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Ensaio:
Roberto Pompeu de Toledo
Em torno da mesa,
com Homero ou Machado
A bonita
história de jovens
de escolas públicas que
se reúnem em círculos
de leitura
"Cada criatura humana traz duas
almas consigo: uma que olha de dentro para fora, outra que olha
de fora para dentro." Reunido em torno de uma mesa, um grupo de
jovens lê o conto O Espelho, de Machado de Assis. Cada
um lê um trecho e cede a vez para o jovem ao lado continuar.
"Está claro que o ofício dessa segunda alma é
transmitir a vida, como a primeira; as duas completam o homem, que
é, metafisicamente falando, uma laranja." A prosa de Machado
vai circulando em volta da mesa. A qualquer momento, a leitura pode
ser interrompida para um comentário. Que segunda alma seria
essa de que fala o autor? No fim da leitura, trava-se uma discussão
em que se tenta chegar a uma síntese das idéias suscitadas
pelo texto.
Estamos numa das reuniões
dos Círculos de Leitura, projeto desenvolvido pelo Instituto
Fernand Braudel de Economia Mundial, um centro de pesquisa e debates
com sede em São Paulo (veja
entrevista nas páginas amarelas desta edição).
Quando se dedicava a pesquisas sobre a violência em Diadema,
município da Grande São Paulo, o americano Norman
Gall, diretor executivo do instituto, teve reforçada sua
convicção de que nenhum trabalho de promoção
social, nesse ou em qualquer outro município, chega a algum
lugar sem passar de algum modo pela escola pública. Sua mulher,
a psicanalista Catalina Pagés, espanhola da Catalunha e radicada
no Brasil há quarenta anos, tinha experiência de coordenar
leituras com os internos do Manicômio Judiciário. E
se ela fizesse o mesmo com os alunos das escolas públicas?
Nasceu assim uma bonita e bem-sucedida iniciativa, hoje no seu sétimo
ano de existência.
Os Círculos de Leitura
vêm ao socorro de um dos mais gritantes defeitos da educação
brasileira: não ensinar a ler. Ou, mais precisamente: produzir
alunos capazes de recitar as palavras contidas numa sentença,
mas incapazes de captar-lhes o sentido. Hoje eles se multiplicam
por 24 escolas dos bairros mais problemáticos de Diadema
e dos vizinhos municípios do ABC paulista. Os jovens de 13
a 17 anos neles reunidos já foram apresentados a clássicos
como a Odisséia, de Homero, O Banquete, de
Platão, Romeu e Julieta, de Shakespeare, e O Velho
e o Mar, de Hemingway. Quando o ex-chefe de governo espanhol
Felipe González esteve no Brasil, para um seminário
no Instituto Fernand Braudel, reservou uma tarde para ler e debater,
com um dos grupos, O Conto da Ilha Desconhecida, de José
Saramago, ele falando espanhol, os meninos e meninas, português.
Um grupo recente chegou à conclusão de que o final
de Huckleberry Finn, de Mark Twain, era artificial e inconsistente
com a evolução experimentada pelo personagem ao longo
do livro. Impuseram-se então como tarefa criar desfechos
diferentes.
Não se imagine que os
círculos se constituam na base da boa vontade amadorística.
Eles se estruturam em regras e critérios dos quais dependem
sua eficácia e durabilidade. Uma tarefa delicada é
manter com os professores e diretores das escolas um relacionamento
que lhes evite a pecha de invasores da seara alheia. Sob a orientação
de Catalina ou de sua parceira Patrícia Guedes trabalham
os chamados "educadores", jovens em geral na faixa dos 20 anos que,
muitas vezes formados nos próprios círculos, se encarregam
de coordenar os diferentes grupos. Os educadores são auxiliados
pelos "multiplicadores", escolhidos entre os próprios alunos
e que entre outras tarefas têm a de escrever um "diário
de bordo" sobre o andamento de seus grupos. Tanto educadores como
multiplicadores são remunerados. Como regra, as reuniões
se dão nas próprias escolas. Os alunos que mais se
destacam são convidados a integrar grupos que se reúnem
em São Paulo, coordenados muitas vezes pela própria
Catalina.
Dado o sucesso que os círculos
vêm experimentando, há uma demanda que pressiona por
seu crescimento. Prefere-se no entanto ir devagar, para não
comprometer a qualidade. Para arcar com os custos, conta-se com
o apoio do Instituto Unibanco e da Fundação GE. Além
da remuneração de educadores e multiplicadores, há
despesas com livros e com o transporte dos jovens que se deslocam
a São Paulo. Todos eles são pobres, muitos filhos
de migrantes. Catalina enfrenta situações como a de
uma mãe que queria levar o filho de volta para o Nordeste,
o que significaria abandonar a escola e os Círculos de Leitura.
Essa mãe foi chamada para conversar e convencida de que era
um pecado truncar o desenvolvimento de um filho que mostrava talento
e vontade de aprender. Os Círculos de Leitura têm descoberto,
nos meios pobres, meninos e meninas de incomuns qualidades. Por
um lado, isso traz o conforto de saber que existem meios de ajudar
a evolução de jovens nascidos em ambientes ingratos.
Por outro lado, joga luz sobre a tragédia brasileira, quando
se dá conta de que os grupos de Catalina e de Norman Gall
são apenas um pingo d'água no deserto de desperdício
de talentos imposto pela pobreza e pela falta de oportunidades.
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