Edição 1 638 - 1°/3/2000

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Orçamenteiros e caloteiros

"Obrigar o Banco Central a baixar as taxas a fim de reduzir a despesa com pagamento de juros é consagrar o princípio de que o rabo balança o cachorro"

Ilustração Ale Setti


Em Brasília, são chamados de "orçamenteiros" os técnicos (em orçamento, é claro) que existem nos diversos ministérios, e especialmente no Congresso, a serviço dos membros da poderosa Comissão de Orçamento. Os melhores e mais influentes da classe têm tido um papel importantíssimo ao longo da última década em fazer a cabeça das nossas lideranças políticas no terreno das finanças públicas. Muitos economistas acusam os "orçamenteiros" de ensinar os políticos a olhar para a irresponsabilidade fiscal e enxergar outra coisa. Outros acham que os economistas não são muito diferentes (uma parte deles, pelo menos), pois tudo que os "orçamenteiros" fazem é dizer aos políticos o que eles querem ouvir e, principalmente, ensiná-los a executar. Há anos os "orçamenteiros" brigam com os economistas em torno do ajuste fiscal. Agora mesmo, na discussão da Lei de Responsabilidade Fiscal, LRF, estamos assistindo a mais uma dessas brigas. E, desta vez, o tema central é o custo da dívida pública.

Para entender a controvérsia é preciso lembrar que, na época da hiperinflação, prevalecia uma espécie de "regra de ouro" na confecção do Orçamento: era sacrilégio usar receitas tributárias para pagar juros, que deveriam ser pagos com recursos originados da emissão de dívida pública. Obedecida ao pé da letra essa regra aparentemente inofensiva, o superávit primário (o resultado fiscal antes dos pagamentos de juros) ficava limitado a zero, criando-se assim a ficção de que o déficit se devia unicamente aos juros, ou à "ciranda financeira", ou mesmo que não existia. E graças a essa "segregação" nas contas fiscais surgiram muitas teorias exóticas sobre os nossos problemas fiscais. O ex-ministro Luiz Carlos Bresser Pereira dizia que o déficit público tinha "caráter financeiro". O ex-ministro Mario Henrique Simonsen respondia que o déficit não tinha caráter. Surgiram, então, as teorias da "inflação inercial", alegando que a inflação se devia à indexação e que não tinha raízes fiscais, pois o déficit primário era pequeno. E graças a essas construções retóricas fizemos vários congelamentos e demos alguns calotes na dívida pública, cuja única virtude teria sido, talvez, sepultar essas "teorias" heterodoxas sobre a relação entre as finanças públicas e a inflação.

Recentemente, todavia, a discussão da Lei de Responsabilidade Fiscal veio demonstrar que os "orçamenteiros" continuam lá onde sempre estiveram. A nova lei determina que, na presença de déficit, devem ser cortadas as despesas que não são protegidas pela Constituição, tipicamente investimentos. Quem mal consegue pagar o custeio não pode mesmo se meter a investir, não é isso? Mas os "orçamenteiros", os economistas do PT e os do Ministério da Saúde alegam que é um absurdo comprimir investimentos "no social" a fim de preservar a integridade do serviço da dívida pública. Os pagamentos de juros devem ser reduzidos, ao menos proporcionalmente aos cortes nos investimentos, sugerem alguns deles.

Não há precedente neste planeta para uma regra desse tipo (um calote previsto em lei), que obviamente destrói o crédito público. Para os que não acreditam nisso e alegam que o Plano Collor não destruiu coisa alguma, basta tentar pensar um motivo para que a nossa dívida pública seja tão cara e curta.

Outra possibilidade, ainda mais ousada, é uma regra segundo a qual o Banco Central estaria obrigado a baixar a taxa de juros a fim de reduzir a despesa com pagamentos de juros. Seria, então, consagrado o princípio de que o rabo balança o cachorro, pois a política fiscal irresponsável teria como conseqüência impor ao BC uma política monetária consistente com a irresponsabilidade.

Essas teses andam sobrevoando perigosamente a discussão da Lei de Responsabilidade Fiscal no Senado. Sua expressão mais vigarista é a que supõe a seguinte relação: ao proteger a integridade dos pagamentos de juros, a LRF favorece os bancos. Para esconjurar essa tolice basta lembrar que o Plano Collor quebrou metade do Brasil, mas não quebrou nenhum banco.

Gustavo Franco é economista da PUC-RJ
e ex-presidente do Banco Central (gfranco@palavra.inf.br)