Edição 1941 . de fevereiro de 2006

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Carta ao leitor
Riqueza sem monopólio

Reprodução
Manifestação pela estatização das refinarias privadas, nos anos 60

Uma reportagem especial desta edição de VEJA mostra que o Brasil atingiu uma invejável posição no campo energético. A um só tempo o país se tornou auto-suficiente em petróleo e assumiu a liderança mundial na tecnologia dos carros aqui batizados de "flex", aqueles cujos motores funcionam com igual eficiência quando alimentados por gasolina ou álcool – e, em alguns casos, até gás natural. Sete em cada dez automóveis fabricados no Brasil são multicombustíveis. Nenhum outro país fabrica em massa carros com essa versatilidade. Os veículos híbridos feitos nos Estados Unidos, na Europa e no Japão têm dois motores, um a gasolina e o outro, elétrico. São raridade. Respondem por pouco mais de 1% da produção total. Outra vertente alternativa, a dos carros movidos a hidrogênio, não sairá tão cedo da fase de produzir protótipos.

Antes que o atual governo reivindique a paternidade desse formidável avanço, o que será inevitável em um ano de eleição presidencial, é bom lembrar que ele é fruto do esforço intelectual de indivíduos, instituições de pesquisa e investidores cuja filiação partidária em nada influiu em seus sucessos. A reportagem de VEJA demonstra também que a verdadeira riqueza de um país não está nas suas matérias-primas, mas na capacidade tecnológica e empresarial de transformar os recursos naturais em produtos com alta demanda no mercado. Isso exige alto grau de educação, disponibilidade de capital e um ambiente econômico que favoreça e premie a inovação. Também nesse campo o Brasil avançou muito. O repórter João Gabriel de Lima, responsável por parte da apuração da reportagem especial, descreve como os melhores cérebros brasileiros com capacidade tecnológica e empresarial já conseguem abrir empresas aqui, mesmo que sejam obrigados a expandir seus negócios para o Vale do Silício, na Califórnia. Diz Gabriel: "O ambiente de negócio no Brasil já lhes permite instalar-se, mas para crescer é preciso buscar lá fora capital e uma economia menos burocratizada". Como se vê, há muito por fazer. Mas os avanços são quase inimagináveis à luz da arcaica mentalidade mercantilista de gerações de brasileiros, doutrinados a acreditar no monopólio estatal como caminho para a independência energética e tecnológica.

 
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