Edição 1 638 - 1°/3/2000

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Eu lavo louça, sim

Silvia, filha de brasileira, gosta de ser rainha, mas não dispensa um tempero plebeu na vida no palácio

Thaís Oyama

Silvia Renata de Toledo Sommerlath, a rainha da Suécia, está voltando ao Brasil. Aos 56 anos, bonita e elegante como sempre, ela escolheu o Brasil para lançar mundialmente, logo depois do Carnaval, a World Childhood Foundation, projeto que idealizou e tem por objetivo proteger crianças e adolescentes da violência e da falta de perspectivas imposta pela miséria. Nascida na Alemanha, filha de brasileira e educada dos 4 aos 13 anos em São Paulo, Silvia conheceu o rei Carlos Gustavo em 1972, quando trabalhava como chefe do cerimonial nas Olimpíadas de Munique. Nos quase 25 anos dedicados ao ofício de reinar, preocupou-se sempre em manter os pés bem fincados no chão – tanto os dela quanto os dos três filhos, Victoria, 22 anos, Carlos Felipe, 20, e Madeleine, 17. Repete roupas com freqüência, lava louça nos fins de semana e em perfeito português, quase sem sotaque, diz que desejaria não ter de ser sempre tão pontual. Simpática e sorridente, a rainha Silvia recebeu VEJA na última quinta-feira em um dos 609 aposentos do Palácio Real em Estocolmo.

Veja – No Brasil, embora muita gente saiba que a senhora nasceu na Alemanha, chamam-na de "a rainha brasileira". A senhora acha que tem algo de brasileira?
Rainha Silvia –
Dizem que eu sou brasileira de coração e alemã de cabeça... Quem sabe? O que posso dizer é que adoro o jeito brasileiro. A tolerância, o bom humor do povo, essa alegria genuína que as pessoas têm, eu adoro. Também tem outra coisa de que eu gosto muito no país, que é jabuticaba. É uma fruta muito especial, que eu nunca vi em outro lugar. Gostava de ir ao Brasil no fim do ano, que é tempo da fruta, mas, em minha última visita, descobri na fazenda de minha tia uma jabuticabeira que estava totalmente carregada em março! Jabuticabas são uma lembrança de minha infância. É uma fruta gostosa e toda criança adora porque é uma desculpa para cuspir, não?  

Veja – É verdade que o rei é um bom cozinheiro?
Rainha Silvia –
É verdade. Ele cozinha muito bem.

Veja – E qual o prato preferido dele?
Rainha Silvia –
Não vou contar, senão em todas as visitas que fizermos só vão servir isso... Mas o rei é um cozinheiro criativo. Inventa alguma coisa ou prova um prato e resolve tentar. Em geral, dá certo.  

Veja – Ele gosta de ficar sozinho quando cozinha ou tem auxiliares?
Rainha Silvia –
Eu sou sua assistente. Fico com a parte de lavar louça.  

Veja – Rainhas lavam louça?
Rainha Silvia –
Eu lavo. Nós temos o costume de, nos fins de semana, ficar sozinhos com as crianças. Até sábado de manhã temos ajuda, mas, depois, dispensamos os empregados e ficamos a sós. É muito divertido.  

Veja – O que vocês fazem?
Rainha Silvia –
Coisas que uma família normal faz. Cozinhamos juntos, por exemplo. Quando as crianças eram pequenas, naturalmente o prato dos sonhos delas era macarronada. Minha tia brasileira tinha uma receita muito boa e nos mandou. Como meus filhos não lêem português, ela enviou fotografias de todas as etapas de preparação do prato. Eu colocava as fotos lado a lado e cada um se encarregava de fazer uma parte do trabalho. Victoria misturava, Carlos Felipe cortava a massa e Madeleine, como era muito pequena, ficava no finzinho da linha de produção. Aproveitava para ficar comendo enquanto nós trabalhávamos.

Veja – Nos fins de semana, a família real é uma família normal, então?
Rainha Silvia –
Sim. Decidimos que seria assim porque vivemos uma vida muito oficial e queríamos ter uma vida particular também, especialmente por causa das crianças. É muito difícil para uma criança sentir-se numa família quando há sempre muita gente em volta. Mordomos, governantas, mesmo que estejam lá para ajudar, são sempre pessoas que se colocam entre os pais e os filhos. Então resolvemos que, pelo menos nos fins de semana, seríamos só nós e os filhos.  

Veja – Como toda família real, a da senhora sempre esteve na mira da imprensa. É verdade que quando a princesa Victoria estava para nascer a senhora foi ao hospital dirigindo o próprio carro para despistar os jornalistas?
Rainha Silvia –
Fui acompanhada pelo chofer. Na verdade, o que aconteceu foi que meu marido não estava em casa e não deu tempo de avisá-lo. Alguns jornalistas estrangeiros chegaram a montar uma tenda em frente do hospital. Isso me incomodou muito.

