Eu lavo louça, sim
Silvia, filha de brasileira, gosta de ser
rainha, mas não dispensa um tempero plebeu na vida
no palácio
Thaís Oyama
Silvia Renata de Toledo Sommerlath, a rainha da Suécia,
está voltando ao Brasil. Aos 56 anos, bonita e elegante
como sempre, ela escolheu o Brasil para lançar mundialmente,
logo depois do Carnaval, a World Childhood Foundation, projeto
que idealizou e tem por objetivo proteger crianças
e adolescentes da violência e da falta de perspectivas
imposta pela miséria. Nascida na Alemanha, filha
de brasileira e educada dos 4 aos 13 anos em São
Paulo, Silvia conheceu o rei Carlos Gustavo em 1972, quando
trabalhava como chefe do cerimonial nas Olimpíadas
de Munique. Nos quase 25 anos dedicados ao ofício
de reinar, preocupou-se sempre em manter os pés bem
fincados no chão tanto os dela quanto os dos três
filhos, Victoria, 22 anos, Carlos Felipe, 20, e Madeleine,
17. Repete roupas com freqüência, lava louça
nos fins de semana e em perfeito português, quase
sem sotaque, diz que desejaria não ter de ser sempre
tão pontual. Simpática e sorridente, a rainha
Silvia recebeu VEJA na última quinta-feira em um
dos 609 aposentos do Palácio Real em Estocolmo.
Veja No Brasil, embora muita gente saiba que
a senhora nasceu na Alemanha, chamam-na de "a rainha brasileira".
A senhora acha que tem algo de brasileira?
Rainha Silvia Dizem que eu sou brasileira de
coração e alemã de cabeça...
Quem sabe? O que posso dizer é que adoro o jeito
brasileiro. A tolerância, o bom humor do povo, essa
alegria genuína que as pessoas têm, eu adoro.
Também tem outra coisa de que eu gosto muito no país,
que é jabuticaba. É uma fruta muito especial,
que eu nunca vi em outro lugar. Gostava de ir ao Brasil
no fim do ano, que é tempo da fruta, mas, em minha
última visita, descobri na fazenda de minha tia uma
jabuticabeira que estava totalmente carregada em março!
Jabuticabas são uma lembrança de minha infância.
É uma fruta gostosa e toda criança adora porque
é uma desculpa para cuspir, não?
Veja É verdade que o rei é um
bom cozinheiro?
Rainha Silvia É verdade. Ele cozinha muito
bem.
Veja E qual o prato preferido dele?
Rainha Silvia Não vou contar, senão
em todas as visitas que fizermos só vão servir
isso... Mas o rei é um cozinheiro criativo. Inventa
alguma coisa ou prova um prato e resolve tentar. Em geral,
dá certo.
Veja Ele gosta de ficar sozinho quando cozinha
ou tem auxiliares?
Rainha Silvia Eu sou sua assistente. Fico com
a parte de lavar louça.
Veja Rainhas lavam louça?
Rainha Silvia Eu lavo. Nós temos o costume
de, nos fins de semana, ficar sozinhos com as crianças.
Até sábado de manhã temos ajuda, mas,
depois, dispensamos os empregados e ficamos a sós.
É muito divertido.
Veja O que vocês fazem?
Rainha Silvia Coisas que uma família normal
faz. Cozinhamos juntos, por exemplo. Quando as crianças
eram pequenas, naturalmente o prato dos sonhos delas era
macarronada. Minha tia brasileira tinha uma receita muito
boa e nos mandou. Como meus filhos não lêem
português, ela enviou fotografias de todas as etapas
de preparação do prato. Eu colocava as fotos
lado a lado e cada um se encarregava de fazer uma parte
do trabalho. Victoria misturava, Carlos Felipe cortava a
massa e Madeleine, como era muito pequena, ficava no finzinho
da linha de produção. Aproveitava para ficar
comendo enquanto nós trabalhávamos.
Veja Nos fins de semana, a família real
é uma família normal, então?
Rainha Silvia Sim. Decidimos que seria assim
porque vivemos uma vida muito oficial e queríamos
ter uma vida particular também, especialmente por
causa das crianças. É muito difícil
para uma criança sentir-se numa família quando
há sempre muita gente em volta. Mordomos, governantas,
mesmo que estejam lá para ajudar, são sempre
pessoas que se colocam entre os pais e os filhos. Então
resolvemos que, pelo menos nos fins de semana, seríamos
só nós e os filhos.
Veja Como toda família real, a da senhora
sempre esteve na mira da imprensa. É verdade que
quando a princesa Victoria estava para nascer a senhora
foi ao hospital dirigindo o próprio carro para despistar
os jornalistas?
