudo errado.
* * *
Outro ministro, o mais novo integrante do gabinete, disse
ao assumir o cargo que a "sociedade vai decidir" a política
que deseja para seu setor (o da Defesa). Antes, na Terra
Papagalli, quando não se queria resolver um problema
formava-se uma comissão para estudá-lo. Hoje
se afirma que quem vai decidir é a sociedade.
* * *
Para que serve uma eleição parlamentar?
Para eleger deputados, cada qual filiado a um partido. A
soma dos deputados de um partido constitui sua bancada.
Portanto, o tamanho da bancada depende do resultado das
urnas. Vale dizer, da vontade do eleitor.
Ou não? Na Terra Papagalli as bancadas aumentam
ou diminuem sem interferência do eleitor. Eis o grande
avanço. É a tecnologia. Não há
hoje fábrica sem operário, banco com caixa
automática e avião sem piloto? A Terra Papagalli
inventou, e aprimora continuamente, um sistema parlamentar
que prescinde do eleitor.
Não é de hoje que o sistema vem sendo colocado
em prática. Houve tempo em que os "coronéis",
como eram chamados os mandachuvas da Terra Papagalli, ao
montar as seções eleitorais em suas áreas
de influência, providenciavam também um médico.
Era para atender os feridos, que sem dúvida os haveria,
no transcurso do ato eleitoral, e eventualmente expedir
os atestados de óbito. Costumava-se eliminar o eleitor
no nascedouro. Hoje o sistema se refinou. Um sutil movimento,
fora das vistas do público, e zaz! umas bancadas
aumentam, outras diminuem. E sem derramamento de sangue.
É a tecnologia.
* * *
Não bastasse ter muita coisa ruim, a Terra Papagalli
sofre do vezo de pintá-las pior. Trata-se de popularíssimo
esporte nacional. Há uma invencível tendência,
entre os papagallis, de dilacerar-se a si mesmos, arrancar-se
pedaços de carne e fazer-se sangrar como se, em
vez de papagaios, fossem pelicanos, pássaros que
oferecem o próprio papo à bicada dos filhotes.
Recentemente, um professor de prestigiosa universidade papagalli
divulgou estudo segundo o qual, em números absolutos,
a Terra Papagalli tem o terceiro maior desemprego do mundo.
A imprensa divulgou a notícia com a volúpia
que costuma reservar a esses casos. Quase 8 milhões
de desempregados! Mais de dois Uruguais! Um Paraguai e meio!
Ulalá!
Ora, a Terra Papagalli, com seus 160 milhões de
habitantes, ostenta os maiores resultados, em números
absolutos, em tudo. Tem um dos maiores contingentes de desempregados
assim como de muitas outras coisas, de praticantes de peteca
a bebedores de cerveja. O autor do estudo poderia concluí-lo
ao inverso. Com a constatação de que a Terra
Papagalli tem um dos maiores contingentes de empregados
do mundo sim, porque até isso, em números
absolutos, ela tem. Setenta milhões de empregados!
Vinte Uruguais! Sete Bélgicas! Quase duas Espanhas!
* * *
Uns dirão que é a internet, outros que as
acrobáticas reboladoras com véu ou máscara
no rosto, outros ainda que o aparelho de barbear de três
lâminas. Engano. A maior novidade dos últimos
tempos, na Terra Papagalli, é o técnico de
futebol de terno e gravata. Gravata virara exclusividade
de executivos e integrantes do ministério. Nem gente
em busca de emprego de uns tempos para cá sente necessidade
de enrolá-la ao pescoço. Eis que ressurge,
e no lugar mais inesperado.
A gravata confere uma formalidade que não costuma
conviver com o futebol. Os técnicos mostram-se empertigados
como lordes, sóbrios como desembargadores, santos
como outrora os meninos na primeira comunhão. Há
algo que não combina, algo de falso, de irreal nisso,
até que... Até que a câmara de TV fecha
no rosto do técnico e flagra-o no momento entre todos
eletrizante de desferir o palavrão, um palavrão
de encher a boca, rico, expressivo que só não
merece o adjetivo "sonoro" porque não é sonoro,
é mudo, mas mesmo assim com todas as letras, tal
a explicitude dos movimentos labiais, ainda que os locutores,
fingindo não entendê-lo, informem que o técnico
acaba de ordenar ao time para atacar pelas pontas.
O palavrão nos restitui à realidade. O velho
futebol volta à inteireza de seu esculacho. O palavrão
desmente a sisudez do traje, desmoraliza a pretensão
à solenidade, desmonta a farsa. Ainda mais contundente,
mais abusivo, mais ferino e malcriado por ser um palavrão
mudo e de gravata.