Veja – Por quê?
Rainha Silvia –
Além de ser uma situação muito íntima, é um momento de grande ansiedade para todas as mulheres, e de medo também. Eu estava com medo. A gente não sabe o que vai acontecer direito, não sabe como é. Era meu primeiro filho e, ainda por cima, meu marido não estava lá. Ter intrusos nesse momento é uma coisa que não deveria acontecer. Acho que os jornalistas não deveriam fazer esse tipo de coisa. Tirar fotos em enterros, por exemplo, em momentos de dor, de ansiedade. Não entendo como podem fazer isso com alguém.

Veja – Esse comportamento a incomodou particularmente durante o período em que a princesa Victoria sofreu de anorexia?
Rainha Silvia –
Esse foi um tempo muito difícil. No início, havia muita especulação, muita informação errada sendo veiculada. Então, resolvemos dizer: sim, ela tem essa doença e, por favor, respeitem.

Veja – E as pessoas respeitaram?
Rainha Silvia –
A imprensa entendeu a situação e a notícia foi recebida com comoção e compreensão. Mas o problema foi que os jornais não paravam de escrever sobre o assunto. E quando não havia mais o que escrever sobre Victoria eles passaram a falar sobre outras moças que tinham essa doença e depois sobre a mãe dessas moças e depois sobre os médicos dessas moças. Era algo que não acabava nunca. Victoria tinha de conviver com notícias sobre ela todos os dias. Foi muito duro.

Veja – A senhora chegou a se sentir culpada pela doença de sua filha? Chegou a se perguntar se tinha alguma responsabilidade pela situação?
Rainha Silvia –
Essa pergunta é inevitável. Acho que todos os pais em situações parecidas acabam por fazê-la. E, no caso de Victoria, como é uma doença tão diferente, é natural que isso ocorra. Eu pensei, sim. Como mãe, pensei: "O que fiz de errado?" Falei com vários médicos a respeito, mas é uma pergunta muito difícil de ser respondida. Eu não tenho a resposta.  

Veja – E o que a senhora diria para os pais que têm filhos nessa situação?
Rainha Silvia –
Acho que os aconselharia a não tentar resolver o problema sozinhos. É preciso procurar ajuda profissional, psicólogos, especialistas. E diria a eles que, antes de tudo, tentem fazer todo o esforço possível para não deixar que a doença machuque a relação deles com seus filhos. Porque é um processo muito difícil. Por causa de uma idéia fixa, uma obsessão, a pessoa passa fome, priva seu organismo de comida e isso a afeta como um todo, afeta inclusive seu modo de pensar e de sentir. A realidade e as relações ficam distorcidas.

Veja – Como ficou a relação da senhora com a princesa?
Rainha Silvia –
Victoria passou um período muito difícil. Ela está bem agora, mas ainda precisa de tempo e, principalmente, de tranqüilidade.

Veja – A organização que a senhora fundou e agora vai inaugurar no Brasil se dedica a ajudar principalmente crianças vítimas de abuso sexual. Por que essa escolha?
Rainha Silvia –
Porque acho que é um problema sobre o qual as pessoas não gostam muito de falar. Crianças sendo sexualmente molestadas por adultos é um assunto cercado de tabus, porque é um problema feio. Não é como falar de miséria, por exemplo, que é um problema, digamos, aceito – um que as pessoas não se importam em discutir. Mesmo aqui, na Suécia, todo mundo sabe que o abuso existe, mas eu notava que até amigos próximos não gostavam de falar sobre o assunto. Isso mudou a partir de 1992, 1993.

Veja – O que houve nessa época?
Rainha Silvia –
Foram dois episódios parecidos, um em cada ano. A polícia descobriu grupos que estavam usando crianças para produzir filmes pornográficos, que eram comercializados depois. Até então, não sabíamos quanto esses grupos eram organizados. Os suecos ficaram muito chocados com isso, tanto que, em 1996, organizamos aqui um congresso mundial para discutir o assunto.

Veja – Foi nesse congresso que a senhora fez um pronunciamento que lhe causou problemas...
Rainha Silvia –
Não, isso foi um pouco antes, num encontro da Unesco em Paris. Quando eu critiquei a indústria de vídeos pornográficos e disse que deveria haver um meio legal para combatê-la, alguns setores acharam que minha posição poderia significar uma ameaça à liberdade de expressão. A liberdade individual é uma garantia prevista na nossa Constituição e algo que o povo sueco, e eu também, prezamos muito. Algumas pessoas consideraram que, assim como a Constituição não permite que se censure a liberdade de um artista de exprimir seus pensamentos por meio da fotografia, também deve proteger quem faz um filme. O que eu disse foi que, se nossas leis não estavam mais de acordo com a realidade, deveriam ser atualizadas.