Rainha Silvia Fui acompanhada pelo chofer. Na
verdade, o que aconteceu foi que meu marido não estava
em casa e não deu tempo de avisá-lo. Alguns
jornalistas estrangeiros chegaram a montar uma tenda em
frente do hospital. Isso me incomodou muito.
Veja Por quê?
Rainha Silvia Além de ser uma situação
muito íntima, é um momento de grande ansiedade
para todas as mulheres, e de medo também. Eu estava
com medo. A gente não sabe o que vai acontecer direito,
não sabe como é. Era meu primeiro filho e,
ainda por cima, meu marido não estava lá.
Ter intrusos nesse momento é uma coisa que não
deveria acontecer. Acho que os jornalistas não deveriam
fazer esse tipo de coisa. Tirar fotos em enterros, por exemplo,
em momentos de dor, de ansiedade. Não entendo como
podem fazer isso com alguém.
Veja Esse comportamento a incomodou particularmente
durante o período em que a princesa Victoria sofreu
de anorexia?
Rainha Silvia Esse foi um tempo muito difícil.
No início, havia muita especulação,
muita informação errada sendo veiculada. Então,
resolvemos dizer: sim, ela tem essa doença e, por
favor, respeitem.
Veja E as pessoas respeitaram?
Rainha Silvia A imprensa entendeu a situação
e a notícia foi recebida com comoção
e compreensão. Mas o problema foi que os jornais
não paravam de escrever sobre o assunto. E quando
não havia mais o que escrever sobre Victoria eles
passaram a falar sobre outras moças que tinham essa
doença e depois sobre a mãe dessas moças
e depois sobre os médicos dessas moças. Era
algo que não acabava nunca. Victoria tinha de conviver
com notícias sobre ela todos os dias. Foi muito duro.
Veja A senhora chegou a se sentir culpada pela
doença de sua filha? Chegou a se perguntar se tinha
alguma responsabilidade pela situação?
Rainha Silvia Essa pergunta é inevitável.
Acho que todos os pais em situações parecidas
acabam por fazê-la. E, no caso de Victoria, como é
uma doença tão diferente, é natural
que isso ocorra. Eu pensei, sim. Como mãe, pensei:
"O que fiz de errado?" Falei com vários médicos
a respeito, mas é uma pergunta muito difícil
de ser respondida. Eu não tenho a resposta.
Veja E o que a senhora diria para os pais que
têm filhos nessa situação?
Rainha Silvia Acho que os aconselharia a não
tentar resolver o problema sozinhos. É preciso procurar
ajuda profissional, psicólogos, especialistas. E
diria a eles que, antes de tudo, tentem fazer todo o esforço
possível para não deixar que a doença
machuque a relação deles com seus filhos.
Porque é um processo muito difícil. Por causa
de uma idéia fixa, uma obsessão, a pessoa
passa fome, priva seu organismo de comida e isso a afeta
como um todo, afeta inclusive seu modo de pensar e de sentir.
A realidade e as relações ficam distorcidas.
Veja Como ficou a relação da senhora
com a princesa?
Rainha Silvia Victoria passou um período
muito difícil. Ela está bem agora, mas ainda
precisa de tempo e, principalmente, de tranqüilidade.
Veja A organização que a senhora
fundou e agora vai inaugurar no Brasil se dedica a ajudar
principalmente crianças vítimas de abuso sexual.
Por que essa escolha?
Rainha Silvia Porque acho que é um problema
sobre o qual as pessoas não gostam muito de falar.
Crianças sendo sexualmente molestadas por adultos
é um assunto cercado de tabus, porque é um
problema feio. Não é como falar de miséria,
por exemplo, que é um problema, digamos, aceito
um que as pessoas não se importam em discutir. Mesmo
aqui, na Suécia, todo mundo sabe que o abuso existe,
mas eu notava que até amigos próximos não
gostavam de falar sobre o assunto. Isso mudou a partir de
1992, 1993.
Veja O que houve nessa época?
Rainha Silvia Foram dois episódios parecidos,
um em cada ano. A polícia descobriu grupos que estavam
usando crianças para produzir filmes pornográficos,
que eram comercializados depois. Até então,
não sabíamos quanto esses grupos eram organizados.
Os suecos ficaram muito chocados com isso, tanto que, em
1996, organizamos aqui um congresso mundial para discutir
o assunto.
Veja Foi nesse congresso que a senhora fez um
pronunciamento que lhe causou problemas...
Rainha Silvia Não, isso foi um pouco antes,
num encontro da Unesco em Paris. Quando eu critiquei a indústria
de vídeos pornográficos e disse que deveria
haver um meio legal para combatê-la, alguns setores
acharam que minha posição poderia significar
uma ameaça à liberdade de expressão.
