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Ponto
de vista: Claudio de Moura Castro No
país dos decibéis
"Será
que o baixo crescimento da economia não seria o resultado do excesso
de barulho?" Ao fazer as malas para o Brasil,
após quinze anos na Suíça e nos Estados Unidos, assaltava-me
o temor de um choque cultural. Como a Batalha de Itararé, o choque não
ocorreu, foi ajustamento instantâneo. Mas houve uma exceção:
o choque dos decibéis. Eu vinha de uma Suíça
onde em muitos edifícios é proibido tomar banho e puxar a descarga
após as 10 horas da noite. Os ônibus são silenciosos, e aviões
barulhentos não pousam lá. Os cachorros não latem, e as crianças
não berram. É proibido cortar grama aos domingos, por causa do barulho
das máquinas. Lá eclodiu um célebre processo judicial contra
os cincerros das vaquinhas que incomodavam um vizinho. Fiquei mal-acostumado,
adquiri hábitos alienados. Aqui estou, depositado
no país dos decibéis. Ônibus e caminhões urram dentro
da lei dos 88 decibéis máximos, quando na Europa a norma é
74 (sendo a escala de decibéis logarítmica, o volume de som é
muitas vezes maior!). Muitos urram fora da lei. Uivam motos sem silenciosos. Os
pneus cantam nas curvas. A cachorrada da vizinhança tem cordas vocais de
aço-molibdênio. As igrejas e os cultos confundem decibéis
com fé.
Ilustração
Ale Setti
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A
obra-prima da agressão sonora são uns automóveis cujos porta-malas
se abrem revelando uma bateria de alto-falantes, terrível usina de decibéis.
Felizmente, algumas cidades turísticas estão comprando decibelímetros,
para não perder clientes antiquados como eu.
As salas de aula não têm tratamento acústico. Parece até
que foram planejadas para maximizar a refletância ambiente (as piores são
as dos Cieps). A norma da ABNT para salas de aula estipula um máximo de
40 a 50 decibéis, mas o nível de ruído atinge 75 em casos
comprovados. O ruído impede a atenção ou mesmo impede de
ouvir o professor. Em quantos pontos faz cair o rendimento dos alunos brasileiros?
Nos restaurantes, a barulheira não está
no cardápio, mas é parte do serviço. É como se o objetivo
de manter uma conversação relaxada e inteligente fosse coisa subversiva,
a ser impedida pelas múltiplas ressonâncias amplificadas pelas
superfícies lisas e paralelas. Um proprietário experiente disse
que restaurante silencioso espanta clientes. Parece
que o choque de gerações se concentra nos decibéis. Na música,
são o sonho de consumo, indo muito além dos níveis máximos
das normas de saúde ocupacional. E, diante dos que reclamam, a polícia
candidamente confessa não saber bem o que fazer nem qual unidade cuida
do assunto. Ou, então, vai inspecionar no dia seguinte ao da festa.
O que menos me incomoda é a música das boates, apesar de ensurdecedora.
É que, após uma experiência traumatizante, aprendi minha lição.
Não entro nelas em hipótese nenhuma. Se lá dentro estivesse,
de bom grado pagaria para sair. Segundo os padrões
da Organização Mundial da Saúde (OMS), 65 decibéis
marcam o limiar do que faz mal à saúde dependendo do tempo
de exposição. Verificou-se que ruído excessivo aumenta a
adrenalina, provoca alta de pressão, stress, insônia e (em Berlim)
aumenta em 20% a probabilidade de infarto. Nos Estados Unidos, 10 milhões
de pessoas perderam a audição (ou parte dela) por excesso de ruído
e parece que os números aumentam. Lá, o seguro-saúde
é mais caro para quem trabalha em lugares barulhentos. Entre nós,
quantos milhões convivem com muito mais decibéis do que a lei permite
em fábricas? Uma banda de rock emite tantos malditos decibéis quanto
uma turbina de avião (130 decibéis).
O ruído nas ruas, nas escolas e nos hospitais costuma estar acima do máximo
da OMS. Será possível aprender em salas de aula tão ruidosas?
Por que ignorar os males que faz à saúde? Será que o baixo
crescimento da economia não seria o resultado do excesso de barulho? A
sociedade não estaria sendo anestesiada ou hipnotizada por uma forma sinistra
de conspiração sonora? Manifesto
a minha revolta auditiva contra um povo que confunde alegria com barulho. Parece
que música alta libera hormônios, dando um "barato". Que seja. Mas
o prazer de uns poucos não pode ser à custa do incômodo de
outros. O som que me incomoda invadiu ilegalmente a minha privacidade. Temos o
direito ao silêncio. Claudio
de Moura Castro é economista (claudiodmc@attglobal.net)
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