Veja – Isso foi considerado também uma interferência política, atitude que, na Suécia, é vetada aos reis, não?
Rainha Silvia –
Sim, mas o que houve foi um mal-entendido. Eu não disse que iria mudar a lei, mas que a lei deveria ser mudada, naturalmente por especialistas e de maneira democrática. Além disso, para mim, o problema não era político, e sim estritamente humano. Foi complicado, mas, ao final, o resultado foi bom. Houve uma grande discussão no país e o povo sueco me deu um apoio enorme. O governo formou uma comissão de especialistas, que incluiu Igreja, juristas e representantes de outros setores. Democraticamente, eles decidiram mudar a lei. Agora, é proibida a posse de filmes pornográficos no país e a polícia ganhou um instrumento para combater o problema.

Veja – Foi a partir dessa polêmica que a senhora decidiu montar a WCF?
Rainha Silvia –
Foi também a partir daí, mas, principalmente a partir das viagens que fizemos pelo mundo. Sempre gostei de observar o que acontece por trás das coisas, de ver o que se passa além do oficial, além dos jantares. Acabei vendo muita coisa. Sei, por exemplo, que há mais de 1 milhão de crianças vivendo em ambientes em que não deveriam estar. Queremos, todos nós da WCF, oferecer a elas uma oportunidade de se tornar pessoas mais felizes, cidadãos melhores. Mas a WCF também segue uma tradição que é muito sueca. Talvez pelo fato de não ter participado das duas guerras mundiais, o povo sueco tem muita preocupação em fazer sua parte para melhorar o mundo.

 Veja – A senhora não falava o sueco quando se tornou rainha. Foi difícil aprender?
Rainha Silvia –
Foi engraçado. Eu já falava alemão e inglês, que são línguas que a maioria dos suecos fala. Então, por delicadeza e também para facilitar as coisas para mim, as pessoas falavam comigo nesses idiomas e, dessa maneira, percebi que nunca aprenderia. No dia 1º de janeiro, cinco meses depois que me casei, fiz uma promessa de ano-novo. Prometi que iria aprender o sueco de qualquer maneira e determinei que ninguém mais falasse comigo em outra língua. As pessoas tiveram muita paciência comigo, eu cometia muitos erros.

Veja – E alguém tinha coragem de corrigir a rainha?
Rainha Silvia –
No começo, não. Não só na língua, mas em assuntos de comportamento, por amabilidade ou respeito, as pessoas não me corrigiam. Quando eu perguntava como deveriam ser as coisas, elas respondiam: "Como sua majestade quiser", "Sua majestade decide". Mas eu sempre pedi respostas sinceras. E isso ficou claro com o tempo.

Veja – A senhora chegou a cometer alguma gafe?
Rainha Silvia –
Muitas! Lembro-me de um problema que tive quando comecei a falar o sueco, que era não saber diferenciar a linguagem apropriada das gírias que ouvia. Eu incorporava algumas no meu vocabulário e por causa disso não fui muito adequada em diversas situações.

Veja – Por exemplo?
Rainha Silvia –
Uma vez foi na TV. Estava sendo entrevistada e falava sobre um assunto do qual não me recordo, talvez fosse um projeto. Ao responder a uma pergunta, disse algo que, em português, seria mais ou menos como: "Para isso é preciso, sobretudo, grana". A entrevistadora riu muito.

Veja – A senhora costuma dizer que ser rainha é uma profissão. Qual o lado desagradável dessa profissão?
Rainha Silvia –
Talvez o mais difícil seja o fato de não poder fazer coisas por impulso, quando se tem vontade. "Ah, tem um filme muito bom no cinema. Começa daqui a pouco, vamos lá?" Naturalmente que eu vou ao cinema, mas não posso ir dessa maneira, sem preparo, sem programação, sem aparato. Há diversas coisas na nossa vida que nós temos de levar em consideração antes de fazer o que queremos.  

Veja – E o que, como rainha, a senhora não pode fazer e gostaria de poder?
Rainha Silvia –
Chegar atrasada ou chegar cedo aos lugares. Os suecos são muito pontuais. Eles não falam: a cerimônia será à 1 hora. Dizem: será à 1 hora e zero minuto. Então, se você chega um minuto antes, é uma catástrofe, você estraga tudo. As luzes vão estar apagadas, a menininha com as flores na mão ainda não vai ter chegado...

 
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