|
|
Carta ao leitor
Riqueza sem monopólio
Reprodução
 |
| Manifestação pela estatização
das refinarias privadas, nos anos 60 |
Uma reportagem especial desta
edição de VEJA mostra que o Brasil atingiu uma invejável
posição no campo energético. A um só
tempo o país se tornou auto-suficiente em petróleo
e assumiu a liderança mundial na tecnologia dos carros aqui
batizados de "flex", aqueles cujos motores funcionam com igual eficiência
quando alimentados por gasolina ou álcool e, em alguns
casos, até gás natural. Sete em cada dez automóveis
fabricados no Brasil são multicombustíveis. Nenhum
outro país fabrica em massa carros com essa versatilidade.
Os veículos híbridos feitos nos Estados Unidos, na
Europa e no Japão têm dois motores, um a gasolina e
o outro, elétrico. São raridade. Respondem por pouco
mais de 1% da produção total. Outra vertente alternativa,
a dos carros movidos a hidrogênio, não sairá
tão cedo da fase de produzir protótipos.
Antes que o atual governo reivindique
a paternidade desse formidável avanço, o que será
inevitável em um ano de eleição presidencial,
é bom lembrar que ele é fruto do esforço intelectual
de indivíduos, instituições de pesquisa e investidores
cuja filiação partidária em nada influiu em
seus sucessos. A reportagem de VEJA demonstra também que
a verdadeira riqueza de um país não está nas
suas matérias-primas, mas na capacidade tecnológica
e empresarial de transformar os recursos naturais em produtos com
alta demanda no mercado. Isso exige alto grau de educação,
disponibilidade de capital e um ambiente econômico que favoreça
e premie a inovação. Também nesse campo o Brasil
avançou muito. O repórter João Gabriel de Lima,
responsável por parte da apuração da reportagem
especial, descreve como os melhores cérebros brasileiros
com capacidade tecnológica e empresarial já conseguem
abrir empresas aqui, mesmo que sejam obrigados a expandir seus negócios
para o Vale do Silício, na Califórnia. Diz Gabriel:
"O ambiente de negócio no Brasil já lhes permite instalar-se,
mas para crescer é preciso buscar lá fora capital
e uma economia menos burocratizada". Como se vê, há
muito por fazer. Mas os avanços são quase inimagináveis
à luz da arcaica mentalidade mercantilista de gerações
de brasileiros, doutrinados a acreditar no monopólio estatal
como caminho para a independência energética e tecnológica.
|