A liberdade individual é uma garantia prevista na
nossa Constituição e algo que o povo sueco,
e eu também, prezamos muito. Algumas pessoas consideraram
que, assim como a Constituição não
permite que se censure a liberdade de um artista de exprimir
seus pensamentos por meio da fotografia, também deve
proteger quem faz um filme. O que eu disse foi que, se nossas
leis não estavam mais de acordo com a realidade,
deveriam ser atualizadas.
Veja Isso foi considerado também uma interferência
política, atitude que, na Suécia, é
vetada aos reis, não?
Rainha Silvia Sim, mas o que houve foi um mal-entendido.
Eu não disse que iria mudar a lei, mas que a lei
deveria ser mudada, naturalmente por especialistas e de
maneira democrática. Além disso, para mim,
o problema não era político, e sim estritamente
humano. Foi complicado, mas, ao final, o resultado foi bom.
Houve uma grande discussão no país e o povo
sueco me deu um apoio enorme. O governo formou uma comissão
de especialistas, que incluiu Igreja, juristas e representantes
de outros setores. Democraticamente, eles decidiram mudar
a lei. Agora, é proibida a posse de filmes pornográficos
no país e a polícia ganhou um instrumento
para combater o problema.
Veja Foi a partir dessa polêmica que a
senhora decidiu montar a WCF?
Rainha Silvia Foi também a partir daí,
mas, principalmente a partir das viagens que fizemos pelo
mundo. Sempre gostei de observar o que acontece por trás
das coisas, de ver o que se passa além do oficial,
além dos jantares. Acabei vendo muita coisa. Sei,
por exemplo, que há mais de 1 milhão de crianças
vivendo em ambientes em que não deveriam estar. Queremos,
todos nós da WCF, oferecer a elas uma oportunidade
de se tornar pessoas mais felizes, cidadãos melhores.
Mas a WCF também segue uma tradição
que é muito sueca. Talvez pelo fato de não
ter participado das duas guerras mundiais, o povo sueco
tem muita preocupação em fazer sua parte para
melhorar o mundo.
Veja A senhora não falava o sueco
quando se tornou rainha. Foi difícil aprender?
Rainha Silvia Foi engraçado. Eu já
falava alemão e inglês, que são línguas
que a maioria dos suecos fala. Então, por delicadeza
e também para facilitar as coisas para mim, as pessoas
falavam comigo nesses idiomas e, dessa maneira, percebi
que nunca aprenderia. No dia 1º de janeiro, cinco meses
depois que me casei, fiz uma promessa de ano-novo. Prometi
que iria aprender o sueco de qualquer maneira e determinei
que ninguém mais falasse comigo em outra língua.
As pessoas tiveram muita paciência comigo, eu cometia
muitos erros.
Veja E alguém tinha coragem de corrigir
a rainha?
Rainha Silvia No começo, não. Não
só na língua, mas em assuntos de comportamento,
por amabilidade ou respeito, as pessoas não me corrigiam.
Quando eu perguntava como deveriam ser as coisas, elas respondiam:
"Como sua majestade quiser", "Sua majestade decide". Mas
eu sempre pedi respostas sinceras. E isso ficou claro com
o tempo.
Veja A senhora chegou a cometer alguma gafe?
Rainha Silvia Muitas! Lembro-me de um problema
que tive quando comecei a falar o sueco, que era não
saber diferenciar a linguagem apropriada das gírias
que ouvia. Eu incorporava algumas no meu vocabulário
e por causa disso não fui muito adequada em diversas
situações.
Veja Por exemplo?
Rainha Silvia Uma vez foi na TV. Estava sendo
entrevistada e falava sobre um assunto do qual não
me recordo, talvez fosse um projeto. Ao responder a uma
pergunta, disse algo que, em português, seria mais
ou menos como: "Para isso é preciso, sobretudo, grana".
A entrevistadora riu muito.
Veja A senhora costuma dizer que ser rainha
é uma profissão. Qual o lado desagradável
dessa profissão?
Rainha Silvia Talvez o mais difícil seja
o fato de não poder fazer coisas por impulso, quando
se tem vontade. "Ah, tem um filme muito bom no cinema. Começa
daqui a pouco, vamos lá?" Naturalmente que eu vou
ao cinema, mas não posso ir dessa maneira, sem preparo,
sem programação, sem aparato. Há diversas
coisas na nossa vida que nós temos de levar em consideração
antes de fazer o que queremos.
Veja E o que, como rainha, a senhora não
pode fazer e gostaria de poder?
Rainha Silvia Chegar atrasada ou chegar cedo
aos lugares. Os suecos são muito pontuais. Eles não
falam: a cerimônia será à 1 hora. Dizem:
será à 1 hora e zero minuto. Então,
se você chega um minuto antes, é uma catástrofe,
você estraga tudo. As luzes vão estar apagadas,
a menininha com as flores na mão ainda não
vai ter chegado...
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