Edição 1 638 - 1°/3/2000

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Inúteis e intocáveis

Ilustração Alê Setti
É raro que eu seja convidado a participar de feiras de livros ou congressos de escritores. O fato me irrita profundamente, porque eu, como todos os meus colegas, gosto muito de viajar de graça. Caso me convidassem, eu aceitaria viajar até para Chernobyl. E, com certeza, encontraria uns 25 escritores por lá. Talvez os mesmos 25 que tive a oportunidade de encontrar na semana passada, num congresso em Póvoa de Varzim, estância balneária perto do Porto, no norte de Portugal.

Você pode estar se perguntando o que uma cidadezinha como Póvoa de Varzim ganha ao organizar um encontro literário. Não ganha nada, claro. Debates entre escritores costumam ser um fiasco de público. E o pouco público que comparece se chateia à morte sem receber absolutamente nada em troca. Creio que circulem mais idéias num congresso de agentes imobiliários do que num de escritores. Na realidade, os únicos beneficiários desses eventos são os políticos que os organizam, pois garantem às suas administrações uma razoável quantidade de elogios sem correr o mínimo risco de ataques por parte da imprensa ou de políticos da oposição. Afinal, ninguém tem coragem de criticar despesas com escritores. Nós somos inúteis, mas intocáveis.

No congresso de Póvoa de Varzim, havia representantes das mais variadas realidades lusófonas: portugueses, angolanos, moçambicanos, açorianos, cabo-verdianos, são-tomenses. Também foram convidados dois galegos, um peruano, um colombiano e o chileno Luis Sepúlveda. A comitiva brasileira era formada por mim e João Ubaldo Ribeiro. Pouco tempo atrás, escrevi uma resenha maldosa sobre um de seus romances. Cavalheirescamente, ele evitou tocar no assunto, poupando-me o embaraço de ter de me explicar. É sinal de sua superioridade moral em relação a mim. Eu sou mesquinho e vingativo. Lembro o nome de todos os resenhistas que me criticaram e sempre faço o possível para prejudicá-los.

Póvoa de Varzim é a cidade mais feia de Portugal. A única coisa de que seus habitantes podem se vangloriar é que ali nasceu o escritor Eça de Queiroz. Em vez de aproveitar o pretexto para ficar falando horas e horas sobre os romances ecianos, em nosso congresso preferimos tratar de temas líricos, como o deserto de pedras de Cabo Verde ou o mar de Angola, até que José Luandino Vieira, um herói da independência angolana, que abandonou a literatura anos atrás, liquidou os demais conferencistas afirmando peremptoriamente que todos os mares lhe parecem idênticos e de um aborrecimento atroz.

Depois de quatro dias circundado por escritores, espero não revê-los por algum tempo. Nós somos uma gente muito sem graça. Em breve, porém, estarei desintoxicado, pronto para aceitar novos convites de viagem. Esses congressos podem ser perfeitamente inúteis para os leitores, mas ajudam os escritores a construir sólidas reputações literárias. Veja o caso de José Sarney, por exemplo. No ano passado, ele apresentou seu último romance em Póvoa de Varzim e, a seguir, retribuiu a gentileza convidando dez vereadores e jornalistas locais a visitar o Maranhão. É a melhor resposta àqueles que reclamam que a política não se interessa o suficiente por literatura.