Inúteis e intocáveis
Ilustração Alê Setti
É
raro que eu seja convidado a participar de feiras de livros
ou congressos de escritores. O fato me irrita profundamente,
porque eu, como todos os meus colegas, gosto muito de viajar
de graça. Caso me convidassem, eu aceitaria viajar
até para Chernobyl. E, com certeza, encontraria uns
25 escritores por lá. Talvez os mesmos 25 que tive
a oportunidade de encontrar na semana passada, num congresso
em Póvoa de Varzim, estância balneária
perto do Porto, no norte de Portugal.
Você pode estar se perguntando o que uma cidadezinha
como Póvoa de Varzim ganha ao organizar um encontro
literário. Não ganha nada, claro. Debates
entre escritores costumam ser um fiasco de público.
E o pouco público que comparece se chateia à
morte sem receber absolutamente nada em troca. Creio que
circulem mais idéias num congresso de agentes imobiliários
do que num de escritores. Na realidade, os únicos
beneficiários desses eventos são os políticos
que os organizam, pois garantem às suas administrações
uma razoável quantidade de elogios sem correr o mínimo
risco de ataques por parte da imprensa ou de políticos
da oposição. Afinal, ninguém tem coragem
de criticar despesas com escritores. Nós somos inúteis,
mas intocáveis.
No congresso de Póvoa de Varzim, havia representantes
das mais variadas realidades lusófonas: portugueses,
angolanos, moçambicanos, açorianos, cabo-verdianos,
são-tomenses. Também foram convidados dois
galegos, um peruano, um colombiano e o chileno Luis Sepúlveda.
A comitiva brasileira era formada por mim e João
Ubaldo Ribeiro. Pouco tempo atrás, escrevi uma resenha
maldosa sobre um de seus romances. Cavalheirescamente, ele
evitou tocar no assunto, poupando-me o embaraço de
ter de me explicar. É sinal de sua superioridade
moral em relação a mim. Eu sou mesquinho e
vingativo. Lembro o nome de todos os resenhistas que me
criticaram e sempre faço o possível para prejudicá-los.
Póvoa de Varzim é a cidade mais feia de
Portugal. A única coisa de que seus habitantes podem
se vangloriar é que ali nasceu o escritor Eça
de Queiroz. Em vez de aproveitar o pretexto para ficar falando
horas e horas sobre os romances ecianos, em nosso congresso
preferimos tratar de temas líricos, como o deserto
de pedras de Cabo Verde ou o mar de Angola, até que
José Luandino Vieira, um herói da independência
angolana, que abandonou a literatura anos atrás,
liquidou os demais conferencistas afirmando peremptoriamente
que todos os mares lhe parecem idênticos e de um aborrecimento
atroz.
Depois de quatro dias circundado por escritores, espero
não revê-los por algum tempo. Nós somos
uma gente muito sem graça. Em breve, porém,
estarei desintoxicado, pronto para aceitar novos convites
de viagem. Esses congressos podem ser perfeitamente inúteis
para os leitores, mas ajudam os escritores a construir sólidas
reputações literárias. Veja o caso
de José Sarney, por exemplo. No ano passado, ele
apresentou seu último romance em Póvoa de
Varzim e, a seguir, retribuiu a gentileza convidando dez
vereadores e jornalistas locais a visitar o Maranhão.
É a melhor resposta àqueles que reclamam que
a política não se interessa o suficiente por
literatura.